Saturday, September 29, 2007

Recordando Samora Machel: se vivo, completaria hoje 74 anos!

Se vivo, Samora Moises Machel completaria hoje 74 anos. Leiam aqui um pouco da biografia do primeiro presidente de Moçambique. Sua influência se expandiu além fronterias.
Considerado um inimigo da Igreja, hoje até denominações religiosas, parece Brasileira, usam seu o nome. Veja aqui Igreja Batista Samora Machel!Curioso!
No livro Combates pela Mentalidade Sociológica, do professor Carlos Serra, podereis encontrar uma das poucas análises sociólogicas interessantes sobre o Samorismo como uma crença anómica de massas.









Thursday, September 27, 2007

Vale a pena lêr!

Este Livro do professor Rafael da Conceição foi lançado há já alguns dias em Maputo. Infelizmente, a distância que me separa fisicamente de Maputo não me permitiu lá estar para adquirí-lo. Li, no entanto, a apresentação do lirvo pela pena de JPT e achei que merece, ainda que tardiamente, o espaço que lhe dedico. Espero ir a tempo de conseguir um exemplar. Se depender do que se diz do hábito de leitura ds Moçambicanos deve sobrar um para mim. Leiam a "longa" mais estimulante apresentação de JPT. E, claro, procurem o livro!



Rafael da Conceição, “Lied Para Yonnis-Fred e Maelle (Paternidade, Morte e Quotidiano. Construções no Mar, em Terra e no Ar …)” (Maputo, Imprensa Universitária), apresentação do livro no V Seminário de Investigação da UEM, “A Investigação Científica na UEM e o seu Papel no Desenvolvimento de Moçambique”, 17-18-19 de Setembro de 2007Muito me apraz o hábito que Rafael da Conceição adquiriu, tal como alguns outros colegas amigos, esse de me dar a ler os esquissos dos seus textos, convidando-me para discussões pré-publicação. E agrada-me pois é o autor, tal como esses alguns outros, avesso aos meros elogios, entendendo-os aliás como apenas formuláveis sob a forma da contra-argumentação.Coisa em cúmulo no caso presente, pois a minha primeira leitura deste “Lied Para Yonnis-Fred e Maelle (Paternidade, Morte e Quotidiano. Construções no Mar, em Terra e no Ar …)” provocou-me discordâncias com o conteúdo e a forma, tendo-se-lhe seguido acesa conversa, que a algumas ultrapassou e a outras aprofundou [e dentro destas sublinho a minha total distância com a concepção antropológica hobbesiana que o autor perfilha]. Conversa a qual logo implicou a minha convocatória para esta apresentação. Refiro esta nota pessoal pois tal não só denota o ethos académico do autor, afinal bem raro, como é ainda corolário de um dos eixos deste livro – a explicitação de que, sendo da ontologia do pensamento interpretativo a sua diversidade, o nosso papel enquanto antropólogos, entenda-se como intelectuais, é o de pensar inter-diferenciadamente e fazer falar diferentemente. Sublinhe-se isso não apenas como postura ética mas também epistemológica, pois se somos nós analistas das identidades sociais somo-lo enquanto analistas das alteridades sociais, destas últimas nos alimentando e ainda fazendo-as falar, delas esforçados tradutores e desejavelmente não traidores.Referi o meu desconforto inicial face à forma do texto. Sei hoje que foi ele um mero reflexo condicionado, espontâneo, produto de um “academiquês” (auto)censório. Lembro-o pois cumprindo-me agora apresentar o livro alerto para que a sua riqueza é também este carácter de texto fragmentário, aberto, explicitamente inconclusivo. E assim desafiando-nos durante a sua leitura a uma reflexão constante e indefinitiva – não assume a retórica do fechamento conclusivo, apela ao conforto do confronto, implica a felicidade da indefinição, o que lhe advém desta liberdade reclamada, simulando até uma nudez pré-retórica, por via de uma não-linearidade argumentativa (e até pictórica). Recordo esta dimensão formal do texto por duas razões: - face a tal propósito do seu autor não me abalançarei aqui a um resumo, apenas procurarei sublinhar alguns dos seus pontos (cuja economia de escolha se prende, inclusive, com o contexto muito particular desta apresentação); - e também porque esta sua dimensão ensaística surge libertária (pela qual a forma se assume como conteúdo), associada a um dos argumentos centrais do livro, o do regresso da emoção ao discurso científico. Entenda-se bem, não estamos no pequeno domínio do apelo à adesão ideológica (mais ou menos revolucionária ou contestatária) na ciência social, mas sim à afirmação da necessidade de um profundo compromisso pessoal, do nosso interior, no esforço de reflexão. E com esta dimensão Rafael da Conceição recupera, à sua maneira e no seu tempo, um ser emotivo que está no cerne da inicial escrita antropológica, dos nossos pais fundadores. Esta “Lied para Yonnis-Fred e Maelle”, esta canção para os filhos do autor, ancora-se na constante emotividade das primeiras reflexões antropológicas, da qual só as críticas anacrónicas ou as cegueiras preconceituosas se podem alhear (talvez porque incapazes de encontraram a emoção no esforço racionalizador, e nas formas que este assume, no fundo elas próprias reproduzindo a dicotomia Razão-Emoção que julgam e querem criticar). Ancora-se pois nessa emoção espantada que entrevemos em Morgan, sorrimos em Frazer, descobrimos na aparente secura de Boas e, já num outro plano, nos encantamos nas etnografias de Malinowski, esse Conrad antropólogo, como se crismou. O autor recolhe aqui a tradição conversacional dos textos antropológicos (matriz metodológica da nossa produção, enquanto molde da observação participante, recorde-se), particularmente celebrizada nos “Metadiálogos”, essa deliciosa pequena obra que o grande antropólogo e etólogo G. Bateson encenou com a sua filha criança (ela própria futura antropóloga). Mas esta teatralização de uma inicial “carta aos filhos” não aparece aqui como um discurso “meta”, é sim um pungente legado aos seus filhos, deixando-lhes (e tão em vida) um quadro pessoal de problematização, téorico-ético-deontológico, portanto metodológico. Qual de nós pais não acalenta tal sonho comunicacional com os seus, filhos ou pares? Mas a grandeza do texto radica, em meu entender, no facto de que este legado é transmitido aos filhos (e, portanto, a nós) não como lição mas sim como discussão: ao dizer-nos que [e cito] “Eu já não tenho grandes preocupações pela coerência porque sei que isso é humanamente impossível (…) Se a coerência existe ela é apenas formal. Existe apenas a vida e a necessidade de a viver plenamente. A coerência só deve existir quando se trata de termos que dar aos outros uma imagem deturpada de nós-mesmos, uma imagem falsa, uma “boa” imagem, uma imagem de segurança, de autoconfiança e autosuficiência, mas ela não tem nada a ver com as necessidades de cada ser humano. (…) A coerência seria então uma forma de nos obrigarmos a aceitar aquilo que é inaceitável para os outros.”, o autor radica um método de reflexão numa específica concepção de real, ancora uma forma de pensar num carácter do pensado, alertando-nos pois para o facto, para tantos não-óbvio, de que a realidade não é algo coerente, sendo esta coerência (afinal) apenas uma imposição discursiva dos locutores. O que implica, claro, a vacuidade de um qualquer pensamento que se queira e/ou óbvio.Quero aqui levantar duas questões suscitadas no livro, entre tantas outras, desejando-as aperitivo da vossa leitura: a reflexão sobre a morte, e suas implicações; e a reflexão sobre a antropologia (e as ciências sociais). Questões que surgem ligadas …Durante a sua escrita o livro foi-me sendo anunciado como uma abordagem antropológica à morte. Confesso que logo imaginei uma tanatologia, algo que por enquanto surge deficitário, para não dizer inexistente, no seio das ciências sociais moçambicanas (com excepção de alguma etnografia esparsa ou secundária sobre rituais funerários e sobre a recorrência cosmológica dos cultos de antepassados, sempre presentes nas religiões espiritualistas, bem como nos monoteísmos universalistas com presença em Moçambique). Mas não foi esse o resultado, para minha inicial desilusão, que não final. Com efeito a surpresa que estava guardada é esta, a de se ligar uma miríade de questões, e em particular estas acima referidas (o estatuto das ciências sociais e abordagem existencial à morte) naquilo a que eu (e aqui apelando um pouco ao quadro teórico-filosófico do autor) me atrevo a chamar, de modo até provocatório, como uma Economia Política da Morte.Recuperando uma visão que considera heideggeriana, a que vincula o homem a uma condição de “um ser-para-a-morte”, o autor reclama a indissociabilidade da vida e da morte, esta como uma continuidade e nunca uma ruptura, entendendo-a assim: “é a minha única companheira na Vida e também porque sei que ela é o meu verdadeiro e único endereço” - numa acepção que traduzo como um historicismo que nos dirige para uma escatologia da negação, pois sendo a vida um ser-para-a-morte ela torna-se um Ser-Para-O-Nada, este nada sendo a morte.Di-lo através do poema, aqui feito epígrafe, “A Nossa Morte é a Vida que Vivemos” de Andrea Paes (recentemente estreada na poesia com o livro “O Mar Verde de Mim e as Terras Brancas Sem Açúcar”, assim seguindo as pisadas de sua mãe Glória de Sant’Anna), no qual se realça interacção inultrapassável do nosso ciclo biográfico, essa presença quotidiana e constante do ocaso …Passeio de mãos dadascom a morte.Passeamos no silêncioda nossa uniformidade [incorrigível.Eu, dentro da minha vontade de viver.Ela, dentro da vontadede me ter.E sorrimos, porque sabemosda força imanente e[inexorávelde que ambos dependemosEsta constância da morte, essa siamesa da acção hermenêutica direi eu, tem corolários. E se estes podem ser considerados, por alguns leitores, como existenciais ou morais, parece-me a mim que são eles também afirmados como epistemológicos, pois ela exige-nos um despojamento que é também intelectual. Di-lo assim Rafael da Conceição, no seu poema “Liberdade”, também este em epígrafe:De que nos vale então a vaidade?De nada, senão para julgar a saudade à espreita da Morteque desponta altiva e insaciável[e inadiável e desconfortávelMas mais uma vez o autor foge ao linear, abre-nos a porta para entendermos a suprema complexidade do acto de ser (de ser intelectual então). Se a morte está, se a morte é, ela aparenta então implicar o tal despojamento, imprimir um dever-ser, uma filiação ética da atitude intelectual. Mas, sendo que “a morte acontece quando o corpo nos trai definitivamente” logo nos diz o autor da necessidade de pensarmos a traição, que identifica e considera tão central nas relações sociais. Assim sendo, essas traições constantes surgem como uma sucessão de “pequenas mortes”, incontornáveis, obrigando-nos a vivê-las como agentes, comprovativos da nossa impotência, espelhos da nossa hipocrisia, impostura, demagogia. Sim, o autor apela (aos seus filhos e não só) a que se cumpram valores éticos. Mas sabe da omnipresença destas pequenas mortes quotidianas, destas nossas traições, desta nossa obrigatória incoerência. E, de súbito, regressa à teorização sobre os “grandes homens”- matéria da filosofia e das nossas ciências – deixando-nos claro que estes o são porque cometem a(lguma) grande traição. Ou seja, são “grandes homens” porque têm a consciência da irredutibilidade do real aos princípios morais, concluo eu. Tal como o autor nos quer dizer, através desta reflexão epistemológica a propósito das mortes (as pequenas) e da morte (aquela que é o Nada).Mas este não é apenas um discurso sobre os constrangimentos da apreensão intelectual do real. O autor entende que a constituição histórica da ruptura entre vida e morte - no fundo aludindo ao processo do “desencantamento” moderno que Weber identificou -, implica o evitamento actual [e globalizado] desta. Algo que deriva do facto de que neste enquadramento cosmológico o discurso sobre a morte não cumpre a ambição (desmedida e impossível) do domínio racional e afectivo sobre ela, função desejável de qualquer discurso possidente, como o identificou Foucault. Resta-nos assim, e aqui segue o grande antropólogo tanatologista Louis-Vincent Thomas, a ilusão da vida, impressa pelos poderes sociais (políticos e económicos), produzida num “deslocamento da concepção geral da morte”, a qual surge já não numa perspectiva sacralizada de vida eterna, mas sim nesta pressão pela felicidade terrena (denunciada por Pascal Bruckner, aduzo eu), de produção e consumo material e simbólico que procuram esconder a angústia do Nada, esse que não só se avizinha como é mesmo vizinho. É nesse sentido que falo deste como um texto de Economia Política da Morte, quando define ser o evitamento discursivo e vivencial desta, a sua aparente substituição por condutas existenciais (económicas e políticas) desprovidas de sentido positivo, assim desprovidas de efectiva materialidade, pese embora o produtivismo que as anima. Conduzindo assim ao final da Modernidade, como refere com Touraine “A afirmação mais forte da modernidade era que nós somos o que fazemos; a nossa experiência mais viva é que nós já não somos o que fazemos, que somos cada vez mais estranhos às condutas que nos impõem os aparelhos económicos, políticos e culturais que organizam a nossa experiência …” (Alain Touraine, 1997). Sumarizo pois o argumento deste modo: a desmortificação do Homem que o desencantamento capitalista trouxe implica o sem-sentido da prática, encerrando assim o olhar moderno, racionalizador, e por isso mesmo também encantatório.Que fazer, como buscar o sentido? O autor recorda com Sollers que deste modo estão os mortos em perigo, em especial os mortos pensadores, esses que subsistem aqui entre nós mas aos quais somos surdos, agora que “cheios de arrogância com o nosso calendário político-económico e o nosso espírito de empresa globalizada”, no fundo, na arrogância do pensamento único tecnocrático que vai vigorando, impante na sua unicidade e pretensa “naturalidade”. Estamos pois – e ainda que Rafael da Conceição não refira o termo -, numa crise, uma crise de subordinação intelectual. Se acima referi a sua invectiva para o regresso à emoção intelectual aqui lhe associo uma outra, o seu apelo à multiplicação intelectual, necessária à busca de sentido. Como o fazer?Vai longa esta intervenção, e apenas lhe posso tentar esboçar o argumento. Como qualquer antropólogo o sabe, em alturas de crise invocam-se os antepassados (sejam estes o Deus, os deuses, os espíritos, as tradições ou os valores), esses mortos sempre entre nós. E é isso que Rafael da Conceição realiza, convoca os seus mortos, aqueles que lhe formaram o pensar e o sentir, convoca a morte, nela se embriaga, para pensar a vida: entre tantos outros surgem no conciliábulo a cadela Bapsy, o velho e cansado guarda Matavele; os colegas José Negrão, Christine Messiant, Christian Geffray; o companheiro Carlos Cardoso; e os velhos mestres Bourdieu, Althusser, Derrida, Meillassoux. Estes mestres regressam, são as suas vozes escutadas com óbvia reverência, iluminando – não há aqui preocupações escolásticas, não se trata de traçar geneologias das ideias e posições. Acontece cerimónia, com frases e discursos polissémicos, por vezes até paradoxais – como sempre o é a comunicação com os antigos.Nessas palavras se anima, ou melhor dizendo, se reanima um conjunto de visões. Que o sentido do real, e as nossas possibilidades de o entender, passa pela sua desnaturalização, e portanto pela recusa do discurso único, das soluções sabidas. A certo momento é a cava voz do falecido Derrida que é escutada, reclamando uma universidade que seja uma comunidade de saberes pautada por um espírito livre e universalista, um lugar de resistência à homogeneização e ao dogmatismo – e eu, ouvindo outros antepassados (os meus), acrescentar-lhe-ia a recusa da vã tecnocracia globalizada que apela ao ensino do “saber-fazer” tornado adversário, até oposto, do saber-pensar, entenda-se este como “saber-perguntar” [esse “saber-fazer” tão em vigor que na pedagogia do hoje se passeia sempre apoiado na irreflexiva prótese power-point] – um lugar universidade, insiste Derrida e com ele o autor, que não submeta a investigação aos cálculos da rentabilidade (económica) imediata, reclamando a autonomia do campo universitário, do pensar intelectual.Antropólogo, Rafael da Conceição não esquece a crítica das divisões disciplinares – sabe pelo menos desde o seu falecido Bourdieu que estas pouco mais são do que obstáculos sociológicos à constituição do saber, à interrogação do real. Mas sabe(mos) também que são elas palco da luta pelo controle de recursos académicos (económicos e simbólicos). Daí a sua denúncia das tendências tecnocráticas, de retórica quantitativista, que se acotovelam em algumas ciências sociais, em particular sociológicas, quantas vezes auto-reclamando a sua função de ciências instrumentais (e eu, por meu lado aduzo, auto-reclamando-se ciências instrumentais seja dos poderes instituídos seja das contestações instituídas). O libelo do autor é longo mas a crítica que nos é aqui legada, os princípios éticos afirmados são também metodológicos. É na invocação do mais-velho Claude Meillassoux, das suas passagens nos anos 70 e 80 por Moçambique, que Rafael dá pistas mais do que substantivas para o caminho do pensar, autónomo, um pouco livre, des-naturalizador, desencantatório, encantador. Ouçamos esse velho, aqui trazido“ … enquanto investigadores é necessário que vocês compreendam a importância, a significação e o alcance dos dados que vocês estão a recolher. (…) Como eu disse em Maputo, vocês não são inquiridores vocês são investigadores. Ao inquiridor diz-se “traga-me tal ou tal informação” enquanto o investigador deve necessariamente saber que tipo de informação deve recolher (…) A diferença entre um inquiridor e um investigador é que o investigador é também o teórico da sua pesquisa. (…) É por isso que os investigadores trabalham na base de um guia de entrevistas enquanto os inquiridores trabalham na base de questionários. (…) São vocês mesmos que devem pensar nas questões a levantar.”

Tuesday, September 25, 2007

Publish or Perish 4: Quem e o que se publíca na “nossa” Academia!



Lembram-se do que debatemos, há alguns dias, aqui, aqui e a qui sobre a publicação, ou melhor a não publicação. Pois, então, leiam a seguinte notícia. Retirei-a da edição do dia 24 de Setembro 2007 do jornal médiaFaX. É interessante é notar que da curta lista, que eu saibam só dois se podem considerar académicos. Depois notem uma coisa curiosa no comentário do chefe da imprensa que diz : “Em termos de vendas, o nosso interlocutor precisou que, os livros técnicos-científicos são mais procurados comparativamente aos de ficção”. O chefe da imprensa foi até algo “injusto” com um dos lideres em termos de públicação líricas, seu antigo Boss que aperece na categoria gregária dos OUTROS!Mais comentários para quê? Eis a fina Flôr da nossa académia. É pena que não nos disponibilizaram a lista de algumas de suas publicações.
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Com cerca de 300 livros lançados
Imprensa Universitária em reestruturação

(Maputo) A Imprensa Universitária que esteve adstrito à Fundação Universitária da mais antiga e maior Universidade do país está em processo de reestruturação das políticas editoriais e comerciais. De acordo com Sérgio Tique, Chefe de Gabinete de Comunicação e Marketing da Imprensa Universitária, a editora está a estudar uma política editorial que beneficie tanto a própria Imprensa como os escritores. Tique que falava ao mediaFAX referiu que a imprensa quer entrar num estilo em que a publicação dos livros seja mediante o pagamento de um valor monetário, pago pela direcçãode finanças da Universidade, dado que, dantes a publicação era feita a custo zero o que lesou de certa maneira a Imprensa Universitária. Tique revelou ainda que vários livros ainda se encontram guardados nos computadores, porem devido à debilidade financeira ainda não foram publicados, e prevê-se que este ano sejam publicados apenas oito títulos. Nos últimos anos, explica Tique, adoptamos uma política de publicar livros daqueles escritores moçambicanos mais consagrados, que não tinham oportunidade de publicar, como o caso de Ungulani Ba Ka Kossa, Eduardo White, Juvenal Bucuane, Brazao Mazula, Carlos Serra, Tomás Vieira Mário, Hélder Muteia, entre outros.
Em termos de vendas, o nosso interlocutor precisou que, os livros técnicos-científicos são mais procurados comparativamente aos de ficção. O Chefe de Gabinete de Comunicação e Marketing da Imprensa Universitária acentuou que a prioridade em termos de produção é a tiragem de livros para a docência exigidos mais para a aprendizagem, que podem ser de investigadores, professores ou estudantes da UEM ou das outras editoras. A imprensa foi criada como uma unidade de apoio em material de arquivo aos estudantes, porém, com o andar do tempo, a imprensa cresceu e adquiriu novos tipos de equipamento e com o desenvolvimento da tecnologia entrou para um nível que para além de fazer trabalhos para Universidade explora a área comercial.
(Daniel Paulo)
Fonte:Mediafax,24/09/07

Wednesday, September 19, 2007

Morreu o brilho do Mabulu!

Morreu cantora Chonyl

MORREU ontem, em Maputo, a cantora moçambicana Chonyl, ex-membro dos Mabulu, vítima de doença. Entretanto, os restos mortais da cantora vão hoje a enterrar às 14.00 horas no Cemitério de Lhanguene, antecedido de velório a partir das 12.00 horas no HCM, segundo fontes da produtora, a Vidisco.

Maputo, Quarta-Feira, 19 de Setembro de 2007:: Notícias

A artista, que não gozava de boa saúde nos últimos tempos, foi levada há duas semanas de emergência para a Sala de Reanimação do Hospital Central de Maputo, acabando por perder a vida na manhã de ontem.
Foi precisamente há dois anos que à cantora foi diagnosticado um tumor benigno ao cérebro. O tratamento mostrou-se imediatamente oneroso e penoso.
Face a isso, familiares, amigos e a Vidisco, arregaçaram as mangas para salvar Chonyl, ainda na flor da idade e, em boa hora, lançaram uma campanha de solidariedade, cujos fundos reverteriam em despesas de uma intervenção cirúrgica na África do Sul.
Houve, de certo modo, adesão a esta causa humanitária, desde fãs, organizações individuais e colectivas, que culminou com a operação desta em Maputo. Recorde-se que os médicos chegaram a considerar a operação um sucesso.
E nessa altura, nada fazia prever que Chonyl voltaria a ter uma recaída.
Entretanto, há duas semanas, foi detectado mais um tumor na mesma região do cérebro, facto que a levaria novamente ao leito hospitalar, mas em estado crítico.
Mas como a esperança é a última que morre, fãs e amigos, continuavam a depositar uma esperança divina... até que na manhã de ontem, todos os receios que pairavam à volta de Chonyl, acabaram por se confirmar: morreu Chonyl. E como diria ontem António Marcos, a propósito deste desaparecimento físico da cantora, “morreu o brilho do Mabulu”.
“Ela era muito comunicativa, sorridente e que conquistava o público; era amiga das crianças...enfim, era uma beleza de pessoa, por dentro e por fora”, caracterizou “Maengane” a sua ex-colega.
Recordar que Chonyl foi uma das fundadoras do projecto Mabulu. Integrou no Mabulu a 31 de Agosto de em 2000, ao lado de Chiquito, António Marcos e Lisboa Matavele. A ideia era de juntar jovens da nova geração com os da velha guarda com o intuito de “provocar um diálogo” musical por essa Europa fora, e não só.
Única mulher da banda, a jovem era corista e interprete, tendo participado em quatro digressões na Europa, escalando entre outros países, a Suíça, Inglaterra, França, Áustria, Alemanha, Polónia, Holanda, Austrália e Portugal.
A sua última actuação como membro do Mabulu aconteceu em 2003, altura que decide partir para uma carreira a solo.
Entretanto, convém lembrar que antes de integrar os Mabulu, fez parte dos Med Lavel, no projecto “Spab Line” onde gravaram o álbum “Sob Pressão”.

Tuesday, September 18, 2007

Pão de Mandioca!

A Paua a Dzina Kombo [ O pão não da azar].

Este ditado Changane pode e cobre vários significados. Recupero dois apenas. Sugere a ideia de que não importa as condição social do indivíduo, este sempre come pão. Sugere também que é irrelevante nos preocuparmos com o padeiro que transpira e goteja seu suor na massa ao prepará-la. Afinal, depois, o pão vão para o forno. O pão é nosso de cada dia.

O único problema surge quando este é amassado pelo diábo! O nosso parece que vai ser. O diábo é o preço do trigo no mercado internacional. E nós que não somos produtores do trigo, alías, e de quase tudo que temos a mesa das refeições vamos ter que, “tsumbular” (comer mandioca), comer o que o diábo amassou! Ao invés de pão, de farinha de trigo, vão nos fazer comer mandioca e pensar que estamos a comer pão. Faz-me lembrar uma caricatura do nosso grande humorista, cartoonista, Sergio Zimba. Um pobre vivia ao lado da casa de uma familia rica. O pobre todos os dias comia e variava suas refeições com pão. Para enganar a paladar criou um canal através do qual captava o cheiro da comida feita na casa vizinha. Assim, engolia pão com sabor de bolo, biscoito, bife consoante a refeiçào do vizinho.

Até prova em contrário, (makôlua hi kuwsivona, ver para crêr), suspeito que comer pão de trigo, em Moçambique, vai passar a ser um elemento de distinção de classe e gosto (estilo de vida). É só uma suspeita, espermos para ver. Se, agora, todos comemos o“mesmo” pão de trigo, com a vinda do da mandioca só os distintos vão poder comer trigo. Aí aquele ditado vai ter de ser revisto, porque o tipo de pão que comemos vai passar (a ter kombo) a dizer algo sobre a nossa origem social, condição socio-económica e estilo de vida.

Espermos para ver!
PS: Não estou contra a introdução do pão de mandioca, mas não nos façam comer gato por lebre! Elton, estás de olho....?
Leiam a notícia do “sucesso” das experiências da mistura de farinha de trigo com a da mandioca para fabricação do pão de mandioca aqui.

He, he, he mamana wa minoo: nyandayeyooo!


Investigação deve visar bem-estar da população - defende vice-ministro da Planificação e Desenvolvimento, Victor Bernardo


A ÁREA de investigação e inovação deve ter como objectivo principal o combate à pobreza absoluta, o inimigo comum que a nação moçambicana tem de momento, no intuito de assegurar o bem-estar da população, segundo apontou Victor Bernardo, vice-ministro de Planificação e Desenvolvimento, palestrante principal do V Seminário de Investigação da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), que ontem abriu em Maputo, sob o lema “A Investigação Científica na UEM e o Seu Papel no Desenvolvimento de Moçambique”.
De acordo com Bernardo, os investigadores devem potenciar as áreas agrária, recursos naturais e os impactos ambientais como determinantes para a redução da vulnerabilidade, bem como procurar formas de ter acesso e tirar benefícios de algumas vantagens existentes no sector da energia e produção de recursos hídricos.

Maputo, Terça-Feira, 18 de Setembro de 2007:: Notícias

Por outro lado, segundo o vice-ministro, perante o fenómeno da globalização, em que se destaque a evolução das comunicações, o nosso país é confrontado com o desafio de produzir conhecimentos que sejam relevantes, facto que fará com que Moçambique não seja um país alheio à nova dinâmica mundial. “É necessário que haja uma aplicação racional das tecnologias, não sendo necessariamente sofisticadas, mas sim relevantes e adequadas à nossa realidade. A necessidade de uma maior articulação entre a academia e o sector produtivo, entre a investigação e os resultados, deve ser uma das principais apostas para que haja resultados concretos. A UEM é uma instituição verdadeiramente moçambicana e deve, evidentemente, embarcar no processo de reformas, sobretudo das mentes, atitudes e alargar horizontes”, disse.

Acrescentou que o produto da universidade deve ser visível, tanto de forma directa, que é fisicamente, e indirectamente, através dos frutos que ela produz.

Por seu turno, o Ministro da Educação e Cultura Aires Ali, que presidiu à abertura do encontro, sublinhou a necessidade de se valorizare as reflexões, apresentações e contribuições em apresentação, o que ajudará a delinear estratégias para o reforço da capacidade institucional da universidade nos diferentes níveis de administração e gestão. Por outro lado, segundo ele, a expectativa com relação ao evento reside fundamentalmente na noção do papel e do lugar da universidade e da investigação científica no contexto sócio-político e económico da nação.

Também intervindo na ocasião, o reitor Filipe Couto explicou que a UEM precisa de estar mais virada para a produção de quadros empreendedores que, logo após a formação, estejam em condições de levar a cabo acções de geração de rendimento, e não passar a vida a pedir dinheiro ou emprego. Para ele, a investigação nunca deve prescindir do ensino, e os resultados do trabalho não podem ser engavetados.

Também, os resultados não podem ser colocados em livros grandes que ninguém possa ler ou aproveitar. As ideais devem estar simplificadas de modo a que até o pacato cidadão possa compreender o que se pretende com os frutos da investigação".
Fim da notícias.
TRIPLA ALIANÇA CONTRA POBREZA ABSOLUTA NA UEM!
(Planificação e Desenvolvimento, Educação e Cultura e UEM (Investigação?)!
Professor Rafael quantas páginas tem o livro que vai lancar hoje? Talvez seja melhor devolver o livro para a imprensa e pedir ilustrações para além de reduzir o número de páginas.
Quanto aos outros sublinhados a vermelho cada um interprete-os! Eu, sinceramente, tenho imensas dificuldades de perceber de que se está a falar. Alguém me ajuda?

As mensagens veiculadas pelas músicas moçambicanas


Um texto agradabilissimo de se ler, até para quem discorde do argumento.Uma escrita fluída, clara, ilustrativa, enfim agradável! Vale a pena ler. Texto de Amosse Macamo, publicado no Jornal Notícias de hoje.
As mensagens veiculadas pelas músicas moçambicanas!

SR. DIRECTOR!Hoje discute se o eterno problema e nunca solucionado em qualquer sociedade sobre a arte de fazer música. E porque a música é arte, deve necessariamente ter seus pressupostos. Entramos no velho conflito de apreciar e depreciar certa maneira de fazer música.

Maputo, Terça-Feira, 18 de Setembro de 2007:: Notícias

Coloca-se na discussão a questão de alguma música ser considerada “pimba” e outra genuína.
É claro que nesta discussão não se deixa de lado o carácter estético que se espera nas letras e, sobretudo, a mensagem que estas transmitem. Este debate não deve e nem pode preocupar, porque acho imperioso procurar os valores da nossa música e nem que seja necessário buscá-los na sua própria incerteza, pois, que se diga, é ambígua a classificação do que seja “pimba” ou não.
Não quero, por várias razões, entrar neste debate. Quero, sim, abordar a questão da mensagem nas músicas dos jovens que tende mais ao apelo sexual e erotismo, o que indigna a velha guarda e a sociedade em geral.
Escrevo numa altura em que escuto, Zeburane, excelente guitarrista, de uma voz e trato únicos nas suas canções, homem de canções melódicas e com uma forte carga de mensagem. E ao falar deste, pretendo tomar em atenção a música “wadla bomu ke?” e o alto sentido de apelo sexual e erótico que a mesma possui.
Esta canção, a meu ver, é talvez a mais erótica, é a mais apelativa sexualmente que já se produziu nos anais da música popular moçambicana, senão vejamos:
A música retrata a história de um casal (em forma de diálogo) onde o marido (Zeburane) pretende ter relações sexuais com a sua esposa (Maria), mas esta se recusa porque tem um filho a amamentar e doente. E é justamente por esta recusa que se desenrola toda a música e com as histórias que esta acaba carregando.“Tsunela seio a nwana a vabyaku, unga ni hulumeteli ninga ku bhokola xikwembo... mina swa ni vavissa a nwana a vabyaku” (chega-te para lá que a criança está doente, não me apalpe que te insulto, por Deus que te insulto).
Quando o libido sobe, mesmo quando se sobrepõe a questão da saúde do filho, o homem não pode mais esperar e, quando frustrada a tentativa, como aconteceu aqui procura outras soluções para resolver o problema, daí que Zeburane não insistiu com a mulher, mas sim, saiu à procura de outras mulheres.
O mesmo Zeburane justifica-se quando a mulher questiona este comportamento, indagando: “não foste tu que me negaste o beijo” (a hi wena unga yala kuni nyika khissi) e, entenda-se aqui o beijo como preliminar. E num jeito de desabafo, a mulher, Maria, reclama do hábito da vida devassa do seu marido Zeburane “u tolovela ku famba vusiku nkata, Zeburane nkata”, ou seja, esse seu hábito de andar a noite, meu marido Zeburane.
Mesmo com as reclamações da sua mulher Maria, Zeburane continua a sua incursão na noite, mesmo quando corre o perigo de contrair tuberculose (u famba vusiku u ta vuya ni ndere). A conotação noite/tuberculose surge do contacto sexual casual com uma mulher que provoca o aborto sem os cuidados que este exige e logo de seguida pratica relação sexual, prática que era constante nos tempos idos.
A discussão entre o casal acaba levantando outros problemas onde Zeburane assume que tem desejos incontroláveis, mas também afirma que o mesmo não é exclusivo dos homens pois “as mulheres são umas desavergonhadas (a vavasati a vana tingana, loko vadla bomu, hambi lo tsave, tsave, u xelu xelu matilho vaya kona mpela), dito de outro modo adoram comer limão (fazer limão) mesmo que amargando, vão contorcendo os olhos e querem mais, autênticas gulosas.
E porque Maria não queria perder Zeburane para as “piranhas” da noite, acaba cedendo e mais, Zeburane vai ao pote com tanta sede ao ponto de morder os lábios da sua amada até sangrarem (a nomu wu huma ngati) provocando o seguinte protesto: “Mordeste-me os lábios Zeburane, veja que até estão a sangrar” e coloca-se a questão: a que lábios Zeburane, de tanta ansiedade fez sangrar?
Zeburane prontamente pede desculpas e justifica-se a sua esposa Maria, (e talvez aqui, fica claro de que lábios se tratava), pedindo que compreendesse que comer limão não é tarefa fácil, “... é como uma guerra onde se exige uma ginástica, uma flexibilidade, uma estratégia, um levantar para cima e para baixo espontâneo, enfim, difícil...” (mamana Maria, ni rivalele nkata, wa shi tiva swaku ma dlela ya bomu i nhimpi, iu yanunu, iu findzi, findzi, i ma rhambe rhambe).
E quando esta põe em causa os ofícios de Zeburane, este o avisa (wa ma tiva ma bela ya mina, yoba hi xikossi), “conheces a minha maneira de bater pela nuca”.
E surge de novo a grande pergunta: a que posição se refere aqui o Zeburane quando põe a questão de posicionar-se com a mulher olhando rente à sua nuca? O que está aqui implícito?
Portanto, sem querer tornar este pequeno ensaio de música de Zeburane um relato prenhe de linguagem indecorosa, quis dar a entender que se pode falar de certos assuntos delicados, usando metáforas, figuras de estilo que nos remetem a um exercício para tentar descobrir o fundo da questão. E é justamente aqui onde reside a arte. Na capacidade de remeter o outro ao subjectivismo, a um constante indagar, onde não cabe uma verdade só.
Na verdade, os músicos moçambicanos da velha guarda sempre fizeram o apelo sexual e ao “eros”, só não o banalizavam como o fazem hoje os jovens, as mensagens não eram tão explícitas como são hoje, vejam que até o próprio termo “modascavalu” que os jovens hoje acolheram apela ao vigor sexual comparando o cavalgar aos movimentos próprios do acto sexual, mas é preciso reflectir até chegar lá.
O que hoje choca e não deve deixar de preocupar é a maneira exposta e despida com que a linguagem musical é trazida pelos jovens. E pergunto-me: numa situação em que algo fica exposto, valerá a pena o esforço da procura?
Escute-se “Txongola” de Roberto Chitsondzo (Gorwane), a maioria das músicas de Xidiminguana, Mahecuane (Rosa), “Majilidana”, de Eugénio Mucavele, José Mucavele, há-de se encontrar excertos de um vigoroso apelo sexual e erotismo puro, mas sempre coberto por um véu.
Há pouco, Baltazar Macamo teve uma interpretação fantástica de uma música de Fany Mpfumo que quase todos cantavam de forma inocente e nunca podiam imaginar a mensagem por detrás e por falar em Fany talvez lembrar um outro tema o (hodi, ni pfulele nkata,...) o abrir da porta que o Fany pede, pode-nos remeter a várias outras portas, pior quando põe a questão da capulana vermelha (capulana dza libungu), que só as mulheres já feitas vergam: não será esta uma referência ao ciclo menstrual? E quando o mesmo Fany canta “ni khemeli nlhampfi leyo, loko unga no khemeli na mine ni taku tsona tsumbula, lowu wa ka kwanga wa nandziha”), ou seja, saborosa e te garanto que é mesmo saborosa” quantas interpretações podemos fazer desta afirmação. Quanto apelo sexual está lá implícito? Basta lembrar o formato de uma mandioca e o líquido esbranquiçado que a mesma produz, há-de logo aferir a comparação com o órgão genital masculino. A referência ao peixe é óbvia, é só imaginar o formato do peixe e equipará-lo ao órgão genital feminino, o cheiro.
A banalidade cansa, desvaloriza no lugar de valorizar, deprecia a mulher no lugar de a cantar e encantá-la, choca e agride, mesmo que as músicas em termos rítmicos sejam apelativas esta, acaba sufocando-as.
Os jovens deviam ser mais ousados, interpretando as suas canções não só com a mestria que agora impõem, mas com alguma arte, porque mesmo a música “pimba” tem algo de belo que se aproveita assim como algumas consideradas da velha guarda, há algumas com mensagens intragáveis.
E que dizer destes jovens que as suas músicas fazem os ambientes festivos e conduzem, embora por pouco tempo, a felicidade deste belo povo?
Merecem ou não respeito e algum encorajamento? Sinceramente acredito que sim, mas se impõe que reflictam um pouco antes de lançar a sua música, porque antes da fama existe um homem que é preciso preservar.E a terminar, porque não chamar João Paulo que uma vez disse que a “música moçambicana não era só rabo!”.
AMOSSE MACAMO

Convite para publicar: Publish or Perish [3]


Fui convidado para ser membro do Conselhro Editorial de uma revista académica eletrônica de uma Universidade Brasileira. Aceitei o convite na condição de se abrir espaço para a publicação de textos de, jovens, académicos de países africanos. na verdade, estava a pensar no meu país. A proposta foi aceite e já se anunciou o lançamento do primeiro número. Queria aproveitar o debate sobre as publicações aqui no blog para lançar um repto aos jovens académicos, que acedem a este blog e aos demais, para organizarem seus artigos caso queiram publicá-los nessa revista.
Se concordarem comigo gostava de propor um tema para aqueles que não tem nada escrito, mas que mesmo assim gostariam de escrever algo. Porque não reflectirmos sobre os constrangimentos da publicação academica em Moçambique. Não estou a propor um arrolamento de desculpas, mas uma análise incisiva das condições de publicação academica no nosso país. Acho que o Manuel Mangue, bibióteconomista, poderia nos dar uma mão nesta empreititada. Isto é se aceitarem o desafio. Uma outra sugestão seria a de pegarem nas vossas teses de licenciatura, mestrado ou doutoramento e fazer a partir delas artigo para publicação. O que acham?
Se não reagirem positivamente terei que ser eu apenas a enviar os meus próprios textos. A revista chama-se REVISTA ELETRÔNICA HISTÓRIA, EDUCAÇÃO E MEMÓRIA.

Atenção as normas de publicação seguintes:

REVISTA ELETRÔNICA: HISTÓRIA, EDUCAÇÃO E MEMÓRIAS

PERIODICIDADE: TRIMESTRAL

NORMAS PARA A PUBLICAÇÃO

As colaborações poderão ser feitas através de artigos, resenhas de livros e periódicos, relacionadas a área de humanas ou em casos excepcionais a área de exatas, desde que aprovada pelo conselho editorial. Os textos que não forem aprovados não serão devolvidos aos autores.
Os trabalhos devem ser enviados para o conselho editorial pelo e-mail: patricio.langa@uem.mz para serem distribuídos a dois membros do Conselho editorial, pelo menos, ou assessores ad hoc; para serem analisados em caso de empate, será enviado a um terceiro parecerista. Serão aceitos textos para publicação nos seguintes idiomas: português, espanhol e inglês.

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As notas deverão ser colocadas no rodapé, podendo nelas constar referências bibliográficas e/ou comentários críticos. É necessário colocar lista bibliográfica ao final do artigo, desde que não ultrapasse o total de páginas estabelecido pela revista. Para outras dúvidas sobre as questões normativas, consultar as regras da ABNT.
Caberá ao Conselho Editorial, a decisão referente à oportunidade da publicação das contribuições recebidas.
SOBRE AS RESENHAS:
As resenhas devem seguir a mesma regra do artigo – com uma ressalva de que o nome do livro deverá vir na primeira página e o minicurriculo como nota de rodapé.
As resenhas deverão ter de 05 a 10 páginas e deverão ser acompanhadas de um resumo em inglês e em português e de 03 palavras chaves.
Sejamos nós a virar a página da história.

Monday, September 17, 2007

Ainda sobre o Publish or Perish[ 2]


Enquanto não aprimoro a capacidade de síntese, aqueles que tiverem paciência e tempo, poderão seguir-me na continuação do debate sobre as publicações académicas. Os que não tiverem nem uma nem outra, não se preocupem, sugiro que vão lendo ao longo da semana. Para mim, o assunto das publicações académicas é muito sério. Se por um lado, alguns de nós se batem pela melhoria da qualidade da nossa esfera pública no geral promovendo o debate de ideias, outros tem a mesma preocupação de forma mais restrita com a qualidade do debate na academia. Da mesma maneira que a qualidade da nossa sociedade pode ser medida pela qualidade de debate de ideias que fazemos nela e dela fazemos, por isso um debate ao mesmo tempo constitutivo dessa mesma sociedade, o mesmo argumento é valido para a academia. Só teremos uma academia de qualidade se tivermos um debate académico de qualidade e vice-versa.

As publicações académicas em revistas, jornais e livros científicos, quanto a mim, são um mecanismo necessário, importante, mas não suficiente muito menos o único, e talvez não o mais importante, para se atingir o desiderato da qualidade do debate académico. A maneira como foi levantada a questão das publicações suscitou em mim dois tipos de interpretação: primeiro, concordar que temos problemas de muitos académicos que não publicam. Designei a esses, humoristicamente, de académicos de tradição oral. Segundo, ao apontar-se a figura do professor Carlos Serra surgiram-me inquietações: a primeira é de que realmente o professor C.S é uma excepção a regra, e é mesmo, quando o ideal seria o contrário. Mas essa constatação não nos explica porque C.S é uma excepção a regra. Essa constatação sugere que alguns não estão a ter o génio de C.S. O que não quer dizer que este não seja um exemplo a seguir.

A individualização da explicação para a não publicação dos demais é que não me parece apropriada. A excepção por causa das capacidades individuais extraordinárias de produzir e publicar livros, não nos devia impedir de diagnosticar o que faz com que os não extraordinários não publiquem. São essas condições (causas) estruturais que deviam ser analisadas e que não estão a ser levantadas. A ideia tácita sugere que os que não publicam não são dotados dessas mesmas capacidades. E é aqui onde, para mim, reside o problema. A desculpa das desculpas, aqui, não nos pode impedir de olhar para os aspectos estruturais, e esses para mim são muito mais relevantes, que constrangem a publicação, principalmente, por jovens académicos. Quero referir-me a alguns desses constrangimentos.

Pesquisa e publicação

A publicação académica é um resultado natural da pesquisa. Nenhuma pesquisa vai acrescer valor ao quantum de conhecimento científico e humano senão for de alguma maneira publicada. Contudo, a relação entre a pesquisa e as publicações não é simples como se pode imaginar. A produtividade académica medida pelo número de publicações não está necessariamente relacionada com criatividade na pesquisa. Descobertas por criatividade podem ser separadas por longos intervalos aparentemente não produtivos: querer ostentar um certo número de artigos publicados por ano pode até destruir esses interlúdio de criatividade. O diálogo privado, a validação de resultados e a circulação de ideias pelos pares pode, em algumas circunstâncias, ser preferível a algumas publicações prematuras. Aquele tipo de publicações, com algumas raras excepções, que foram feitas durante a vigência da anterior direcção da Imprensa Universitária.

Referi, algures, na postagem Publish or Perish que existe um elemento importante quando se trata de publicações académicas. Falava dos comités que decidem, julgam, o que é publicável ou não. Disse que esses julgamentos eram actos interpretativos socialmente situados. As publicações são uma parte integral do sistema cultural e intelectual de qualquer academia em qualquer país. Esse sistema inclui diversos elementos como as livrarias, as editoras, as impressoras, as próprias universidades, enfim todo esse circuito que suponho muitos de nós conhecermos. Em alguns países esse sistema intelectual é tão eficiente a ponto criar condições para o incentivo de publicações. Noutros países, como o nosso, o sistema é tão rudimentar, precário e limitado que inibe até ao mais criativo dos escritores de publicar. A não ser em condições excepcionais.

Não transfiramos o problema de um sistema intelectual, económico e cultural incapaz produzir e de se auto sustentar através de uma imanente industria de publicação, para o académico enquanto individuo. Não podemos falar de uma indústria de publicação em Moçambique. Duvido que o Instituto Nacional do livro e Disco (ainda existe?) e se existe deve ter meia dúzia de gatos-pingados a receber salário do Estado. A publicação no nosso país não é vista ou entendida como um factor estratégico para promover o debate de ideias e por essa via o desenvolvimento. Por isso a aversão as ideias críticas. Por isso ao invés de debatermos assuntos, quando achamos que debatemos, debatemos pessoas: este é amigo daquele, este vai na boleia do outro, aquele outro só diz o que diz por que vive na china ou na cochinchina, este leva palmadinhas do professor seu conterrâneo e por em diante. O que importa é quem o diz ou o que é dito? O que importa é de onde a pessoa diz ou é o que é dito?

Mal entendido.

Escrevo, a partida com receio de ser mal-entendido e ou interpretado. Por isso vou repetir algumas coisas que já disse. O meu problema neste debate é com a responsabilização individual dos académicos que não por não publicarem. Isso pode nos fazer perder de vista os inúmeros constrangimentos que existem ainda para publicar. Não quero dizer que não há académicos entre nós que estão a dormir na sombra da bananeira, mas esses existem em todo lado. Ao mencionar estes aspectos estruturais a minha intenção é que os comecemos a debater. A publicação precisa de uma universidade vibrante, e uma universidade vibrante precisa de publicações. O que acontece entre nós é que uma como outra coisa é fraca.

OS seminários da DAA da UEM: um exemplo a seguir.

Com todas as limitações de um ambiente academicamente amorfo surge sempre uma luz de esperança. O departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM, sirvo-me deste apenas a título exemplar, tem estado promover seminários em que se apresentam resultados de investigações desde as dos estudantes até as de investigadores inter-nacionalmente consagrados. Alguns dos organizadores são jovens docentes e estudantes de pós-graduação. Alguns deles, como aconteceu comigo mesmo, tiveram que virar regentes prematuros porque os verdadeiros regentes estão a fazer consultorias. Outro linchador das publicações.

Consultoria pode ser pesquisa, mas a propriedade dos resultados é de quem as encomendou. Consequência, se o dono não acha relevante publicar, fica nas prateleiras, não circula para ser debatido. O pesquisador homoconsulturescus academicus não publica. O seu assitente-regente, substituo prematuro, tem 80 testes de três ou mais turmas por corrigir, excluindo os do período pós–laboral, e não tem fundos de pesquisa, também não publica. Estou a tentar mostrar apenas a complexidade da questão.

Tudo o que disse não contraria a visão e convicção que alimento de que:

a) Há pouca dúvida de que a publicação tem muito mais poder (simbólico) do que ensinar (dar aulas) ou as tarefas administrativas na universidade e na tomada de decisões.

b) A ideia de publicar ou morrer é um mal necessário definitivamente presente e incontornável na academia.

c) Há pouca dúvida de que a publicação é a melhor e mais rápida forma de amealhar reputação individual inter-nacional (mas parte considerável das publicações da Imprensa Universitária da UEM, por exemplo, só tem valor local pelo seu dúbio valor académico).

d) Os assistentes-regentes (com várias turmas) e as consultorias aumentam as chances de termos mais e mais académicos de tradição oral.

Estes são apenas alguns aspectos estruturais que é preciso levar em conta quando pensamos na questão das publicações.









A força do melhor argumento!

Caro Banú. Obrigado pelos elogíos. Umas palmadinhas nas costas são sempre agradáveis. Há ainda uma forma mais perniciosa de recusar o debate. O silêncio! Alguêm dizia que o silêncio é o argumento mais difícil de contestar. Acho, como o Banú, que a frontalidade no debate é sempre salutar. Aquela, não deixa espaço para insinuações e mal entendidos. É por isso que acho os aforismas, em determinadas circunstâncias, um verdadeiro linchador do debate. Isso é mau para a academia, é mau para a esfera pública que queremos cada vez mais aberta e democrática. A minha intenção e postura não foi, e nunca será, a de esquentar os ánimos com caricaturas. Isso qualquer um sabe e pode fazer.
Pessoalmente, devo-lhe confessar que admiro e tenho muita estima pela pessoa e pelo trabalho do Professor Carlos Serra. Acho mesmo que deve ser um exemplo a seguir, em muitos aspectos. Ele é dos poucos académicos que temos no verdadeiro sentido da palavra. Quando estou em Maputo, na UEM onde trabalho, o meu melhor relógio é o carito vermelho do professor C.S. É o primeiro a chegar ao Centro de Estudos Africanos e o último a sair, religiosamente. Um verdadeiro Descartes! Serra faz da ciência sua vocação. Temos que reconhecer isso. A César o que é de César. E não estou aqui a puxar o saco! Aliás nunca duvidei da sua boa intenção nos debates, por isso procuro manter a minha postura de abertura. Mas não há bela, sem senão! E nenhum de nós é perfeito!

Sabe, Banú, uma das razões que me levou a criar o blog foi também a de melhorar a minha capacidade de síntese e de debate de ideias. Levo isso a sério. Até entrar para a faculdade não tinha os hábitos nem de leitura, nem de escrita. Ganhei lá! Já escrevi textos mais longos, com erros de digitação, ortográficos, e por em fora. Melhorar, melhorar, melhorar é o o meu lema. Houve e há ainda pessoas como o Banú que me abordam críticamente e com sugestões construtivas. Essas pessoas só nos podem querer bem. É por isso que me exponho ao público expondo as minhas ideias.

Está aqui, mais um comentário que se pretendia curto. Mas um bichinho diz que devo dizer mais o seguinte: Um dos autores que mais aprecio é Filósofo e Sociólogo alemão, Jurgen Habermas. Dentre várias coisas que escreveu gosto de alguns princípios que estebeleceu na sua obra a Teoria do agir comunicacional (comunicativo)! Habermas estabelece o que considera serem as regras para um discurso racional entre os sujeitos. São basicamente quatro, as regras.

Regras do Discurso segundo Habermas:

1. Todo sujeito com a competência para falar e agir é permitido participar no discurso.

2. a) A todos é permitido questionar qualquer asserção.

b) A qualquer um é permitido introduzir qualquer asserção no discurso.

3. A qualquer um é permitido expressar suas atitudes, desejos e necessidades.

4. Nenhum falante pode ser impedido, por coerção interna ou externa, de exercer seus direitos expostos em 1 &2.


A única força possivel é a “não-forçada força do melhor argumento” e o único motivo permissível é “a busca cooperativa do verdade”!

Pela melhoria da qualidade do debate!
A luta continua.
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Mais um comentário alargado, desta vez em resposta ao estimado Banú.

Saturday, September 15, 2007

Publish or perish: académicos de tradição oral.

Este texto era para ser um breve comentário, ficou longo, então, resolvi PUBLICAR, aqui, no MEU blog! É claro que esta publicação nunca me vai dar o emprego que almejo, ou a posição académica que pretendo! No entanto, expõe o meu pensamento publicamente! Se quiser ser académico reconhecido, inter-nacionalmente, terei que fazer aquilo que faz um academico ser reconhecido internacionalmente: publicar, em Jornais, Revistas Inter-nacionais de reputação e com um sistema de revisão - de pares - apurado! Publicar em lugares onde a qualidade do texto fala por si, se é que isso é possível! Julgar a qualidade de um texto - de tudo na verdade - é sempre um acto interpretativo socialmente situado! Quem julga a qualidade do que deve ser públicado no, meu blog, sou eu e mais ninguem. Mas quem julga a qualidade do artigo “cientifico” que pretendo publicar no “African Sociological Review” do CODESRIA, suponho, é um fórum especializado. É com esse tipo de forúm que se reduz ou se minimiza o efeito subjectivo do julgamento sem no entanto o eliminar, mas chegam-se a determinados padrões (Benchmarks) ou standards “consensuais”! Alguém sabe me dizer quem faz isso na UEM por exemplo?

Publish or Perish [publicar ou morrer]! Como académicos todos deviamos levar este ditado a sério. No entanto, como académicos moçambicanos, não precisamos abedicar da seriedade, deviamos pensar na utilidade e validade desse critério para nos considerarmos como tais. O que nós impede de publicar? Não quero, com isto, fazer apologia duma academia, com académicos, sem publicações. Uma academia de tradição oral, como temos agora. Pelo contrário, entendi que Elísio Macamo faz menção as publicações de Carlos Serra apenas como uma advertência aos académicos. Se querem ser académicos para além do contexto Moçambicano publish or perish. Publiquem ou é melhor esquecer. Uma vez sugeri que antes de apontarmos o dedo para os que não publicam – antes de acordar todas as manhãs e olhar para a lista das publicações de C.Serra, mais de 20 livros como autor e co-autor – deviamos pensar no que impede tantos outros de serem Serrazitos! Quais são os factores de constrangimento? Incompêtencia, seja lá como for definida, não me parece ser. Falta de textos escritos também não é com certeza, as teses de que falo desmentem isso. O que é que nos impede de publicar?

Poderão questionar-me: quem foi que disse que publicar é fácil? Mas aí eu retorquia sobre o tipo de dificuldades ou de não facilidade. A questão colocada pelo Banú, em seu comentário, é importante. Publicar, por publicar, acho que qualquer um faria. Desde que para tal tivesse as facilidades que alguns têm e ou a paciência que outros têm de andar a remover barreiras editoriais, burocráticas e finaceiras. Pessoalmente, conheço muito bons, nos meus critérios, claro, manuscritos que dariam bestsellers (sucesso de venda) para qualquer editora. Alguns desses escritos estão nas bibliótecas a preenceher as prateleiras de teses. Há teses com de muito boa qualidade, melhor que muitos livros publicados por aí. Há pouco tempo comentava com o Elísio Macamo, na Bahia, sobre a facilidade que os Brasileiros tem – de modo geral - de publicar. Presumimos que o baixo custo pode estar por detrás de tanta publicação. Baixo custo não só em termos monetários, mas de remoção barreiras editoriais .

Durante a vigência da última direcção da Imprensa Universitária da UEM devem ter se publicado mais livros do que em todo o período que antecede essa gestão. Mas aí está, que livros foram publicados? Para além dos Diários... (não vejo mal algum em publicar diários, desde que tratados apenas como diários) poesia (e que poesia?), romances (e que romences?) quantas teses foram publicadas? Surge me agora um título de um livro que deveria servir de exemplo daquilo que nenhuma editora jamais deveria publicar. “Estratificação Social das Sociedades Africanas”(sic) (estou a citar de memória)! A única parte desse livro que faz algum sentido, e mesmo assim não justifica sua publicação, é o prefácio do antigo reitor da UEM, Brazão Mazula, escrito com muita dificuldade. Dificuldade de ter de elogiar (como normalmente se faz em prefácios) uma heresia académica! Nenhum Jornal, Revista Internacional, séria, iria sequer pensar na possibilidade de algum desses livros ser publicado, muito menos na categoria de publicações académicas. Seria levado ao tribunal académico (pena não temos um ainda em Moçambique) aquele que usasse esse livrinho em sala de aulas. E provavelmente vai constar da lista de publicações para as provas catedrais. Como já existe um catedrático em Sociologia no pais, este talvez venha o ocupar a cátedra da Sociologia da Estratificação Social das Sociedades Africanas ou a de Sociologia Poética de recortes de passagems de livros académicos sem obedecer os críterios deontológicos de citação!

Todas estas considerações, algumas até deselegantes, não nos devem fazer deitar fora a água suja com o bebé. É preciso publicar, sim, como adverte e bem Macamo. Mas é preciso, antes de mais, entender porque os que não publicam não o fazem! Não é por mera incompêtencia, repito! E nisso Serra não é, necessáriamente, o melhor exemplo! Este argumento serve também para replicar a ideia de que só pode criticar um estudo empírico quem tiver feito outro nas mesmas condições. Qualquer dia só poderá falar da obra x e y quem tiver publicado. As publicações são importantes na academia, em algumas até servem de critério para promoção na carreira profissional, mas não são tudo. Estou a falar a sério. A maior difuldade em publicar não é falta de escritos. É só dar uma vista de olhos na blogsfera para ver quanta coisa é escrita e com que qualidade.

Estou a re-ler um dos vários diálogos de Sócrates. Nesse o debate é, particularmente, com Gorgias. Sócrates questiona Gorgias sobre o que Gorgias considera ser sua arte: a retórica! Vale apena ler, aprende-se muito sobre a arte de argumentar com Sócrates. Ocorreu-me, então, repentinamente, que Sócrates nem sequer escrevera seus diálogos! É graças a Platão - que se deu ao trabalho de recuperá-los por escrito- que estou a ler, hoje, estes diálogos de Sócrates.
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Este texto é um comentário alargado ao comentário de Elísio Macamo, na postagem anterior, e a réplica de Banú!

Friday, September 14, 2007

Ensino Superior Avulso [2]

Sugeri na última linha da postagem sobre o “Ensino Superior Avulso” que precisamos, em Moçambique, de uma Sociologia do Ensino Superior. Essa sociologia iria se ocupar de várias questões entre as quais as motivações dos estudantes, para “optarem” por esta ou aquela Universidade, este ou aquele curso, é apenas um aspecto de uma realidade muito mais complexa de como se produz o fenómeno Ensino Superior no nosso país. Há muita coisa signitiva-mente desconhecida sobre essa realidade. Penso, por exemplo, na introdução do sistema de creditação (sistema de créditos) e na criação recente de uma entidade para controlar a qualidade de ensino pelo Ministério de Educação e Cultura. Uma das perguntas que me surgiu foi: qualidade de quê? Está bem, estou a ser circular, a reposta seria de novo do ensino superior. Na verdade há uma pergunta que não foi feita e que precede aquela. O que é qualidade? E o que seria qualidade de ensino superior? Como se mede isso? Como se vê isso? Alguém já estudou isso no nosso país? Estou a ser pretencioso. Só existe aquilo que conheço. Vi um corvo branco, logo todos os corvos são brancos. Claro que não, mas alguém estaria disposto a desafiar-me, provando o contrário em relação a questão da qualidade?Não vou sugerir, aqui, nenhuma resposta para as perguntas que formulei, porque este artigo tem outro próposito. Mas devo referir que só estas perguntas dariam muito trabalho, muito que pensar, ao Ministro da Educação e Cultura, que pouco tempo lhe restaria para andar mal dizer e de forma infundada das Ciências Sociais. As medidas que se estão a tomar agora, Em relação a questão da qualidade, são medidas - ou melhor, para ser Macamiamo - são ‘soluções para problemas’ “mal”, ou ainda se quer, formulados. Temos problema de qualidade de ensino em Moçambique? Como se manifesta? Como podemos ter problema de uma coisa que nem sequer sabemos o que é? Estou a espera da prova contrária.

Os Sul-Africanos, por exemplo, formularam-no como sendo um problema de acesso e equidade, resultante das desigualdades de oportunidade estruturalmente sedimentadas pelo regime, racial-saguinário, do Apartheid. Toda a sua concepção de qualidade gira em torno do alargamento do acesso e equidade para grupos socio-raciais históricamente desvantajados. Os critérios para definição de excelência levam em consideração esse aspecto. É assim que eles estão a tentar estabelecer os critérios para definição de qualidade.
Ora, uma parte considerável do que se está a fazer com o tal sistema de creditação em Moçambique é simplemente copy and paste de soluções adoptadas no contexto Sul–Africano. Mas este, repito, é outro assunto, que não queria debater aqui, pois corro risco de me alongar. O que queria sugerir é que sabemos pouco não só sobre as motivações dos estudantes no ensino superior, mas também sobre sua origem social, sobre seu desempenho, sobre a efectividade dos curricula, sobre práticas de avaliação e sua relação com os níveis desconhecidos de in-sucesso académico, sobre a qualificação do corpo docente em termos de ensino e aprendizagem e por aí em diante.

Académicos no Mercado.

O propósito deste artigo era falar, somente, do livro de que vou falar a seguir. O aspecto central que eu queria debater com a postagem anterior foi melhor captado no estudo que um académico, Africano, de renome internacional, abordou. Trata-se de Mahmood Mamdani. Mandani é Ugandês e residente em Nova York. Publicou vários livros que deviam ser de leitura obrigatória nas nossas Universidades. Não vou falar deles, basta fazer uma busca na internet que logo aparecem. Vou sim falar deste outro livro que Mamdani escreveu e cuja capa reproduzo na foto acima: Scholars in the Marketplace: The Dilemmas of Neo-Liberal Reform at Makerere University, 1989–2005. Traduzido isso daria qualquer coisa como: Académicos no Mercado: Os Dilemas da Reforma Neo-liberalismo na Universidade de Makerere.
Académicos no Mercado é um estudo de caso de reformas, na Universidade de Makerere, baseadas no mercado. Com o Banco Mundial como o precursor, as reformas neo-liberais na Universidade de Makerere, como o modelo para a transformação do Ensino Superior em África, tiveram implicações para todo o resto do continente. Num nível global, o caso de Makerere exemplifica o destino das universidades públicas numa era amiga do capital e orientada pelo mercado.
A reforma de Makerere começou nos anos 1990, ano da nossa segunda constituição, e foi baseada na premissa de que o Ensino Superior é mais do tipo de bens privados do que bem público. Ao invés de colocar o público contra o privado, e o Estado contra o Mercado, Mamdani muda os termos do debate para uma terceira alternativa que explora diferentes relações entre os dois.
O livro destingue entre privatização e comercialização, dois processos que guiaram a reforma de Makerere. Mamdami argumenta que enquanto privatização (entrada de estudantes que se auto-financiam) é compativel com a universidade pública onde as prioridades são publicamente estabelecidas, comercialização (autonomia finaceira e administrativa para cada faculdade para desenhar seu próprio curriculum respondendo as “necessidades” do Mercado) inevitavelmente conduz para a determinação pelo mercado das prioridades na universidade pública. Mamdani alerta para os perígos da comercialização das universidades públicas como sendo a subversão de instituições públicas para propósitos privados.
Os leitores atentos hão de se lembrar, com certeza, do que escrevi aqui e aqui sobre o que está(va) a acontecer com a nossa Universidade Pedagógica (UP). Exemplifico com a UP, simplesmente, por uma questão de conveniência uma vez ser do senso comum, até para os próprios estudantes, que de Universidade a UP, de Universidade, só mantem o nome. No entanto, este fenómeno da comercialização do Ensino Superior atinge todas as instituições do Ensino Superior no nosso País. É um Ensino Superior a avulso, na lógica da denúncia Mamdaniana da comercialização. Tudo é comercializável, tudo têm um preço no mercado, até o interesse público!
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PS: Respondo assim ao comentário de Elton Beirão colocado na postagem anterior.

Tuesday, September 11, 2007

Ensino Superior Avulso!



Este é mais um anúncio de um MBA (Master in Business Administration), mestrado em administração de negócios, que uma universidade privada Moçambicana vai oferecer na Província nortenha de Nampula. A mesma universidade já anunciou a abertura de outros cursos noutras provincias. Leiam, é rápido como próprios cursos, depois vemo-nos a seguir.



“Prezado(a),
Pelo presente informamos que dispomos de vagas para o curso de Pós-graduação e Mestrado MBA em Estratégia e Desenvolvimento de Negócios - 1ª edição, a decorrer na cidade de Nampula a partir de Setembro de 2007. Para mais informações queira por favor contactar as nossas instalações citas
na Rua de Monomotapa, 221-1º andar.

Saudações” .


Se não consegue comprar cinco litros de óleo, que cirva para todo mês, pode comprar dois, um, e até meio. Se mesmo assim não consegue, pode comprar um copito, uma tampinha ou a quantidade que cabe no verso de fundo da lata de coca-cola! Há sempre uma medida para o seu bolso. O que não pode acontecer é você ficar sem o óleo. Digo oléo como poderia dizer qualquer outro produto comestível daqueles que não se produz, mas muito se consome em Moçambique. Ó, a roupa não fica de fora, há facilidades de pagamento. Prestações! Esta é a moda que predomina no chamado “mercado informal”. Esse, de que se canta aos quatro ventos, que “ajuda a desenvolver” o país. As razões apontadas são várias, mas pode-se realçar o emprego. Dizem que muitos Moçambicanos estão informalmente empregados e contribuem, assim, para a economia [in-formal?]. A qualidade do produto, as condições de higiene em que é vendido, as burlas a que os clientes podem e são submetidos, a origem dos produtos etc, haaa para quê tanta dor de cabeça! Afinal de contas, no final das contas, o que interessa é satisfazer a necessidade.

Algo diz-me que a “informalidade” chegou ao Ensino Superior. Se não oficialmente, pelo menos na lógica prática. Esta “informalidade” manifesta-se pela forma como está decorrer a expansão deste ensino. Pelo menos, fico com a impressão que se está a tratar o ensino superior como um produto qualquer, desses que se compra no "Dumba-Nengue" ( Expressão que se refere ao mercado informal em algumas partes de Moçambique0. Desses produtos que se, o indivíduo não consegue comprar na loja, vai comprar ao Estrela Vermelha (mercado informal em Maputo). Paga-se muito menos do que o próprio custo de produção e leva-se o produto, mesmo assim. A comparação pode não ser absolutamente válida, mas há muito que se pareça na lógica. Por exemplo, no caso do Ensino Superior "avulso" os preços não são nada baratos comparados aos do Ensino Superior público.

Estas notas, sobre como a fragmentação do produto e das facildades de pagamento foram tomando conta do quotidiano consumistico Moçambicano, não ficam pelos produtos considerados de “primeira” necessidade. A Educação, quem diria, SUPERIOR tornou-se também num produto fragmentáriamente vendível, como qualquer outro. É o Ensino Superior “avulso”. Da mesma forma que posso desfazer um volume, depois o pacote, e o maço para vender unidades de cigarros, haaa que alívio para os fumadores de bolso furado, hoje posso fazer um curso superior “avulso”. Sem precisar de alguma infrastrutura básica, bibliotécas, salas de aulas condignas, internet, só para falar de alguns de ordem material, posso decidir montar um curso num dos distritos do País e satisfazer a necessidade (procura) de formar quadros para desenvolver o País. Que nobre, o desiderato!


Toda aquela estrutura “classica” dos cursos organizados e oferecidos dentro e no ambiente universitário parece estar a ficar para a história. E reparem que não estou contra o alargamento da base de acesso ao ensino superior. Nem estou a ser apologista de um modelo anacrónico de ensino.
Hoje, já não são os alunos que vão das diferentes localidades, distritos, provincias, para os grandes centros urbanos, onde estão as universidades. São os cursos, faculdades, escolas, que vão à localidade, ao distrito. Um verdadeiro movimento de “avulsização” do Ensino Superior. Uma corrida entre privadas e públicas ao encontro do estudante! Será mesmo que vão ao encontro do estudante, na sua origem? De que estudante? É esse tipo de Ensino Superior e de acesso equitativo que queremos? Ou melhor, será que levam mesmo a universidade, a faculdade, o curso, a cultura universitária, acima de tudo, o conhecimento à localidade, ao distrito? Existe, assim, uma distribuição equitativa de conhecimento e das condições de produção de conhecimento pelos diferentes extractos populacionais? Um estudante in-formado nessas condições terá, mesmo, as mesmas oportunidades que aqueles outros formados nas universidades de “facto”? Esta fragmentação tem implicações para a própria concepção de universidade que tinhamos, temos e queremos? Conheço algumas pessoas que estão a fazer o curso de gestão ambiental em Xai-Xai. O curso é oferecido pela nossa Pedagógica. As instalações, em Inhamiça, não passam de uma casota para abrigar uma familia de não mais de cinco membros. Biblioteca? Para quê? Estão a estudar, vão ser doutores! Aumentam-se as estatísticas de graduados.

Não me questionei, explicitamente, sobre as implicações deste fenómeno para a qualidade do ensino. Não me questionei sobre o tipo de programas que são oferecidos nestes cursos “avulso”, não me questionei sobre quem são os estudantes que aderem a estes cursos? Não me questionei sobre como se licencia (no Ministério da Educação) a abertura destes cursos? Não me qustionei sobre quem leciona nestes cursos, se os docentes estão maioritáriamente nas capitais? Enfim, não me questionei sobre as causas e implicações deste padrão de expansão e diversificação do nosso ensino superior. Eis um campo fertil para investigação, este da sociologia do ensino superior em Moçambique. Estudemo-lo!

Mestrado em Relações de Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo

Existem estudantes meus, Moçambicanos, interessados em fazer a pós graduação, particularmente o mestrado, que me têm perguntado onde arranjar vagas (bolsas). Pois bem, aqui está uma oportunidade, candidatem-se.

Sunday, September 9, 2007

Ciências Sociais Hoje!


Leiam neste blog, do Professor e Sociólogo Carlos Serra, um debate indirecto sobre as Ciências Sociais em Moçambique. O texto resulta de entrevistas individuas realizadas pelo Jornalista do Jornal Semanário SAVANA na sua edição de 7 de Setembro de 2009.

Saturday, September 8, 2007

Uma Vitória com Sabor a Homenagem.



A Selecção Nacional de Moçambique, Mambas, que a muito tinha cede de vitórias, jogando fora, ressurgiu com uma vitória (1-0) frente a sua congénere da Tanzânia. Mesmo não tendo conseguido a qualificação para a Taça das Nações Africanas (CAN 2008) a vitória dos Mambas é de um sabor especial. É de um sabor especial não somente por quebrar o jejum, mas por que a vitória é uma homenagem ao jovem jogador Nando Matola. Matola, jovem jogador da selecção nacional, de apenas 27 anos de idade, militava num clube na Africa do Sul, teve uma morte trágica vitima de um acidente de viação há sensivelmente uma semana. Matola, deslocava-se à Maputo com a família, esposa e dois filhos, que também pereceram no acidente para se juntar aos demais jogadores da equipe de todos.
Viva, viva aos Mambas, por esta homenagem merecida aos préstimos e a memória de Nando Matola!

Thursday, September 6, 2007

Tuesday, September 4, 2007

A procura de homens honestos!









"A honestidade é elogiada por todos, mas morre de frio."
- Juvenal
"A honestidade, sem as regras do decoro, transforma-se em grosseira."
- Confúcio
"O cinismo é a única forma sob a qual as almas vulgares se aproximam do que seja a honestidade."
- Friedrich Nietzsche
"Se você é honesto porque pensa que essa é a melhor política, sua honestidade já foi corrompida."
- Sydney J. Harris

I
A honestidade não existe. Melhor, não existe enquanto não se estabelerecem as condições morais de sua possibilidade entanto que acto, moral e eticamente desejável, cujos padrões de comportamento são socialmente estabelecidos. Estou a dizer, em outras palavras, que ninguém nasce honesto, mas torna-se honesto em determinadas condições. A ética e a moral são, portanto, duas esferas de valores a partir das quais se podem estabelecer as condições de possibilidade da honestidade. Mas a ética e a moral são dois campos disputados por vários segmentos ou categorias sociais que a tem como seus guardiães com destaque para a religião. Tudo, no meu entender, começa com a discussão dos critérios para se estabelecer o que é o “bem” e o “mal”’ em determinada sociedade. O que faz o “bem” bem e o que faz o “mal”mal varia em função do contexto social.

O capital e o poder simbólico (prestigio) exercido por pessoas como Dom Alexandre, Dom Chimoio, Sheikh Aminuddim Mohamad entre outras autoridades morais, públicas - os dois primeiros cardeais da Igreja Católica de Moçambique e o terceiro Sheikh Islâmico, com grande intervenção na nossa esfera pública através de seus artigos nos diferentes jornais semanários – deriva do facto de serem representastes de instituições formuladoras de princípios morais. Não gostaria de entrar nos interstícios das definições teleológicas e até filosóficas (em particular da filosofia Política) da moral. Deixo isso como tarefa –TPC– para cada um de nós.

No entanto, em jeito de comentário, gostava de deixar algumas notas em relação a impressão com que fiquei da intervenção do, recentemente exonerado, ex-Procurador Geral da República (PGR), Joaquim Madeira.
A intenção não é por em causa a honestidade “inata” de Madeira, mas o argumento tácito de que este país, e subentenda-se suas instituições públicas, só pode funcionar “bem” no dia que tivermos dirigentes honestos. Aí é melhor esperarmos deitados mesmo. De boas intenções, diz a máxima, está cheio o inferno. Podia até ir mais longe e sugerir que o desenvolvimento deste país só se pode fazer com pessoas desonestas! Esses nos fariam, provavelmente, pensar na necessidade de produzir instituições capazes de limitar os efeitos de suas acções. É um argumento moral e politicamente incorrecto e até problemático. Mas o que quero sugerir com esta subversão é que não são as pessoas honestas que têm que fazer as instituições funcionarem "bem", pelo contrário é o bom funcionamento das instituições que pode produzir pessoas dês-honestas, ou pelo menos impedir que estas imperem o sistema. E quando falo de bom funcionamento não sugiro a ideia,racional, de adequar os meios aos fins. Isso levar-nos-ia as ideias de eficácia e eficiência das instituições. O bom funcionamento aqui refere-se fundamentalmente ao que define qualquer instituição, a previsibilidade, a institucionalização das suas praticas, normas e regras de funcionamento.

II

Essa ideia da possibilidade de produção de pessoas honestas no país como condição sine-qua-non para o desenvolvimento está por detrás de intervenções grosseiras a que o nosso país está sujeitos pela designada indústria de desenvolvimento. Descobriu-se que o desenvolvimento tem fracassado em África por causa do gene corrupto de seus líderes, por causa do apego natural que esses lideres tem com o poder. Exemplos para sustentar isso não faltam. Mugabe é a versão mais actualizada dos Mobutus. As medidas de ajustamento macro das economias a que muitos países africanos foram e são submetidos por instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM) legitimam-se pela ideia obsessiva de que se podem produzir homens honestos. Homens que consomem e vivem apenas daquilo que produzem, mesmo quando as contas de seus Estados, quando seus orçamentos nacionais, são injectados com dinheiros para cujos fins mal se conhece. As tais soluções para problemas que não existem que vão fazer o Sociólogo E.Macamo ficar rouco. Os indivíduos são sujeitos a um teste permanente da sua capacidade de resistir a tentação e exercitar a sua honestidade. Aqui, não é a oportunidade que faz o ladrão. Não, este já nasce feito. A ocasião só o permite por em acto uma característica "inata". O que precisamos fazer é purificá-los com as doutrinas sacramentais teologia da boa-governação e do combate a corrupção. Este raciocínio que individualiza o problema, ao remeter para esfera da moral individual, mais uma vez é bastante problemático. É problemático por que nós faz perder de vista uma perspectiva importante do problema, nomeadamente as condições estruturais que produzem esses comportamentos que alguém os decidiu designar de desonestidade, corrupção e por aí em diante e que estão por detrás da criação de instituições ir-relevantes para combater esses males e disciplinar os homens: Unidade Anti-corrpução e os FMIs. Perdemos de vista a possibilidade de reflectir sobre as condições institucionais de possibilidade de produção desses homens e mulheres des-honestos. Vou tentar me explicar, melhor.

Se os religiosos como os que mencionei plebiscitam a produção do seu homem honesto ideal, essa oportunidade é negada a burocracia do Estado. O nosso Estado não tem como pensar o seu modelo de homem honesto pelo estabelecimento de regras institucionais claras e impessoais. Em outras palavras, num contexto institucional claro, onde as regras e normas de funcionamento das intuições são claras, são as próprias regras de jogo que vão produzir homens honestos e assim como os seus homens não honestos. Recordo-me de memória de um comentário feiro por E. Macamo a quando da saída polémica do ex-presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz. Segundo Macamo foi a clareza da regras institucionais de funcionamento do BM que permitiram identificar o tropeço de Wolfowitz, ao promover a sua namorada, levando-o a demissão e não a sua vergonha na cara pelo peso da honestidade. Está a faltar, como dizia, entre nós a possibilidade de reflectir sobre os aspectos estruturais que tornam as condições de possibilidade de produção de uma moral pública. O problema já nos foi diagnosticado e por um médico que mal entende de doenças tropicais. Lembrei-me da história das zonas livres de malária.

A cidade do Cabo na africa do Sul (Cape Town) é uma zona livre de malária devido as condições climáticas (clima mediterrâneo). É comum encontrar médicos que não sabem diagnosticar e nem conhecem a cura para malária. Uma vez uma estudante Moçambicana, que passou as férias em Maputo e regressará ao Cabo com o bichano da Malária, foi cair as mãos de um destes médicos que, pela semelhança dos sintomas, diagnosticou e medicou-lhe para gripe. O resultado é previsível. A malária não passou e como se tornara cerebral a menina não resistiu mesmo após a transferência, tardia e de emergência, para Maputo. Morreu! Com a "indústria do desenvolvimento" parece acontecer o mesmo e com nossa cumplicidade complacente. A causa do nosso atraso foi diagnosticada pelos experts do (BM) e do (FMI) e uma das soluções foi (Structural Adjustment) ajustamento estrutural e a malária político-económica não nos para de subir a cabeça. A divida externa de países como Moçambique triplicou deste que começaram essas intervenções, a fome, a pobreza, a indigência e por ai em diante. A única coisa que baixou foi a capacidade de nós pensarmos a nós próprios como indivíduos. Baixou também a nossa capacidade de não vivermos de ajuda. Somos pensados e ajudados pelos outros! Estou a entrar no mato. Vou tentar regressar ao móbil deste artigo que já vai longo, para o que havia planificado.

III

As vezes da para pensar que se em Moçambique só existissem homens honestos, esses mesmos homens se tornariam desonestos, bastasse para tal assumir um cargo ou função pública. Imagino a angustia que muitos homens “honestos”, pessoas como o PGR, passam quando confrontados com contexto institucional em que tem que trabalhar. A passagem que se segue reflecte, no meu entender, uma descrição não do problema, mas da sua aparência na formulação do PGR.

“Sabe, qualquer acção na PGR, não só em Moçambique, é pesada. Você tem que lidar com processos criminais. Na nossa sociedade multipartidária, quando o criminoso está ligado ao partido da oposição, diz-se que você está a perseguir a oposição. Quando o criminoso está ligado ao partido governamental, você está a defender o poder. Não é possível agradar a gregos e troianos”.

Não teria sido mais interessante se pudéssemos perceber do PGR o que faz com que não sejam as regras, as normas a dizerem o que fazer e seja a pessoa do procurador a ter que se sentir na posição incomoda de ter que se preocupar com a inclinação partidária do criminoso? Não devia a procuradoria da república existir, justamente, para fazer ouvidos de mercador a esse tipo de (ameaças) problemas, fazendo falar mais alto as leis que incriminariam os supostos criminosos. Em nenhuma parte do mundo os criminosos, com ligações partidárias, deixariam de usar sua influência partidária para se livrarem das masmorras. Esperar isso é querer que os criminosos sejam honestos como o é o nosso ex-procurador. A questão que nos devia colocar, suponho, é que tipo de contexto institucional e legal devíamos estabelecer para permitir contornar esse tipo de pressões a que pode estar sujeito um procurador ou uma procuradoria. Toda entrevista do procurador é um exercício de insinuações para justificar que não fez o que devia ser feito porque fora manietado pelo poder. E como ele, resistiu, heroicamente, optando por falar sem dizer nada ia ao parlamento foi exonerado. “Bela” táctica de fuga a responsabilidade esta. Produz um herói, de si mesmo, fazendo-se vítima.
Bayano é um jornalista bloguista que se tem batido pela melhoria da qualidade do nosso jornalismo. Fá-lo, de entre outras formas, debatendo ideias. Leiam seu comentário sobre a entrevista do ex-procurador da república.


Caro Patrício, as respostas do ex-procurador encerram mais perguntas do quê respostas. Há coisas que não consigo entender. Por exemplo, em resposta ao como soube da exoneração disse: "JM - Fui ao meu gabinete e comecei a arrumar as minhas coisas, porque sabia que a partir daí nada mais podia fazer. Para além de que os órgãos de comunicação social começariam a espalhar a notícia. Não fazia mais sentido continuar a trabalhar. Arrumei as minhas fotografias e outros objectos pessoais e, quando passavam, das 13 horas, fui para casa." Já não se passam as pastas neste país? Não se organiza os dossiers para o substituto? E como elemento da magistratura não continua a trabalhar para o Estado dentro da própria Procuradoria?
Outra resposta que suscita mais perguntas: "Na nossa sociedade multipartidária, quando o criminoso está ligado ao partido da oposição, diz-se que você está a perseguir a oposição. Quando o criminoso está ligado ao partido governamental, você está a defender o poder. Não é possível agradar a gregos e troianos." Mas será o trabalho do procurador agradar a gregos e troianos? Não será o trabalho dele de trabalhar de forma imparcial? O que aconteceu à máxima "fiat iustitia, pereat mundus (que a justiça prevaleça, mesmo se o mundo perecer)", um chavão que Kant defendeu com garras e unhas?
E esta. "E, mais, os grandes “dossier´s” não era possível falar deles e muito menos responder às perguntas no Parlamento, onde fui sete vezes. É preciso frisar isso: nenhum procurador que me antecedeu esteve lá esse número de vezes."
De um lado fala de que não podia falar dos grandes dossiers no parlamento talvez porquê sub-judice - não nos diz e nem o entrevistador se lembrou de perguntar. Mas do outro lado diz que foi sete vezes ao parlamento. Haverá alguma ligação entre as duas frases? O que significa ir ao parlamento sete vezes para ele? E porquê os seus antecessores são puxados para a conversa? Quais são os termos da comparação?
Veja este exemplo: "NOT - Com isso quer dizer que o poder judicial fica limitado perante o político? Sentiu isso ao longo do seu mandato?
JM - É muito complicado. Vou dar alguns exemplos de fora. O procurador-geral de Portugal, Souto Moura, que passou mal quando o caso “Casa Pia” começou a tocar algumas pessoas influentes na vida política portuguesa. O que lhe aconteceu? Muita luta contra ele, pedindo a sua cabeça. Na África do Sul aconteceu o mesmo. O procurador era bom, mas caiu no descrédito quando instaurou aquele processo contra o vice-presidente sul-africano. Ele próprio contou-me isso quando nos encontrámos na China, que era impossível, se não infernal, trabalhar assim. Acabou sendo afastado do cargo. Não é que ele tivesse cometido alguma coisa, mas o ambiente político não era muito bom.
NOT - E no nosso caso, há ou não interferência?
JM - Estaria a mentir se dissesse que não acontece."Onde está a resposta e perante a admissão de que existe interferência porquê o jornalista não prosseguiu? Quem, por exemplo, faz tal interferência? Como é que ela se manifesta no nosso caso? Reparem que ele falou de outros casos. Como é a PGR se posicionou face tal interferência? Alguma estratégia foi encontrada para se pôr cobro a situação? Enfim, estas foram apenas algumas questões. Ainda há mais.