Thursday, April 5, 2007

Archie Mafeje: O gigante que se foi!

Na foto da esquerda para direita: Patricio Langa, Archie Mafeje, Chifaou Amzat e um colega da Swazi. Outubro 2003, Gaberone, Botswana.

Quarta-feira, 28 de Março, 2007 vai passar a ser um dia triste entre os pesquisadores sociais em toda a africa e não só: Foi o dia em que o professor Archie Mafeje faleceu em Pretória naquilo que foi a partida mais quieta que deixou, muitos daqueles para quem ele tocou directa ou indirectamente, num estado de tristeza e zanga. Archie Mafeje uma quintessência de pessoa da ciência e uma das mais versáteis e extraordinárias mentes a emergir em Africa foi, nos seus dias, uma lenda viva em todos os sentidos: O seu conhecimento era vasto tanto quanto a sua visão sobre os assuntos – em quase todos assuntos – era de tirar o fôlego.

Os seus discursos transcendiam as fronteiras disciplinares e eram caracterizados por um espírito combativo e de engajamento assente num cometimento pela transformação social. Como um académico sempre consciente da história da africa nos últimos seis séculos, convocou aos seus colegas para resistir a subserviência intelectual na qual todas as formas da dominação estrangeira prosperam. Era intransigente na sua chamada para a libertação das nossas imaginações colectivas como a pedra fundamental para a libertação continental. Em tudo isto, Mafeje também se distinguiu pela sua insistência no rigor científico e na originalidade. Era sua marca registada ser de forma não comprometidamente severo com os colegas cientistas sociais que eram medíocres nas suas análises.

Faço aqui um parêntese para recordar um episódio ocorrido em Gaberone no ano de 2003 durante uma conferência regional onde tive a ocasião e privilégio de conhecer Mafeje. Mafeje era o moderador da mesa em que se fazia um debate sobre a reforma agrária em Africa. Um colega, Moçambicano, fora apresentar uma comunicação que já havia apresentado alguns anos antes numa outra conferência em Kampala, o que não era suposto. Daqueles que escrevem um artigo e passam a vida a apresentá-lo em conferências sem alterar uma vírgula. Para seu azar, Mafeje, participara da conferência de Kampala e tinha estado bem atento a ponto de perceber que o nosso colega de delegação estava simplesmente repetindo o que dissera antes, inclusivamente, com a mesma falta de rigor analítico. Sem papas na língua disse: para próxima conferencia veja se trás um texto novo e com novos argumentos e não se esqueça que alguns de nós trabalharam em Moçambique e por isso temos ideia do que esta a falar. A sala ficou, simplesmente, gelada e o nosso colega embaraçado. Uns instantes depois toda a sala se pôs a rir, não havia maldade nas palavras de Mafeje. Havia, isso sim, apelo para maior seriedade!

O poder da sua caneta e a paixão das suas intervenções sempre foram de mão-em-mão com um estilo polémico único que era duro para aqueles que não estavam academicamente enraizados. Este foi o Mafeje que partiu a 28 de Março para se juntar aos outros heróis e heroínas da comunidade de pesquisadores sociais africanos. Um grande Pan-Africanista, um cientista extraordinário, um homem de debate de primeira linha, um partidário de primeira linha na luta pela justiça social, e um homem de grandes princípios humanitários. Vamos com certeza sentir saudades das suas profundas analises, suas réplicas estridentes, sua leal amizade, seu companheirismo, e sim – seu humor, habilidades culinárias que incluía um conhecimento das comidas e vinhos de todos cantos do mundo.
Mafeje vai hoje, 7 de Abril e dia das Mulheres Moçambicanas, a enterrar algures na africa do sul numa cerimónia presidida pela cientista social, Moçambicana, presidente do CODERSIA.
Este texto foi traduzido e adaptado por mim do original escrito por Adebayo Olukoshi secretário executivo do CODESRIA.
Breve Nota Biográfica de Archie Mafeje!Archie Mafeje era sul-africano de nacionalidade. Completou os seus estudos de graduação na Universidade de Cabo (University of Cape Town) onde iniciou a sua carreira como académico. Como muitos sul-africanos foi forçado ao exílio, pelo regime do Apartheid, onde passou boa parte da sua vida. Obteve o Doutoramento (PhD) em Antropologia e sociologia rural pela Universidade de Cambridge em 1966. Em 1973, com apenas 34 anos, foi nomeado professor de Antropologia e Sociologia do desenvolvimento no instituto de estudos sociais em Hague, por acto parlamentar e com a provação de todas as universidades Holandesas, tornando-se o primeiro académico africano a ser dessa forma distinguido na Holanda. Essa nomeação valeu-lhe a honra de ser professor da Rainha Juliana. Seu nome consta das prestigiosas páginas azuis do Directorado Nacional Holandês.

Wednesday, April 4, 2007

Robert Gabriel Mugabe: poder ou morte!



Os anos revolucionários eram de muita euforia e crença na possibilidade de emancipação do homem das masmorras que a situação colonial representava. Só assim, hoje, consigo tentar compreender o alcance de slogans como: Independência ou morte: venceremos! Esse tipo de declarações do tipo tudo ou nada! Nas minhas lucubrações, talvez alucinantes, imagino Mugabe falando com os seus botões dizendo: daqui não saio, daqui ninguém me tira. Mas não é para falar das minhas alucinações que peço a atenção e o precioso tempo dos meus virtuais leitores. Convido-os, então, para um olhar meditativo sobre o Zimbabué.

Mugabe é um demónio! Melhor, Mugabe foi, e está, demónizado. Teria, com certeza, dificuldade quem quisesse o contrário provar. Milhares de Zimbabuenos assim o pensam e sentem. Milhares de não Zimbabueanos, idem. Cada um com um grau diferenciado de experiência pessoal e de interpretação da situação actual que vive o Zimbabué. Prevalece, há algum tempo, uma espécie de consenso tácito quanto a ideia de que se está perante o mais crítico cenário, político e económico, causado pela permanência obsessiva de Mugabe no poder. Basta lançarmos um olhar sobre os principais canais de informação e formulação de opinião pública. Hoje é, praticamente, impossível encontrar no meandro da indústria da opinião formada, enlatada, das mentes formatadas, quem não diabólize Mugabe. Editoriais, cartas de leitores, reportagens, caricaturas, enfim, todo um aparato da indústria cultural da produção da opinião ao serviço da demonização e em alerta para a necessidade de se resolver a situação do Zimbabué. E não é, retenha-se bem isto, que Mugabe não o faça para merecer.

Acompanhamos, recentemente, após incidentes que levaram ao espacamento de indivíduos, incluindo o líder da oposição, as demarches dos líderes da SADC em busca de uma solução face ao que se considerou ser o agravar da situação política daquele país. Aliás, muitos desses dirigentes da SADC, portanto homólogos de Mugabe, são acusados de enveredarem pela diplomacia do silêncio. A maneira da avestruz, que diante do perigo enterra a cabeça, se considera a atitude dos líderes da SADC. Ademais, com a oposição liderada por Tsvangirai, líder do movimento para mudança democrática (MDC), apoiado, financeiramente, por alguns países ocidentais como a Inglaterra e os EUA – talvez não lhes reste outra alternativa – portanto, por países que colocam Mugabe na lista do dito eixo do mal (demónio), o xadrez torna-se ainda mais complexo pois permite que o regime se defenda em nome da defesa da sua soberania. Essa soberania justifica-se que alguns cobardes querem vendê-la a preço de banana. Com este argumento, forte, conspiratório e ideológico, bem ou mal, a situação no Zimbabué prevalece.


Existe gente demais para criticar Mugabe. Mais uma voz, ainda por cima de um ilustre desconhecido, sociólogo aspirante, não passa de uma gota no oceano. Não pode ser aquela gota que faria o copo de água transbordar, como muitos, provavelmente, almejam. Já que me encontro nessa situação que considero, relativamente, privilegiada, permito-me uma reflexão menos praxiológica ou, pelo menos, de uma atitude menos denunciante ou até de crítica ao regime. O meu interesse é uma espécie de interesse pelo desinteresse, a lá Bourdieu. Algo pretensioso. Por isso, permito-me colocar questões que aos olhos de activistas e de denunciantes que queiram ver o Zimbabué, radicalmente, mudado possam ser menos pertinentes. Não pretendo, igualmente, discordar de que a situação política, económica e social do Zimbabué esteja crítica e que por isso justifique a preocupação com a mudança que se tem manifestado das mais variadas formas. Ao que tudo indica parece que a situação por si só conspira contra Mugabe. Não preciso pôr mais pimenta na já picante refeição de Mugabe. Ao invés disso vou enveredar pelo caminho do levantamento de suposições para reflexão.


Existe no meio de tudo isto algo que me deixa de algum modo perplexo. Creio que o próprio Mugabe está ciente das vozes discordantes em relação a sua continuidade no poder, e consequentemente, do seu regime. Suponho que a situação esteja difícil de ser gerida. Imagino que o recurso a meios violentos para conter as sublevações é indicativo desse estádio de sítio que se instalou. Não preciso referir, aqui, a gestão do próprio estado numa situação de quase total isolamento e cheio de sanções de quase todos os tipos. Uma situação insuportável para qual Mugabe, teimosamente, faz vista grossa. Ou será que não faz? A questão que me inquieta é, imagino que há muitos mais, saber porque Mugabe não larga o poder, apesar de tudo? É um dado adquirido, um facto portanto, que Mugabe quer permanecer no poder por mais tempo. A recente emenda constitucional que o permite a recandidatura para a sua própria sucessão nas próximas eleições gerais de 2008, para mais um mandato de sete anos, é prova disso. Com 83 anos hoje, concorrerá para mais um mandado de sete anos em 2008. Com simples aritmética da para concluir que em 2015 aos 91 anos de idade Mugabe estará ainda no poder. Isto se Mugabe não partir desta para melhor como se diz na gíria brasileira referindo-se morte. Por que com tanta contestação Mugabe insiste e persiste em permanecer no poder?


Esta pergunta já me tirou e tira ainda o sono. Pior do que a pergunta são as respostas que encontro na indústria da opinião formada que me tiram do sério. A razão é, compreensível. Estão mais preocupados com a solução do problema do que em compreendê-lo. E o mal, ao que tudo indica, já foi identificado. Mugabe. O diagnóstico está feito, falta a terapia. E ao que tudo indica, a terapia deve ser de choque, talvez ao jeito de Bagdad. Sei lá! Dizem que nós, sociólogos, somos péssimos a propor soluções. Então porque não ficar no reconfortante (reconfortante?) aconchego da formulação de perguntas?

Da opinião formada, invariavelmente, a resposta para aquela pergunta reabilita, muda de rótulo, a velha teoria sobre a natureza do poder em africa. Os líderes africanos tendencialmente, uma vez no poder, almejam em torná-lo vitalício. Uma vez conquistado, querem ficar lá até que a morte os separe. É isso, suponho, que os considerados casos excepcionais de saída “voluntária” (voluntária?) são celebrados com sumptuosidade. Cá entre nós, no nosso caso único, milhares de meticais (senão dólares mesmo, é o efeito do Made in Mozambique) foram gastos numa suposta visita do Rovuma ao Maputo em jeito de despedida do povo. Quanta nobreza, no meio de tanta pobreza! Uwaa até rimam: nobreza e pobreza! Vejam só! Mas regressando ao assunto, o prestígio que se amealhou do raro e nobre acto valeu a alguns desses líderes, que abandonaram “voluntariamente”, o poder posições e funções também nobres em alguns organismos do sistema das nações unidas de onde terão reformas chorudas com certeza. É uma espécie de incentivo à pessoas como Mugabe, diga-se de passagem. Afinal, há o que fazer depois de largar o poder. Curiosamente, um africano estava em frente da ONU quando a maioria dos “voluntários” largou o poder. N.Mandela da RSA, Julius Nyerere da Tanzania, Q.Massire do Bostwana, J.Chissano de Moçambique só para citar alguns, são as ditas excepções a regra e portanto referências. Existe segundo essa visão uma solução para a tendência patológica do poder vitalício em Africa. Mas parece que nem isso serve para mover ou demover Mugabe.

O mais interessante e talvez intrigante nisso é que situações como a do Zimbabué e de Mugabe concorrem para dar maior credibilidade a teoria da visão patológica na maneira de lidar com o poder em africa. É como se a empiria confirma-se a teoria. Apesar da sua aparente coerência esta explicação, ainda que aplicada ao Zimbabué de hoje, não (me) satisfaz. Não (me) satisfaz por dupla razão: primeiro, não somente pela sua falsificabilidade – pensando a lá Popper, mas porque a primeira característica sustenta a segunda ideia de que não há exclusividade africana nisso. Os corvos eram todos alvi-negros, para muitos de nós, até termos a experiência do corvo vermelho indiano. A nossa teoria de que todos os corvos eram alvi-negros foi-se por terra assim que podemos demonstrar o contrário, falseia-la. Do mesmo modo, não há uma tendência patológica inerente ao poder em africa a partir da altura em que podemos falar Suhartos, Fidel, Saddam, Pinichet e mais recentemente das tendências do Hugo Chavez de ficar por lá eternamente. É, portanto, preciso mudar a ideia africaniza esse comportamento político. Não se pode negar que a nossa experiência pós-independentista de gestão do estado herdado do colono nos ofereceu muitas figuras com uma atitude Maquiavélica na sua concepção do poder.

Assim, num breve exercício de reminiscência, surgem-me nomes como Mobutu do ex-Zaire, Gathafi da Líbia, Banda do Malawi, Idamin do Uganda, José Eduardo dos Santos de Angola cito apenas alguns exemplos de memória. É escusado dizer que esses líderes foram adorados e odiados pelos seus povos ou por fracções consideráveis deste. Adorados por uns e diabolizados por outros. Outro reparo é em relação a designação que se queira dar aos regimes em que esses líderes exerceram o poder. Penso que, analiticamente, há pouca, senão nenhuma mesmo, relevância em caracterizá-los de regimes socialistas (ditatorial) ou capitalista (democráticos). Esses não passariam de rótulos sem grande poder heurístico.
Dito isto, surge-me que talvez exista espaço para os (nossos) cientistas políticos darem larga a sua imaginação. Penso que valeria a pena o exercício de romper com o pensamento pré-fabricado da indústria da opinião formada que faz sucumbir muitos de nós, incautos as (falsas) evidências da visão patológica do poder em africa. Com os parcos conhecimentos de ciência política não me permitirei ir além do exercício do meu pensamento crítico. Para tal socorro-me de uma ideia da literatura clássica da ciência política, nomeadamente, a do pragmatismo recomendado ao Príncipe por Nicolau Maquiavel. A ideia do pragmatismo, segundo a entendi, sugere que o príncipe deverá usar de todos os meios que lhe forem disponíveis para conquistar e, acima de tudo, manter o poder. Uma solução do tipo os meios justificam os fins. Daí a expressão maquiavélico, que muitos a usam indiscriminadamente.


Dando mais larga a imaginação, sobre as possíveis razões para a relutância de Mugabe em se manter no poder não obstante todas as contrariedades apoiar-me-ei nesta visão Maquiavélica, que não tem nada de, essencialmente, africano. Conjecturo o fim de Mugabe. Não me refiro ao fim (termino), mas ao fim (finalidade).Tenho para mim que manter o poder, conquistado há mais de duas décadas, tornou-se (o fim) um fim em si mesmo para Mugabe. Hoje todos os meios justificam esse fim. Poder ou morte: vencerá! Procuro fazer o exercício (im-possível) de emprestar-me a pessoa de Mugabe (numa espécie de incorporação) e pensar os possíveis cenários pós Mugabe (vivo), portanto, Mugabe fora do poder, mas vivinho da silva. Vejo todo um espectro de criminalização e de mais demonização. Aliás, esse cenário nem precisa esperar pela saída de Mugabe do poder. Há de certeza quem pagaria pela sua cabeça. Vejo a amnistia internacional, vejo os tribunais de (in)justiça internacional e por ai em diante exigindo que o crucifiquem. Mugabe sabe que fora do poder seria o próximo Saddam, Pinochet ou Milosevic. As barras dos tribunais estariam com certeza a sua espera. Exemplos disso como referi, não lhe faltam, mesmo em africa. Chiluba, da Zâmbia, quase morria de enfarte por enfrentar acusações de crime e corrupção, isso tudo depois de ter humilhado Kaunda ao despojá-lo de seu património e torturá-lo psicologicamente durante a sua presidência. O feitiço, afinal, se voltara contra o feiticeiro. Daniel Arap Moi, do Kenya, apesar de mais cuidadoso, em termos de garantir imunidade após sair do poder, também teve algumas dores de cabeça com acusações de corrupção. Mais casos devem existir, sem mencionar os não africanos.

Mugabe, com certeza, não há-de querer passar por tal humilhação. Ninguém o haveria! Feliz ou infelizmente, para ele, a teia política, a situação politica, se tornou complexa e irreversível que não me parece haver outra saída senão ir até as últimas consequências para manter o poder. Manter o poder custe o que custar, até que fique preso pelos seus próprios tentáculos! Se o quiserem tirar terá que ser com, a in-gloria, intervenção externa que anda tão mal de reputação. Poder ou morte é o que antevejo para Mugabe.

Tuesday, April 3, 2007

Miquelina Ângela e Amélia Jeremias morreram abraçadas

Texto de Nelson Saúte

Miquelina Ângela tinha 12 anos e andava na quinta-classe. Amélia Jeremias também tinha 12 anos, mas estava na sexta. Quando começaram os rebentamentos do Paiol de Mahlazine, em Maputo, na quinta-feira, 22 de Março, foram retiradas das salas de aula e concentradas num lugar onde os professores pudessem ampará-las e ajudá-las. Toda a gente pensou que fosse algo semelhante ao que acontecera em Janeiro quando o mesmo paiol incendiou e não houve danos tão avultados. Mas não. Os estrondos avolumaram-se e o pânico também. Alguns pais assomaram à porta da escola, muitas crianças saltaram pelo muro. Miquelina e Amélia estavam abraçadas e caminhavam, debaixo dos estrondos, quando as suas vidas foram estilhaçadas por um obus. Tiveram uma brutal e instantânea morte. O mesmo obus atravessara antes duas salas, rebentara com uma porta e se alojaria, ulteriormente, numa casa distante transformando-a em cinzas.
A Escola Primária de Wiryamu fica no bairro de Zimpeto. Nela estudam 3060 crianças, em quatro pavilhões, sendo que cada sala alberga 65 alunos. Falta concluir um pavilhão e prover de carteiras e cadeiras algumas salas onde as crianças aprendem acocoradas ou sentadas no chão porque as carteiras e as cadeiras que existem não chegam para todas elas. Entre as seis e meia da manhã e as dezoito e cinco da tarde, três turnos passam por aquele lugar agora ensombrado pela tragédia. Ninguém sabe explicar por que razão os obuses deflagraram no paiol e destruíram, cegamente, vidas e bens, arrastando muitas famílias para o infortúnio.
Há crianças que não foram localizadas até hoje pelos pais, muitas outras traumatizadas. Há desaparecidos. As crianças de Wiryamu vinham de Magoanine, Zimpeto, Kongolote e Bairro Policial, nomes de bairros que circundam o paiol. Ontem fui visitar a escola de Miquelina e de Amélia. Tinha sabido delas pela televisão quando se relatava o pânico que assombrava a minha cidade. Agora, nos obituários da Escola de Wiryamu contabiliza-se mais uma morte: Brígida da Conceição. Não resistiu aos ferimentos da tarde de quinta-feira e morreu no domingo – conta-me o director da escola.
Seis crianças, três meninas e três meninos, aproveitam o interregno das aulas, no turno do meio, por causa dos funerais de uma das mártires da escola, e revisitam o lugar onde dias antes eram visitadas pelos demónios da guerra. Sorriem, falam alto, correm. Pergunto-lhes de onde vieram, se estavam na quinta feira.
- Viemos de Magoanine, dizem-me. Sim, estávamos. Tivemos medo.
Estão ali, fazendo a sua catarse. A catarse possível de meninos pobres que não sucumbem à força material da tragédia, que não podem ter o luxo de se sentirem traumatizadas. No fundo, esta a nossa tragédia maior.
Há ainda o rasto de sangue da Miquelina Ângela e de Amélia Jeremias na areia quente de segunda-feira, as meninas que foram para a morte abraçadas, enquanto se retiravam da escola. Há chinelos sem par, há vestígios dos obuses, paredes esventradas, portas arrancadas. Faz um calor atroz e o jovem director da escola, Carlos Armando Zacarias Chihongo, tem o rosto carregado.
À volta do bairro, carros atafulhados de gente, que regressa dos funerais. Morreram mais de 100 pessoas, outras tantas - mais de 400 - ficaram feridas, muitas delas gravemente. Ficaram sem pernas, nem braços. Quem esteve no local relata cenas dantescas. Muitos têm os rostos marcados para sempre por aquela inaudita violência. Os testemunhos na rádio e na televisão são desoladores. A vida regressa, não obstante. Contudo, os cortejos de silêncio, de quem regressa do cemitério, no pico do calor, entre o meio-dia e uma hora da tarde, deixam-me sem palavras.
Regresso ao centro da cidade e penso nas mártires de Wiryamu, um nome assombrado pela História. Em tempos fora lugar cruel de um massacre, hoje é nome de uma escola primária, a escola que viu duas meninas abraçadas serem levadas para o território desconhecido da morte.
miquelina_angela_e_amelia_jere.html

Porquê a demissão do ministro se o povo já se demitiu!

Elton Beirão continua a pensar e a brindar-nos com suas reflexões. Por estas bandas há sociólogos, intelectuais, que conseguem sê-lo “sem pensar”, muito menos escrevendo. Não me estou a referir a validade, nem a qualidade do escrito. Refiro-me apenas a ousadia de deixar por escrito o que pensam. Força Elton. De erro em erro vamos acertando. Perdoa-me publicação tardia deste texto andei ausente por alguns dias.
Ainda sobre as explosões do paiol de Malhazine.
Tenho estado a acompanhar atentamente os discursos que circulam nos orgãos de comunicação e pelas esquinas deste vasto Moçambique, e um elemento tem despertado a minha atenção: andam todos dizendo que “os cidadãos isto e os cidadãos aquilo”; “que os moçambicanos já há muitos tempo estão cansados”; “que a população exige que rolem cabeças”; “que o povo não é parvo e já há muito tempo percebeu”; que o governo já não engana ninguém”; etc. Esta colectânea de discursos que circulam deixam-me um pouco confuso. Vamos lá ver se consigo me situar.
Quando dizem os cidadãos, a população, o povo, os moçambicanos, estão se referindo a quem? (Lhe parece uma pergunta absurda? Mas não é). Se referem ao conjunto dos habitantes do país (neste caso Moçambique)? Aos moçambicanos na sua totalidade? Os discursos que circulam me induzem a pensar que a esse conjunto se referem. Mas a partir de que base esta generalização do cidadão, do povo e da população como a totalidade dos moçambicanos? Recorri ao dicionário da língua portuguesa e cidadão, povo ou população pode significar além de habitantes duma nação, também habitantes duma localidade, citadinos (habitantes duma cidade). Então, os discursos se referem aos moçambicanos no seu todo, ou aos moçambicanos citadinos (ou será citadinos moçambicanos)? Ou aos moçambicanos de um lugar específico? (Ainda lhe parecem questões absurdas? Mas não são) O povo, os cidadãos, a população moçambicana (no seu todo”?”) percebeu há muito tempo e está tão cansado que já não se deixa enganar. Isto é, esta ciente de tudo e por iniciativa vai deixando andar (é o deixa-andar não só na função pública mas também nos moçambicanos na generalidade). Sim! Os cidadãos estão tão cansados que votam sempre nas mesmas pessoas e nas mesmas velhas promessas “furadas”. O povo está sempre calado quando chamado a fala (sinal de consentimento? A velha máxima que quem cala consente), porquê o governo já não o engana? Não creio que assim seja. O que vejo é uma “meia dúzia de gatos pingados” composto por alguns académicos, intelectuais, algumas figuras de renome e a comunicação social, intervindo activamente. Mostrando que pensa e que o governo já não engana. Que estão mais atentos. É verdade que a maior parte destes intelectuais, académicos e algumas figuras de renome são cidadão moçambicanos. Mas serão eles representativos dos moçambicanos no seu todo. Representativos no sentido estatístico. No sentido de uma amostra representativa. Não é um procedimento enganador assumir que um grupo restrito e ínfimo (atendendo o número total da população moçambicana) seja estatisticamente representativo dos moçambicanos na totalidade e a partir dai generalizarmos que os moçambicanos estão cansados e já perceberam? Os moçambicanos na totalidade perceberam mesmo? Há certezas que não são mais enganados? Que estão mesmo cansados? E quais são então os indicadores disso? Isto é, quais são as manifestações do povo, dos cidadãos moçambicanos no seu todo que nos levam a concluir que estão cansados e atentos? Respostas para estas questões não as tenho debaixo duma cartola prontas a sair num passo de mágica. Tenho sim mais inquietações. Mas por agora estas estão de “bom tamanho”. E estas todas questões me fazem ainda pensar em como os moçambicanos (pelo menos os citadinos) são incríveis (ainda não sei se no bom ou mau sentido) Que explodiu o paiol, morreu gente (e não pouca), muitos feridos, danos materiais incalculáveis. Isto é um facto, que pelos vistos, para o Estado moçambicano trata-se apenas de danos colaterais. E por isso é também um facto que o governo não se vai responsabilizar por isso (“queixem-se ao Papa se quiserem”). Outro facto ainda é que “meia dúzia” de académicos, intelectuais, figuras de renome e órgãos de comunicação social têm tentado trazer a tona os responsáveis (e diga-se de passagem, sem sucesso algum: como diz o ditado popular, os cães ladram e a caravana passa). E o povo? Os cidadãos? Os moçambicanos na generalidade? Onde é que estão aqueles cidadãos que quase espontaneamente enchem o estádio da Machava para ver os “mambas?” jogar? Que enchem o estádio da Machava para ver os Kassav actuar (pessoalmente acho uma excelente banda musical)? Onde estão aqueles cidadãos que quase espontaneamente ocupam por toda uma noite a praça da independência (no Maputo) quando há eventos de carácter recreativo? Onde estão aqueles cidadãos que quase espontaneamente invadem a praia do Costa do Sol ou Miramar (no Maputo)quando uma certa empresa de telefonia móvel atribui certa cor ao verão e encontra nisso motivos de grandes celebrações? Tive oportunidade de estar na cidade da Beira quando os citadinos do chiveve apanharam a “síndrome de calistoíte aguda”. Ainda lembram-se disso? Quando o vencedor dum concurso (que prefiro não dizer o nome mas que todos sabemos) de caraoke, ou reality show como dizem promovido por uma das nossas televisões voltou ao chiveve com o “troféu?” que foi buscar a Maputo. Pessoalmente não tenho nada contra nem a favor do vencedor do tal concurso ou reality show, muito menos contra a televisão promotora. Quanto ao concurso em si, poderei discutir numa altura própria. Mas antes de nos perdermos, voltemos ao “síndrome de calistoíte aguda” que assolou o chiveve por volta de Dezembro de 2006. Ou usando uma terminologia que esta na moda, a calistoização do chiveve. Nessa altura, em qualquer esquina da cidade da Beira não se falava noutra coisa que não fosse “vota Calisto”; “mandem sms para Calisto”; “o carro é nosso”; “empresta-me o teu telemóvel para votar no Calisto”; “já votaste no Calisto?”; “passei toda noite a votar no nosso Calisto”; etc. Objectivo era reunir votos suficientes para ganhar o tal concurso. Ou será reality show? Volto a repetir que pessoalmente não tenho nada contra nem a favor do tal Calisto. O que chamou-me atenção foi a espontaneidade da mobilização, independentemente das razões que possam estar por trás de tamanha mobilização (que também pode ser discutida noutra altura). Precisavam ver então quando se soube a data da chegada do vencedor do tal concurso (o vencedor foi mesmo o tal Calisto). Foi uma mobilização poucas vezes vista na Beira e talvez em Moçambique. Uma recepção digna de uma selecção que acaba de ganhar o campeonato mundial de futebol. Desde ao mais pacato cidadão até aos mais altos dirigentes da província. É certo que para alguns o objectivo era obter dividendos políticos, mas o grosso dos presentes, talvez 90%, e garanto que não eram poucos, estavam lá quase que espontaneamente. E onde pretendo chegar com isto? Qual será a razão para uma mobilização espontânea em momentos recreativos? Como esta força consegue se impor nos citadinos para momentos festivos e de lazer? Que força é essa que consegue atrair espontaneamente “massas” para alegria e silenciar as mesmas “massas”, em momentos como os que se seguiram a explosões do paiol? O que torna os citadinos impávidos e serenos diante as consequências das explosões? Ou não estão impávidos e serenos mas ainda chocados e espantados com o acontecido? Volto a perguntar, onde estão os cidadãos? O povo no sentido alargado do termo? Os moçambicanos no seu todo? Será que faz sentido falar e exigir demissões se o povo já tomou a iniciativa de se demitir quando chamado a responsabilidade? Antes de se demitir o povo teve o cuidado de consultar seus deveres e direitos? E o povo se demite alegando o quê? Ou está seguindo a letra aquela velha máxima que diz: “os incomodados que se mudem”. (Uma vez que o governo está calmo. São apenas danos colaterais). É A CULPA MORRENDO SOLTEIRA. Elton B.

Saturday, March 31, 2007

Como sempre, o balanço é Positivo!

Na tomada de posse do novo reitor da UP o presidente da republica teceu, entre várias, as seguintes declarações.

Na ocasião, o Presidente da República apreciou o trabalho desenvolvido pelo reitor cessante, Carlos Machili, indicando que, sob a sua direcção, a UP registou um aumento do número e da qualidade dos docentes formados naquele estabelecimento do ensino superior, ao mesmo tempo que se registou um incremento substancial do número de estudantes”.

“A expansão da UP pelas províncias merece igualmente o nosso registo e elogio”, disse Guebuza, que indicou que, hoje, aquele estabelecimento de ensino está mais próximo de mais cidadãos, participando de perto na implementação da agenda nacional de luta contra a pobreza
”.

Fonte: Maputo, Sábado, 31 de Março de 2007:: Notícias

Como sempre, o balanço é Positivo!

É sintomático como no nosso país se fazem análises superficiais de problemas cruciais. Considero análises superficiais aquelas baseadas num fraco conhecimento, senão mesmo desconhecimento total sobre o que se está a emitir determinado juizo. Imagino que o presidente tenha, digo com algumas dúvidas, assessores para as diferentes áreas de governação. Suponho que deva ter um para a educação, de maneira geral, e talvez até um especifico para o ensino superior. Terão sido estes a indicar o aumento do número de docentes e da “qualidade” dos docentes (qualidade de quê?) como critérios para que se faça um balaço positivo? A UP, hoje, é uma contradição. Contradição em relação ao próposito pelo qual se estabeleceu aquela instituição. Sobre este assunto vide duas entradas minhas neste blog com os títulos: "Desupeização da UP" e "A descaracterização da UP". Lá demonstro como a UP ao se mercantilizar, na natureza dos cursos que oferece, perdeu de vista a sua própria vocação de formar professores claramente exposta no seu plano estratégico. Não preciso de falar das condições de escolarização, básicas, que se degradaram na UP, do invulgar número de estudantes por turma, das condições precárias em que se assistem as aulas. Enfim, da UP real. Fico com a impressão de que o presidente da república mal conhece a UP. E esse mau cohecimento é derivado de que o faz chegar a informação de que tudo vai ou ia bem na UP. Em team que está ganhando não se mexe, dizem os brasileiros. Porque mudar, então, se a UP vinha cumprindo e bem o seu papel?
Não quero por em causa a avalição que faz dos vários anos da gestão de Machili na UP. Mas seria importante sabermos se o aumento do número de docentes é um critério plausível e premissa fidedigna para se tirar a conclusão de que o balanço foi positivo. Quando se fala da qualidade de docentes formados naquele estabelicimento de ensino refere-se aos corpo docente da UP ou aos estudantes graduados? Porque é que a expansão para as províncias, em si, representa algo positivo e merecedor de elogio?

O Outro Poder Local

Opinião do sociólogo, Português, Boaventura de Sousa Santos.

O artigo reflecte o caso e a experiência Portuguesa, mas pode ser de utilidade para tantos outros. O nosso país enveredou faz pouco tempo pelo caminho da autarcização. As implicações disso em termos do alargamento da base participative dos cidadãos na nossa também recente democracia representativa é algo por estudar. Um exemplo do ultraje do direito dos municipes decidirem sobre assuntos cruciais das suas vidas é a recente decisão do município cobrar taxas de lixo em função do valor de de consume de energia. Pressupõe-se uma estratificação(hieraquização) dos munícipes em na base do consume de energia eletrica. Um campo sem dúvida para os sociólogos darem o seu contributo. Esteve algum por detrás dessa decisão?Mera curiosidade!
[Meu comentário].
O Outro Lado do poder local

Assiste-se hoje a uma certa demonização do poder local, o que contradiz a ideia da nobre tradição de autonomia municipal na governação do país. Há várias razões para este fenómeno, mas é evidente que para ele têm contribuído as suspeitas e acusações de negócios escuros, corrupção, abuso de poder e trocas de influência em algumas autarquias.Este é o lado escuro do poder local. Mas há o lado claro, e é desse que pretendo dar testemunho. Acabo de participar em São Brás de Alportel no Primeiro Encontro Nacional sobre Orçamento Participativo, organizado pela autarquia e pela Associação In Loco. Para além de um público jovem envolvido no desenvolvimento local, participaram no Encontro representantes das autarquias que hoje praticam alguma forma de orçamento participativo (OP): onze municípios (Aljezur, Alcochete, Aljustrel, Alvito, Avis, Faro, Palmela, Santiago do Cacém, Sesimbra, São Brás de Alportel e Tomar); e três freguesias: Carnide (Lisboa), Agualva (Sintra) e Castelo (Sesimbra). O OP é uma forma de gestão partilhada dos municípios em que para além dos órgãos autárquicos eleitos, participam os munícipes, individualmente e através de associações da sociedade civil. As decisões sobre os investimentos autárquicos anuais e sobre os planos directores municipais (PDMs), decorrem de processos estruturados de consulta e negociação alargada entre os autarcas e os munícipes, entre munícipes de diferentes regiões do município, ou com interesses sociais e culturais diferentes. A participação dos cidadãos pode ser consultiva ou, nas formas mais avançadas de OP, deliberativa. O OP existe hoje em cerca de 1200 municípios da América Latina e em mais de 100 municípios da Europa. Ainda que originário de governos municipais de esquerda ou de centro-esquerda, o OP está hoje a disseminar-se em outros quadrantes políticos, sendo várias as experiências de OP em autarquias de centro-direita, por exemplo, na Alemanha. O OP consubstancia uma relação virtuosa entre a democracia representativa e a democracia participativa e visa tornar o governo autárquico mais transparente, socialmente mais justo e politicamente mais próximo dos cidadãos. Contra ele investem todos aqueles para quem a democracia participativa é anátema e os lobbies da construção civil que têm hoje um poder insondável sobre as decisões municipais, inclusive ao nível dos PDMs (uma situação que parece ser clamorosa em Coimbra).As experiências de OP no nosso país são ainda muito tímidas. Pelo seu âmbito e pela sua visão, destaca-se a do município de Palmela. São uma gota no oceano e, por agora, reflectem a geografia dualista do nosso país. Mas vejo-os como sementes de esperança para o aprofundamento da nossa democracia. Dão sinais aos cidadãos de que, pelo menos a nível local, é possível vencer a dupla patologia que assola hoje os regimes democráticos: a patologia da representação ("não me sinto representado pelo meu representante") e a patologia da participação ("não participo porque o meu voto não conta").

Thursday, March 29, 2007

Creio por que absurdo!

No compensation for the 101 killed in Moz disaster

[1] “There is no way that dead people can be compensated”.

[2] “This was an accident at a state weaponry depot, there is no monetary compensation”.


Tenho em mãos a edicção de ontem, 28 de Março de 2007, do jornal diário da cidade do Cabo na Africa do Sul, Cape Argus. De lá retirei estas duas frases declarativas da primeira ministra de moçambique, Luisa Diogo, que inspiram o título do jornal que traduzido significa: Não a compensação para os 101 mortos no disastre em Moçambique. Se eu não fosse moçambicano e tivesse acompanhado a estória das explosões do paiol apenas pela versão oficial, em nenhuma circustância acreditária em alguem que me viesse dizer que a primeira ministra veio publicamente emitir tão absurdas declarações. É, justamente, por sê-lo (Moçambicano), e com a experiência de viver procurando conhecer melhor o meu país, que creio (acredito) que assim se tenha pronuciado. Creio porque absurdo.

O absurdo tomou conta do nosso quotidiano e manifesta-se de diferentes formas cuja discursiva é mais facil de apreender. Dizem-se, na nossa esfera publica, muitos absurdos.
Acontecem no nosso país tantos absurdos, que até se tornam banais, ou banalizados. A banalização pode ser uma forma reconfortante, uma almofadinha, para domesticar o absurdo e manter-mos o nosso equilibrio psicológico que certamente certos ditos e feitos absurdos abalam. Daí que pronunciamentos como os da primeira ministra não nos causem espanto algum ou até reações publicas de repúdio. Por isso, podes-se dizer, no nosso contexto, que os pronunciamentos publicos não tem nenhum custo político. São pronuciamentos que caem num saco roto e sem fundo. Não admira, portanto, que os políticos não meçam as consequencias dos seus pronuciamentos e dos seus actos. E nisso não existe diferença entre pronuciamentos do presidente da assembleia da república referindo-se as exploões quando diz que: - “essas coisas contecem”; da desculpa do ex-ministro do interior para as fugas de Anibalzinho da prisão, A. Manhenje, quando dizia que: - em todo mundo os presos se scapulem ou ainda das frequêntes derrapagens do lider da Renamo cujos ditos absusrdos nem preciso recordar de tantos que são! Tudo isso faz-me crer que vivo no país do absurdo.

Porque é que estas duas frases da ministra são absurdas. Na acepção mais simples do termo, absurdo é algo que não faz sentido é contrário ou é repugnado pela razão. Na primeira frase, traduzida, a ministra diz que: - de jeito algum pessoas mortas podem ser compensadas. É claro! Um morto não pode ser compensado. Não precisa ser primeira ministra para saber isso. Repetir isso em jeito de esclarecimento é um absurdo. No entanto, e isso é que importa realçar, a morte de um individuo pode e devia ser compensada. Devia ser compensada condiderando as circunstâncias em que aquela ocorre. Quando a morte de um individuo é da responsabilidade de uma entidade como o estado pode e deve ser compensada. Saberá a ministra que há pessoas, os ditos altruistas, que aceitam a tarefas cuja realização passa pela sua morte? Essas pessoas exigem que suas famílias sejam compensadas por isso. Desde terroristas até aqueles que nas diversas funções que exercem são sujeitos ao risco de perder a sua prórpia vida. Conheço, pessoalmente, talvez por ter nascido em Gaza, muitas histórias de madjonidjones cujas famílias receberam um bom pé de meia pela morte de seus familiares nas minas. Poderia mencionar aqui, infinitamente, exemplos desta natureza. As familias dos soldados americanos perecidos nas guerras absurdas promovidas por aquele país são e bem compensadas pela morte de seus ente queridos. Mas para não gastar mais o meu latim com este absurdo vou me referir no segundo comentário a função do seguro de vida.

A segunda frase do pronuciamento da primeira ministra, traduzida, quer dizer: - este foi um acidente do depósito/armazém de armamento do estado, não haverá compensação. Se a primeira ministra já sabe que foi um acidente para quê e porque razão nomeaou uma comissão de inquerito? Para saber aquilo que já sabe ou apenas para o Inglês ver? Se é para saber o que já sabe, então é mais um absurdo. O acidente do paiol, como a ministra o designa, é um incidente que se tem repetido de forma anunciada. Um acidente não é anunciado. Acontece! Um acidente é um acontecimento imprevisto e fortuito do qual resulta um dano causado ao objeto ou à pessoa segurada. O incidente do paiol foi mesmo um acidente? Que elementos de prova nos permitem falar em acidente? Coloco melhor a questão. É acidente para quem? Para o governo? Para o ministério da defesa? Para os militares que ficavam - (ficavam?) de guarnição? Uma coisa é certa. Para as mais de 100 pessoas mortalmente apanhadas desprevinidas foi um acidente?

Domesticar a incerteza (os riscos).

Não é possivel viver sem correr riscos. Apenas os mortos não correm riscos. De forma geral risco designa a incerteza. Temos varias incertezas ao longo da nossa vida. Incerteza se vamos ficar doentes amanhã, se vamos ser assaltados uma vez que graça tanta criminalidade no país, incerteza de que a namorada não me vai trocar por outro. Enfim, existem riscos nas mais variadas esferas da vida. Ainda simplificando grosseriamente diria que existem teoricamente dois tipos de risco, um puro e outro especulativo. O puro refere-se a uma situação que envolve qa chance de perda ou não, e o especulativo a chance de ganho. Todo o substracto conceptual do calculo do risco para os seguros, por exemplo, assenta na idéia de que as incertezas, isto é, as dúvidas consquentes para a inabilidade de predizer (colonizar) o futuro afectam as decisões dos indivíduos. As tecnicas de mediação dos rsicos convergem para a tentativa de transformar as incertezas em segurança. As empresas de seguros compram o risco, a incerteza, a imprevisibildade das pessoas vendo-lhes segurança. Segurança de que em caso de acidente teram determinados pacotes de compensação.

Os cidadãos estabelecem com o estado uma relação algo parecida. Os cidadãos vendem o seu risco ao estado e este aceita comprá-lo. E essa se torna na principal razão da existência do estado, como tentou argumentar o meu colega Elton Beirão. Um estado que não garante a integridade física dos seus cidadãos – se é que o nosso nos têm como tais – não é estado. Em circunstâncias como a do incidente sinistro do paiol nem os mecanismos de segurança privada, alternativa ao estatal, devem ser considerados. O estado tem toda a responsabilidade sim de compensar as familias das pessoas malogradas, feridas, devido a sua ineficiência em prover segurança as cidadãos. E se de acidente se trata, isso não muda absolutamente nada o cenário. É por isso é que existem os serviços de seguro. Com esta visão sinistra e de irresponsabilização que a chefe do governo demonstra, entende-se porque o segurança social no país anda uma lástima.

Rogério Utui sucede a Carlos Machili na UP!

Fechou-se o círculo da nomeação de novos reitores para as universidades públicas do país com a indicação de Rogério Utui, único físico nuclear no país(?) para reitor da UP.

Sobre a degeneração da UP escrevi alguns artigos neste blog. Conheço Utui como um académico por vezes emprestado a política. Espero que consiga salvar o barco (Titanic UPiano) afundado que é a UP.
Uma sugestão para UTUI:

A primeira coisa que sugiro que Utui faça é voltar a fazer da UP aquilo para qual a instituição foi criada, formar professores. Deveria, portanto, acabar com a brincadeira desses cursinhos mal concebidos do pós-laboral que nada tem a ver com a vocação da UP. Ao fazê-lo porém que procure salvaguardar os interesses dos estudantes que já estavam a ser (de)formados por lá. Na UP existem pessoas competentes capazes de conseguir alterar o rumo que Machili deu a instituição. É questão de dar-lhes espaço, agora. Apropiando-me de uma ideia de Martin Luther King diria que o que me preocupa não são os mediocres que fala(va)m, mas competentes que se cala(va)m. É altura de deixar essas pessoas da UP falarem. É preciso acabar com a imagem do elogio da mediocridade e de défict epistemologico em que se mergulhou a instituição. Enfim, é preciso academizar e não mais mercantilizar a UP.
P.L

Maputo (Canal de Moçambique)
– O presidente da República, Armando Guebuza, fechou o ciclo de substituição de reitores nas universidades públicas. Nomeou um novo Reitor para a Universidade Pedagógica (UP). Tirou Carlos Machili e colocou Rogério Utui. Rogério Utui é quadro sénior da UEM. É o único moçambicano no país com grau de doutoramento em Física Nuclear. Mas não se pense que Carlos Machili foi “apeado”. As informações de que dispomos indicam que o ex-reitor da UP faz agora parte do grupo de assessores do presidente da República. No passado, Utui foi director científico da Universidade Eduardo Mondlane. Com o despoletar daquilo que ficou conhecido como o «Caso UFICS», entrou em colisão com Brazão Mazula, este, então Reitor, exonero-o. Na altura Rogério Utui justificou a exoneração com as seguintes palavras: “Mazula afastou-me porque sabe que eu sei pensar”. Nas várias correntes que corporizam a academia moçambicana há um ponto de convergência em relação às razões que terão levado Armando Guebuza, sob “sugestão de Aires Aly”, a optar por Rogério Utui. Acredita-se que Armando Guebuza quis “fumar o cachimbo da paz” com os académicos afectos à Universidade Eduardo Mondlane depois de os ter brindado com um Reitor cujo nome não constava nas propostos do Conselho Universitário. Ficaram de nariz torcido e esta nova de Utui para a UP é vista como uma forma de Guebuza tentar devolver créditos aos professores. O reitor que o PR nomeou recentemente para a Universidade Eduardo Mondlane (UEM), padre Filipe Couto era um “outsider” que meses antes havia sido exonerado de cargo similar na Universidade Católica de Moçambique, uma das privadas. As expectativas do Conselho Universitário da Universidade Eduardo Mondlane eram de que a lotaria da roleta presidencial «sorteasse» um entre três nomes: Orlando Quilambo, Benigna Zimba e Armindo Ngunga. Saiu tudo furado. A nomeação de Rogério Utui, é por tudo isso vista por correntes académicas, como uma tentativa de Guebuza se reconciliar com os Professores e abrir espaço para um “reitorado pacífico” do padre Filipe Couto na maior e mais antiga universidade moçambicana. Ao dispensar académicos de carreira para nomear uma figura de fora da UEM o professorado não gostou. Esta nomeação de Utui pode ser que resulte, muito embora também já se comente que Armando Guebuza acabou de nomear mais um seu familiar para um cargo público, o que reforça a ideia que que o PR desconfia dos outros, por um lado, e está na rota do nepotismo governativo. Utui, formado inicialmente na escola russa mas entretanto com passagens por várias universidades de renome, segundo informações ainda não confirmadas pelo «Canal», terá sido assediado para trabalhar na vizinha África do Sul em programas ligados a centrais nucleares que se encontram ali em projecto para colmatar os graves problemas energéticos que já afectam o país de Mandela. Pressões familiares e também políticas terão demovido o mais sério candidato a reitor da Universidade Pedagógica e agora confirmado no posto a aderir ao “sonho dourado” no outro lado da fronteira. Com o caso consumado. O reinado de Carlos Machili a frente dos destinos da UP está prestes a chegar ao fim. Vem a propósito lembrar que Carlos Machili não conseguiu a reeleição para membro do Comité Central da Frelimo, durante a realização do 9º Congresso daquela formação política realizada em Quelimane, em Novembro. Para além de Brazão Mazula da UEM, Armando Guebuza exonerou já também outros reitores. O reverendo Jamisse Taimo, era Reitor do Instituto Superior de Relações Internacionais. Foi substituído por Patrício José, então vice reitor da mesma instituição.
(Celso Manguana e Luís Nhachote)
Fonte:http://www.canalmoz.com/default.jsp?file=ver_artigo&nivel