O ensino técnico-vocacionalComo previa o debate está a ‘
aquecer’. E eu não estou a conseguir dar conta do recado em termos dos interessantes comentários que vão surgindo. Quero chamar a atenção dos leitores para o debate que está a decorrer no primeiro post desta série
aqui. Os comentários e as análises bem conseguidas de
Jonathan Mccharty,
Obed L. Khan e de um anónimo (que pena pois suas ideias são tão inofensívas e interessantes) e as minhas respostas estão a alimentar o debate. Quando iniciei a série anunciei que almejava alcançar alguns objectivos, nomeadamente: a) reflectir sobre o papel do ensíno técnico-vocacional e das universidades em Moçambique. Ao fazer isso pretendia fazer uma espécie de arqueólogia e geneológia do que designei de res-surgimento da preocupação com o ensino técnico-vocacional no país. Sugeri, no texto seguinte –
O apóstolo da ilusão – que as origens do discurso que enfatiza a necessidade de um ensino técnico virado para - o “
saber fazer” - a solução dos problemas resulta de uma formulação problemática e de um
diagnóstico técnicista e externo do que constituem os problemas de desenvolvimento no nosso país.
Dessa maneira propõe-se soluções técnicas para problemas que talvez não precisam, necessáriemante, desse tipo de soluções. Por outras palavras, queria sugerir que se o problema da pobreza absoluta, e já agora do desenvolvimento, fosse um problema técnico Moçambique e tantos outros países já não estariam em vias, mas desenvolvidos. Não é que sejamos ‘ricos’ em técnica. É que a aplicação de soluções técnicas encontra sempre, ou quase sempre, a insubordinação da natureza-societal da realidade sobre a qual se quer intervir técnicamente. Esse parece-me, então, passar a ser o maior problema. O problema para o qual somos desencorajados de pensar. Atribuí a origem dessa formulação técnicista dos problemas as ideias do economista americano Jeffrey Sachs, mas não se restringem a ele, e a sua influência nos corridores de formulação de políticas e decisões, '
one size fit all', em Nova York junto as Nações Unidas.
De facto as suas ideias consubstanciam aquilo que hoje são os Objectivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM), o documento com as receitas técnicas sobre “
o-que-fazer”. Por exemplo, no sector da educação uma das respostas dos ODM sobre '
o -que- fazer' é o ensino técnico. A minha questão é saber até que ponto a relevância do ensino técnico-vocacional, assim como a insistência de que ensino superior, no geral, e as universidades, em particular, devem o previlegiar se justifica pelo fim que lhe é, políticamente, atribuido – a de combater a dita-cuja? Questionei no primeiro texto se não seria útil nos perguntarmos que tipo de
conhecimento é mais valioso e válido para o – combate a pobreza absoluta – desenvolvimento? Porque não mesmo, que tipo de
conhecimento é mais valioso para o cidadão em Moçambique, na região e no ‘
mundo actual’ (o
nde todo mundo diz que se deve ter em conta o mundo)? Ainda vou explorar as implicações do
provincisnismo do técnico que nós é proposto. Por exemplo, perguntando, e quando a profécia se realizar e
acabarem com a pobreza absoluta o que vão fazer aqueles que foram ensinados a "saber-fazer" ela acabar? Corre-se o risco de os combatentes reinventarem-na para têr o que fazer. Senão eles viram os próximos pobres.
As vezes vale a pena voltar ao sentído etimológico das palavras para lhes recuperamos o(s) sentido(s) orginal(ais). Só temos a ganhar com isso pois clarificamos os termos dos nossos argumentos/debates. Esse é o caso com o termo
técnico. Deriva da palavra Grega
Techné que, geralmente, se refere a
capacidade, habilidade ou
arte. A técnica é, no entanto, uma capacidade, habilidade ou arte (estou a usar estes termos como sinónimos) ‘incorporada’ no indivíduo e que pode ser externalizada em objectos (coisas) tangíveis. Os ‘
swikelekedane’ de Malangatana seriam, assim, a externalização objectificada da sua técnica ‘incorporada’ (capacidade, habilidade ou arte) de pintura. Para o contexto do nosso debate importa introduzir de imediato a distinção entre as associações que se fazem entre a técnica com o ‘
saber-fazer’ (que o ministro da educação advoga), algo com as mãos ou com aquilo que o Reitor, o eclesiástico, da ‘
maior e mais antiga’ chama de ‘
saber-prático’, por um lado, e a
espistemê que significa
conhecimento, mas que pode ser entendido como
téoria, por outro lado. A distinção que estamos habituados a ouvir entre ciências (sociais) teóricas e as ciências (naturais) práticas, entre teória e prática, de modo geral, deriva dessas associações, até certo ponto, problemáticas (mas não vou elaborar sobre esse aspecto aqui).
O debate em torno do res-surgimento do ensino técnico-vocacional, que visa o combate a pobreza absoluta, recupera portanto um cepticismo antigo acerca da relevância do conhecimento
teória (conhecimento) em relação a
prática (
saber-fazer) porque se crê que a teoria está de alguma maneira distanciada da realidade, portanto, não ajuda a resolver os problemas ‘práticos’ da população. Esquece-se, imediatamente, que o que constitui problema ‘prático’ para as populações não é um dado aquirido ou estabelecido pela
prática (técnica), mas pelo
conhecimento (teória) ( e até certo ponto pela política). As ciências sociais são, por causa dessa perversão, consideradas uma perca de tempo porque se aconchegaram na província da teória. Desse modo elas não nos podem dizer
como ou a 'fazer-coisas’ que ajudem a combater a dita-cuja, mesmo que nos possam ajudar a questionar o ‘
que-fazer’. Aí está! É que '
o- que-fazer' já foi estabelecido por pessoas como Sachs. Portanto, aqueles que acham que
não há mais o que compreender, há é que transformar o mundo. É a variante internacional dos defensores dos deserdados. Malta
Sachs vai mais longe sugerindo que os países como o nosso perdem tempo ao investirem numa universidade que se dedica a
produção de conhecimento (teória) quando o que mais precisam é de ‘
saber-fazer’ (técnica). Os milhões de dolares ( os interessados podem visitar os site do Banco Mundial e o da UNESCO para ver quantos
fundos foram mobilizados para o ensino técnico desde 2005) que estão a ser investidos no ensino técnico-vocacional, portanto, não são para '
saber- o- que fazer' mas para
fazer! Fazer oquê? Fazer aquilo que nos dizem para fazer. Quem nos diz? Aqueles que
pensam por nós. É por isso que no primeiro texto sugeri que estamos a ser '
pagos para não pensar'. E ao que tudo indica estamos satisfeitos! (
Continua).