
Friday, June 8, 2007
Thursday, June 7, 2007
Pânico no ar e ir-responsabilidade!
Aeronaves aterram em pista sem iluminação05/06/2007
O facto deu-se no Aeroporto Internacional de Nampula, último fim-de-semana, quando duas aeronaves Boeing 737, uma das Linhas Aéreas de Moçambique e outra da Air Corredor, que tiveram de aterrar sem condições de iluminação devido ao roubo dos faróis daquela pista pela população local. Segundo dados em nosso poder, a aeronave da Air Corredor levava a bordo 58 passageiros, sendo que a das LAM transportava 56 passageiros. O comandante de voo da Air Corredor, Ernesto Carrilho, disse que ficou 32 minutos a sobrevoar a cidade de Nampula à espera de uma solução, que foi a mobilização de mais de dez viaturas, as quais foram espalhadas ao longo e no final da pista para garantir o mínimo de iluminação. Questionado se a aeronave não tinha combustível suficiente para aterrar noutro aeroporto mais próximo, Carrilho respondeu que não o fez porque já tinha sobrevoado a cidade cerca de 30 minutos, tendo gastado mais de 1300 quilogramas de combustível. Cinco minutos após a aterragem da aeronave da Air Corredor, seguiu-se a da aeronave das LAM, comandada pelo piloto Bento Pacho, que disse ter feito a aterragem sem sobressaltos.
Quero sugerir que se crie mais uma comissão de inquérito. Mas desta vez para os acidentes de aviação que não chegaram a acontecer. Depois mantenha-se o resultado do inquérito sigiloso e trancado a sete chaves. Aos responsáveis por não terem feito o que deviam ter feito para que os previsíveis incidentes não acontecessem desse-lhes uma emulação. Haaa, não há responsáveis pois “só pode ter sido sabotagem”, de preferência do povo que vive nas redondezas! MESMO SABENDO ISTO, APRIORI, instale-se a comissão. No final sugira-se que para as próximas vezes se mobilizem mais carros para iluminar a pista. Risquemos, no entanto, do dicionário e abdiquemos do seu uso, as palavras: risco, perigo, incerteza, in/segurança, precaução, responsabilidade, emergência (não, esta serve para pedir mais verdinhas) pois não são de serventia alguma para nós.
Finalmente, isto não é uma reflexão crítica, é um desafogo perante tanto absurdo!
Finalmente, isto não é uma reflexão crítica, é um desafogo perante tanto absurdo!
Sentido de Humor!

Podemos nos queixar de muita coisa, e temos o feito, menos do nosso apurado sentido de humor. Há dias referi-me ao retorno do grande actor e cómico Mário Mabjaia aos palcos. Na verdade acho que em cada de nós, Moçambicanos, reside um pequeno grande humorista. Das situações mais dramáticas que se vivem no nosso país surgem as piadas mais cómicas e interessantes. Um dos aspectos interessantes é a função, de efeito balsâmico e de amortecedor das nossas angustias, que essas pias das desempenham. Peguemos só em dois exemplos. Depois do incidente do paiol que ceifou mais de 100 vidas humanas e com saldo de mais de 500 feridos eis que começaram a circular nos celulares sms com o seguinte dizer:
- Vende-se terreno na zona de Malhazine a 5.000mzn aceita-se prestação. Ora, a última coisa que alguém queria após a explosão do paiol em Malhazine era um terreno nas ribeirinhas daquele armazém de armamento pesado.
- Veio depois o incêndio que dizimou o MINAG, Ministério da Agricultura. A piada não se fez esperar. Pegou-se na letra de uma música que está a “bater”, i.é, – fazer sucesso nas pistas de dança e nas rádios – e se modificou humoristicamente. Na letra da música original o músico Dj Ardiles queixa-se da evasão a sua privacidade por uma espécie de paparazes que vivem o fotografando onde quer que se encontre. "Toda hora foto", canta ele. "Na barraca foto. Foto, Foto, Foto". É só Foto. Essa perseguição deve-se a sua fama e dinheiro (eu sou um homem de cash).
Agora leiam esta versão de foto:
- Vende-se terreno na zona de Malhazine a 5.000mzn aceita-se prestação. Ora, a última coisa que alguém queria após a explosão do paiol em Malhazine era um terreno nas ribeirinhas daquele armazém de armamento pesado.
- Veio depois o incêndio que dizimou o MINAG, Ministério da Agricultura. A piada não se fez esperar. Pegou-se na letra de uma música que está a “bater”, i.é, – fazer sucesso nas pistas de dança e nas rádios – e se modificou humoristicamente. Na letra da música original o músico Dj Ardiles queixa-se da evasão a sua privacidade por uma espécie de paparazes que vivem o fotografando onde quer que se encontre. "Toda hora foto", canta ele. "Na barraca foto. Foto, Foto, Foto". É só Foto. Essa perseguição deve-se a sua fama e dinheiro (eu sou um homem de cash).
Agora leiam esta versão de foto:
"Foto, foto" Dj Guebas ft Dj Ardiles:
DJ GUEBAS!!U dja ku hissa tiko ke?
Na barraca ... fogo, Ministério fogo,
no paiol fogo, é só fogo, é só fogo..
Deixa minha vida, deixa minha vida,
os bombeiros têm hora...
As pessoas andam a falar...
porque eu, porque eu...
I tiko dzanga, a Hi wsona...
Eu sou um gajo de cash..
DJ GUEBAS!!U dja ku hissa tiko ke?
Na barraca ... fogo, Ministério fogo,
no paiol fogo, é só fogo, é só fogo..
Deixa minha vida, deixa minha vida,
os bombeiros têm hora...
As pessoas andam a falar...
porque eu, porque eu...
I tiko dzanga, a Hi wsona...
Eu sou um gajo de cash..
Mais pano para Manga!
“Querem que trabalhe sem gastar dinheiro”!Na verdade a afirmação do Presidente da República não é uma simples interrogação e muito menos uma afirmação furtuita. Estará o P.R a querer dizer que não é possivel trabalhar sem gastar dinheiro? Ao invés de arriscar mais possiveis interpretações para esta afirmação pouco esclarecedora vou me refugiar na cómoda posição de perguntador.
Comecemos pelo mais prático e simples:
quanto gasta?
De onde vem – do OGE, Donativos, etc - o que gasta?
Quem decide quanto deve gastar?
Como se avalia o desempenho e o efeito da presidência aberta ?
É o meio mais eficaz?(capacidade de alcançar um efeito desejado) e a eficiente? ( capacidade de alcançar efeito em questão com o mínimo possivel de recursos) que se aplica para conseguir tais efeitos?
Como se justifica em caso de má aplicação?
Receio que estas perguntas que enceram apenas algumas possíveis não sejam satisfeitas pela genérica resposta do P.R: As visitas surtem efeitos positivos! Como se visualiza esse efeito positivo?
Será problema de cultura de "accountability" (prestação de contas)?
P.S: Está é uma primeira reacção de algo que precisa ser melhor pensado!
Comecemos pelo mais prático e simples:
quanto gasta?
De onde vem – do OGE, Donativos, etc - o que gasta?
Quem decide quanto deve gastar?
Como se avalia o desempenho e o efeito da presidência aberta ?
É o meio mais eficaz?(capacidade de alcançar um efeito desejado) e a eficiente? ( capacidade de alcançar efeito em questão com o mínimo possivel de recursos) que se aplica para conseguir tais efeitos?
Como se justifica em caso de má aplicação?
Receio que estas perguntas que enceram apenas algumas possíveis não sejam satisfeitas pela genérica resposta do P.R: As visitas surtem efeitos positivos! Como se visualiza esse efeito positivo?
Será problema de cultura de "accountability" (prestação de contas)?
P.S: Está é uma primeira reacção de algo que precisa ser melhor pensado!
Se fosse maldoso faria o seguinte comentário: Coitados daqueles que foram diagnosticados com o virus da preguiceira aguda durante as visitas. Quem sabe não seja a falta de dinheiro que os faz não trabalhar?
Sobreviver, desenvolver ou ecologizar?
Assinalou-se, no dia cinco de Junho, o dia mundial do ambiente. O lema das comemorações desta data foi: “Aquecimento Global – Um problema para a Humanidade”. É indiscutível, hoje, que o planeta viveu nas últimas quatro décadas alterações climáticas mais aceleradas do que em qualquer outro período histórico. É também plausível a hipótese argumentativa de que a acção humana é a maior responsável por essas alterações. A formação de uma consciência ecológica planetária é, em parte, corolário da convicção derivada dessa correlação positiva. A mega conferência decorrida no Rio de Janeiro, Brasil, em 1992, popularizada como ECO-92, ou “Cimeira de Terra” constitui um indicador da preocupação planetária para salvaguardar a integridade da terra e a partir dai da humanidade. Nesse encontro o cerne da questão residia na busca de uma solução equilibrada entre a necessidade de desenvolver e a de ecologizar. Como conciliar o desenvolvimento sócio-económico e industrial sem degradar o meio ambiente? A busca da solução ideal para esta pergunta constitui um dilema: desenvolver ou ecoligizar? É desse dilema que surgiu a retórica do desenvolvimento sustentável. Uma retórica ecologicamente correcta, mas que não combina em muitas situações com as condições reais de penúria, nas quais muitos países eufemisticamente em "vias de desenvolvimento" se encontram, na qual sua principal fonte de renda para sobrevivência provem da exploração esgotável de recursos naturais. Enfim, este debate da pano para muita manga. Por isso, pretendo encurtá-lo, grosseiramente, enunciando o meu posicionamento em relação ao dilema. O meu posicionamento está reflectido na posição expressa na introdução do livro do filósofo Severino Ngoenha que nos oferece uma perspectiva filosófica-africana do problema ecológico e que passo a citar parcialmente:“ Se a África e o terceiro mundo tiverem de aceitar todas as descargas tóxicas e nucleares, tiverem que manter florestas e animais em nome de um equilíbrio ecológico; ao mesmo tempo que diminui o seu orçamento da educação e da saúde – que são as mais baixas do mundo – para satisfazer os programas do FMI e do BM, os nossos filhos estão condenados a serem os futuros “Tarzans”, a serem os futuros bons selvagens”.
Este pensamento de Ngoenha, tal como a questão ecológica em si, parece-me actual para pensarmos o lugar do problema do ambiente para nós. E no meu caso, interessa-me a definição sociológica que se pode fazer da questão ecológica em Moçambique. É uma postura que de alguma maneira tomei no polémico debate sobre a questão do “desflorestamento/desmatamento” devido a exploração desenfreada de madeira no país. As questões que coloco poderão ser entendidas no âmbito da Sociologia Política, da Sociologia do Risco e até da Sociologia do Conhecimento. Da Sociologia Política, a questão podia se colocar no nível da representação e delegação de direitos de cidadania. Em que medida é que o nosso sistema politico permite que os diferentes grupos sociais e de interesse formulem e veiculem suas preocupações, em particular as ambientais? O Fórum Amigos do Ambiente, A ONG Livaningo, A ONG Natureza em Perigo e por ai em diante aquém representam ou que interesses estão neles representados? Representam o camponês?; o citadino?; o lenhador?; os que vivem da representação dos interesses desses grupos sociais?; os Moçambicanos? Os oprimidos? Com que legitimidade o fazem? Acho que aquele camponês de Metangula também se sentiria bem viajando para as conferências da Greenpeace em Haia, para além do emprego garantido que teria na ONG. E aqui refiro-me somente as organizações dessa “inócua” e bem intecionada sociedade civil" com preocupações ambientalistas. Poderíamos, igualmente, falar da representação ao nível dos órgãos de soberania legalmente instituídos para representar os interesses dos diversos grupos de moçambicanos, nomeadamente as assembleias desde a municipal até a nacional. Da Sociologia do Risco emprestaríamos, por exemplo, a visão segundo a qual os riscos ambientais não são dados a priori, mas são social e argumentativamente construídos. Algures, neste blog, defendi a ideia de que o buraco de ozone não existe por si, os cientistas tentam convencer-nos da sua existência. A estória do aquecimento global é um de exemplo disso. A terra aquece por os raios ultravioletas penetram com maior intensidade devido aos buracos da estufa. E aqui a questão não reside no facto isolado de o buraco não ser visível a olho nu, mas na ideia de que os riscos modernos, na sua maioria, não são mesmo visíveis. É preciso um discurso, muitas vezes cientifico, que os dê visibilidade. Alguém já viu o vírus do HIV/SIDA? Só existe pela via argumentativa. O que não impede que seus efeitos sejam reais. A tese que tenho defendido é de que existe uma luta pela definição de riscos. Essa luta pela definição pode e envolve vários grupos de interesse com interesses diferenciados, mesmo quando alguns projectam a imagem de que seu interesse é universal e nobre pelo que é desinteresse. A fala sobre o “desflorestamento/desmatamento” não é aleatória e muito menos democrática. Falar é poder! Requer competência argumentativa, e um saber especializado. Algo que não está democraticamente distribuído na nossa sociedade. E aqui entra a Sociologia do Conhecimento que sugere que o conhecimento é socialmente distribuído. Essa distribuição social do conhecimento não é, repito, democrática, mas hierárquica e expressa-se nas desigualdades sociais inerentes a cada sociedade. Há grupos que tem acesso aos recursos, simbólicos e matérias, e ao poder de nomear, de classificar o que representa risco e o que não é risco ambiental e que soluções adoptar. Sistemas de classificação são produtos sociais e, como tal, resultam de lutas e causam lutas permanetes. Que o aquecimento global deva constituir uma preocupação para os habitantes deste planeta penso não haver dúvidas. A dúvida que tenho é se deve constituir o problema e a preocupação prioritária, ainda por cima quando dados indicam que nós somos quem menos contribui para tal. 65% das emissões de gases carbónicos associados ao aquecimento global são produzidos por meia dúzia de países industrializados. E são esses que exigem a democratização da solução dum problema hierarquicamente formulado. Em outras palavras, chamam-nos para mesa da solução de um problema que não participamos na definição. É por isso que ministérios como o do ambiente constituem soluções para problemas que nós não formulamos. Invariavelmente o dinheiro faz parte da solução. Como se dinheiro resolvesse tudo. É por isso que mesmo sem perceber o que se passa com as florestas já se prontificaram a doar dinheiros para a sua preservação. E esses dinheiros ficam em grande parte com aquelas organizações da “imaculada sociedade civil” que reproduzem acriticamente o discurso e chavões dos que nos dão dinheiros: Aquecimento global – um problema para a humanidade. Que humanidade? Se esses apelos são feitos para países onde uma boa percentagem de seus habitantes vivem em condições de desumanas. Nesses países a questão social premente ainda é a produção e re-distribuição hierárquica de benesses e não a solução “democrática”– todos devemos participar – dos riscos ambientais globais que se tenta impor. O Norte (não geográfico, mas geopolítico e geoeconomico – e ai incluía países como Brasil, China, na lista dos maiores poluidores) oferece-nos dinheiro e nós florestamos! Eles desenvolvem, nós ecologizamos!
Este posicionamento deve deixar algumas pessoas desapontadas, poderão questionar até a minha consciência ecológica do perigo planetário. Afinal já se vivem no país os efeitos destas alterações climáticas. Os cíclicos ciclones, a estiagem, os deflúvios de terra, e os dilúvios são associados ao efeito colateral do derreter dos glaciares. Tudo isto para não falar da erosão urbana e até rural que também experimentamos. Temos problemas sérios, em conviver na e com a cidade, de salubridade. Temos problemas de degradação ambiental doméstica. Mas esses problemas são a face visível de algo mais profundo, algo que é pouco debatido. Algo que não faz parte da agenda.Do debativel, do dizível. Talvez porque não mobiliza fundos. Mais profundo é, de novo, a maneira como estruturamos a nossa vida quotidiana para responder a esses problemas do ambiente doméstico: exercitamos a indiferença. O maior responsável da erosão costeira na zona da costa do sol, por exemplo, não é o aquecimento global e o aumento do nível das águas do mar. Trata-se de um problema de gestão do ambiente doméstico. A minha convicção é de que o sociólogo teria maior préstimo se o seu papel neste momento, em que o nosso país carece de massa critica pensante, consistisse em tornar seus instrumentos analíticos mais claros e acessíveis para repensarmos o que para nós constitui problema prioritário. Redifinir a hierquia das prioridades!
Tuesday, June 5, 2007
O regresso do “Curandeiro a Força”!
Com tanta desgreça a abater-se sobre nós - paiol, fogo, cinzentinhos loucos etc - é mesmo tempo de procurar um nyamussoro para saber o qua se passa! Com Mabjaia, pelo menos, podemos ter um lado cómico que ajude a banalizar essas tragedias?!Monday, June 4, 2007
O Estado do Mundo segundo três Interrogações de B. S SANTOS!
Texto: Estado do Mundo!
Vivemos num tempo de perguntas fortes e de respostas fracas. As perguntas fortes são as que se dirigem não apenas às nossas opções de vida individual e colectiva, mas sobretudo às raízes, aos fundamentos que criaram o horizonte das possibilidades entre que é possível optar. São, por isso, perguntas que causam uma perplexidade especial. As respostas fracas são as que não conseguem reduzir essa perplexidade e que, pelo contrário, a podem aumentar. As perguntas e as respostas variam de cultura para cultura, de região do mundo para região do mundo. Mas a discrepância entre a força das perguntas e a fraqueza das respostas parece ser comum. Decorre da multiplicação em tempos recentes das zonas de contacto entre culturas, religiões, economias, sistemas sociais e políticos e formas de vida diferentes em resultado do que chamamos vulgarmente globalização. As assimetrias de poder nessas zonas de contacto são hoje tão grandes quanto eram no período colonial, se não maiores. Mas são hoje muito mais vastas e numerosas. A experiência do contacto é sempre uma experiência de limites e de fronteiras. Nas condições de hoje, é ela que suscita a discrepância entre as perguntas fortes e as respostas fracas. Entre muitas outras, selecciono três interrogações fortes. A primeira pode formular-se assim: se a humanidade é só uma, por que é que há tantos princípios diferentes sobre a dignidade humana, todos pretensamente únicos, e, por vezes, contraditórios entre si? Na raiz desta interrogação está a constatação, hoje cada vez mais inequívoca, de que a compreensão do mundo excede em muito a compreensão ocidental do mundo. O regresso da teologia política (islamismo, hinduísmo e cristianismo políticos) nas três últimas décadas conferiu uma premência especial a esta interrogação, dado que os monopólios religiosos tendem a fomentar extremismos tanto entre os membros das diferentes religiões, como entre os que lutam contra eles. A resposta dominante a esta interrogação são os direitos humanos. É uma resposta fraca porque se refugia na universalidade abstracta (um particularismo ocidental) e não explica por que razão tantos movimentos sociais contra a injustiça e a opressão não formulam as suas lutas em termos de direitos humanos e, por vezes, aliás, as formulam segundo princípios que são contraditórios com os dos direitos humanos. Esta interrogação desdobra-se numa outra. Qual o grau de coerência exigível entre os princípios, quaisquer que eles sejam, e as práticas que tem lugar em nome deles? Esta interrogação assume uma premência especial nas zonas de contacto porque é nestas que os princípios mais tentam ocultar as suas discrepâncias com as práticas e que estas se revelam com mais brutalidade, sempre que a ocultação não tem êxito. Também aqui a resposta dos direitos humanos é fraca. Limita-se a aceitar como natural ou inevitável que a reiterada afirmação dos princípios não perca credibilidade com a cada vez mais sistemática e gritante violação dos direitos humanos por parte tanto de actores estatais, como não-estatais. Continuamos a ir às feiras da inovação da indústria dos direitos humanos (global compact, programas de luta contra a pobreza, objectivos do milénio, etc.), mas, a caminho delas, temos de passar por um cemitério cada vez mais inabarcável de promessas traídas. A segunda interrogação é esta: se a legitimidade do poder político assenta no consenso dos cidadãos, como garantir este último quando se agravam as desigualdades sociais e se tornam mais visíveis as discriminações sexuais, étnico-raciais, e culturais? As respostas dominantes são duas e são igualmente fracas: a democracia representativa e o multiculturalismo. A democracia representativa é uma resposta fraca porque os cidadãos se sentem cada vez menos representados pelos seus representantes; porque, nunca como hoje, os partidos violaram tanto as promessas eleitorais, uma vez no poder; porque os mecanismos de prestação de contas são cada vez mais irrelevantes; porque o mercado político (a concorrência entre ideologias ou valores que não têm preço) está a ser absorvido pelo mercado económico (concorrência entre valores que têm preço), tornando-se assim sistémica a corrupção. Por estas razões, o poder político tende a assentar mais na resignação dos cidadãos do que no seu consenso. Por sua vez, o multiculturalismo hegemónico é uma resposta fraca porque é excludente em sua pretensão de inclusão: tolera o outro, dentro de certos limites, mas em caso algum imagina ser enriquecido e transformado pelo o outro. É, assim, uma afirmação de arrogância cultural. A terceira interrogação é a seguinte. Como mudar um mundo onde os quinhentos indivíduos mais ricos têm tanto rendimento quanto o dos 40 países mais pobres ou o de 416 milhões de pessoas e onde o colapso ecológico é uma possibilidade cada vez menos remota? As respostas dominantes são o desenvolvimento, a ajuda ao desenvolvimento e o desenvolvimento sustentável. São variantes da mesma resposta fraca, a de que os problemas causados pelo capitalismo se resolvem com mais capitalismo. Pressupõe que a economia do altruísmo não é uma alternativa credível à economia do egoísmo e que a natureza não merece outra racionalidade senão a irracionalidade com que a tratamos e destruímos.
Friday, June 1, 2007
Langa responde ao "Chapa 100".
Jaime Langa solicitou-me para que colocasse a sua resposta as questões levantadas pelo Chapa 100, em forma de comentário, a propósito da Integração Regional. Por que achei o texto longo resolvi colocar em postagem principal.
Quero antes de mais agradecer o seu gesto em comentar este artigo. Só com este tipo de atitudes é que podemos enriquecer o debate e melhor orientarmos a nossa visão em relação à estratégia a seguir para integrar Moçambique na economia regional, particularmente com a economia sul-africana.
O processo de integração regional é relevante para todos os sectores activos da sociedade, não somente para a área económica como parece. O que induz a percepção de que se está depositar maior atenção à área económica talvez seja o próprio conceito clássico da economia. Os economistas clássicos como, Adam Smith, David Ricardo ou John Stuart Mill definiram a economia como sendo um ramo de conhecimento, isto é, uma ciência, que lida com o comportamento humano enquanto condicionado pela escassez de recursos, definem ainda como sendo o estudo do processo de produção, distribuição, circulação e consumo dos bens e serviços. Segundo os economistas austríacos, especialmente Mises, a economia seria a ciência da acção humana propositada para a obtenção de certos fins em um mundo condicionado pela escassez. Portanto, sendo um dos objectivos fundamentais da integração “Alcançar o desenvolvimento económico, aliviar a pobreza e melhorar o nível de vida dos seus povos e apoiar os mais desfavorecidos, através da integração regional” é quase impossível atingir-se este objectivo sem ser por via do debate em torno da política económica da região. Mas também outro objectivo fundamental da integração é “Reforçar e consolidar os velhos laços, históricos, sociais e culturais entre os povos da região".
As questões que me apresenta, caro chapa 100, são fundamentais; aliás, no meu texto, em jeito de reflexão, questiono assim: “Será que os empresários Moçambicanos estarão atentos as consequências que esta medida pode trazer para os seus negócios? Será que o governo Moçambicano através do Ministério do comércio está a realizar com eficácia o que lhe compete no seu real papel de desenhador estratégico das politicas de desenvolvimento do pais? Estarão a ser feitos a nível das associações empresariais, debates sobre as melhores estratégias a assumir perante uma realidade destas?” A minha reflexão em torno destas questões dá-me a entender que o nível de debate nas organizações económicas e sociais ainda é muito pobre. A estas questões a cima a resposta seria NÃO. É muito mau. Porém, o que lhe posso dizer como gestor de profissão é que não deve ter medo, ou melhor, deve ter menos medo. Certamente que para o “Povo” Moçambicano há mais vantagens que desvantagens. Por exemplo: Se hoje, o nível de renda de um enfermeiro Sul Africano é talvez 4 vezes mais do que de um Moçambicano, com a integração a tendência será de equilíbrio. Isto é, o moçambicano passará para um escalão superior no seu nível de vida, enquanto que o sul africano provavelmente descerá (através de novos ingressos) ou manterá até equilibrar com o moçambicano, pois estes estarão a partilhar o mesmo ambiente de trabalho sob mesma legislação. Agora para o Estado a situação é diferente, o país provavelmente se tornará um consumidor da Indústria sul africana, a balança de pagamentos registará mais importações (entradas) que exportações, continuará dependente da divisa proveniente dos mega-projectos (Alumínio, Açúcar, Minas, Algodão, e outros). A expansão da indústria regional para Moçambique de forma a se aproximar ao mercado consumidor, ou à matéria prima pode impulsionar o crescimento económico e consequentemente o desenvolvimento (melhoramento do nível de vida das populações) com a responsabilidade social destas indústrias. O financiamento não se põe em causa, pois os industriais tenderão a ir buscar melhores formas de financiar os projectos a menos custo a partir da origem (do seu país). São várias as vantagens para o Moçambicano, por isso considerei a decisão política de sábia, queira entender-me caro Chapa100.
O processo de integração regional é relevante para todos os sectores activos da sociedade, não somente para a área económica como parece. O que induz a percepção de que se está depositar maior atenção à área económica talvez seja o próprio conceito clássico da economia. Os economistas clássicos como, Adam Smith, David Ricardo ou John Stuart Mill definiram a economia como sendo um ramo de conhecimento, isto é, uma ciência, que lida com o comportamento humano enquanto condicionado pela escassez de recursos, definem ainda como sendo o estudo do processo de produção, distribuição, circulação e consumo dos bens e serviços. Segundo os economistas austríacos, especialmente Mises, a economia seria a ciência da acção humana propositada para a obtenção de certos fins em um mundo condicionado pela escassez. Portanto, sendo um dos objectivos fundamentais da integração “Alcançar o desenvolvimento económico, aliviar a pobreza e melhorar o nível de vida dos seus povos e apoiar os mais desfavorecidos, através da integração regional” é quase impossível atingir-se este objectivo sem ser por via do debate em torno da política económica da região. Mas também outro objectivo fundamental da integração é “Reforçar e consolidar os velhos laços, históricos, sociais e culturais entre os povos da região".
As questões que me apresenta, caro chapa 100, são fundamentais; aliás, no meu texto, em jeito de reflexão, questiono assim: “Será que os empresários Moçambicanos estarão atentos as consequências que esta medida pode trazer para os seus negócios? Será que o governo Moçambicano através do Ministério do comércio está a realizar com eficácia o que lhe compete no seu real papel de desenhador estratégico das politicas de desenvolvimento do pais? Estarão a ser feitos a nível das associações empresariais, debates sobre as melhores estratégias a assumir perante uma realidade destas?” A minha reflexão em torno destas questões dá-me a entender que o nível de debate nas organizações económicas e sociais ainda é muito pobre. A estas questões a cima a resposta seria NÃO. É muito mau. Porém, o que lhe posso dizer como gestor de profissão é que não deve ter medo, ou melhor, deve ter menos medo. Certamente que para o “Povo” Moçambicano há mais vantagens que desvantagens. Por exemplo: Se hoje, o nível de renda de um enfermeiro Sul Africano é talvez 4 vezes mais do que de um Moçambicano, com a integração a tendência será de equilíbrio. Isto é, o moçambicano passará para um escalão superior no seu nível de vida, enquanto que o sul africano provavelmente descerá (através de novos ingressos) ou manterá até equilibrar com o moçambicano, pois estes estarão a partilhar o mesmo ambiente de trabalho sob mesma legislação. Agora para o Estado a situação é diferente, o país provavelmente se tornará um consumidor da Indústria sul africana, a balança de pagamentos registará mais importações (entradas) que exportações, continuará dependente da divisa proveniente dos mega-projectos (Alumínio, Açúcar, Minas, Algodão, e outros). A expansão da indústria regional para Moçambique de forma a se aproximar ao mercado consumidor, ou à matéria prima pode impulsionar o crescimento económico e consequentemente o desenvolvimento (melhoramento do nível de vida das populações) com a responsabilidade social destas indústrias. O financiamento não se põe em causa, pois os industriais tenderão a ir buscar melhores formas de financiar os projectos a menos custo a partir da origem (do seu país). São várias as vantagens para o Moçambicano, por isso considerei a decisão política de sábia, queira entender-me caro Chapa100.
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