Wednesday, June 24, 2009

Mondlane jamais seria ditador.


Eduardo Mondlane jamais seria ditador - segundo José Duarte de Jesus, historiador português

O PRIMEIRO Presidente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), Eduardo Mondlane, jamais teria sido ditador, pois era um académico e diplomata, com uma visão estratégica global, que queria uma independência responsável e, se possível, negociada para o seu país e não estabelecer um regime revolucionário de obediência ideológica, considera José Manuel Duarte de Jesus, doutorado em História das Relações Internacionais e Embaixador jubilado de Portugal.

Maputo, Quarta-Feira, 24 de Junho de 2009:: Notícias

Duarte de Jesus falava durante o Simpósio Internacional de dois dias, realizado em Maputo, que tinha por objectivo resgatar a história que caracterizou o percurso da construção da identidade e personalidade de Mondlane.

“É muito difícil prefigurar em Mondlane um dos futuros ditadores africanos, finalmente desajustados à realidade sociológica”, disse Duarte de Jesus à sua audiência, apresentando uma comunicação preparada para a ocasião, intitulada “Condicionantes e Pressupostos Académicos e Culturais no Projecto Político de Eduardo Mondlane”.

Segundo Duarte de Jesus, Mondlane situava-se dentro da família do socialismo democrático, que existia em certas regiões da Europa, na década de 60, mas com uma forte componente africana, anti-totalitária e anti-burocratica.

Na ocasião, Duarte de Jesus teve o cuidado de explicar aos presentes que não era sua intenção fazer uma análise psicológica de Mondlane, mas sim tentar juntar alguns elementos de análise da personalidade política de Mondlane, num contexto global e local, e num quadro “macro”, sem excluir os aspectos “micro”, associados com a sua formação e seu modo de pensar, que são importantes para contextualizar as linhas estratégicas do seu pensamento.

Para o efeito, o orador adverte ser imperativo ter prudência para evitar qualquer tendência para catalogar politicamente uma personalidade histórica como Mondlane, algo que também poderá ser inútil.

Com isso aquele académico pretendia evitar um debate sobre o tema se Mondlane teria sido ou não marxista, que segundo as suas palavras ainda é uma questão que parece preocupar alguns sectores da opinião moçambicana.

Para Duarte de José, esta questão assume apenas uma relevância na concepção teórica do seu pensamento político, pois “Mondlane apresenta-se-nos como a concretização histórica e simbólica da utopia moçambicana de ter uma pátria”.

Aliás, numa entrevista concedida a 7 de Dezembro de 1965 ao “War and Peace Report”, uma revista editada nos Estados Unidos da América (EUA), Mondlane afirma que a Frelimo deseja um governo democrático baseado num “governo de maioria”. Na mesma entrevista, quando questionado sobre a ideologia da Frelimo (se era comunista), Mondlane responde que “a nossa ideologia é a independência”.

Associando este e outros pressupostos, o académico e diplomata Duarte de Jesus conclui que não parece que Mondlane tivesse tendências marxistas.

Ademais, “não se encontram, na sua formação anglo-saxónica, elementos de natureza hegeliana que pudessem conduzir o seu pensamento para uma tendência de explicação do mundo de cariz marxista. Daqui que o seu pensamento político tenha sido profundamente pragmático”, vincou Duarte de Jesus.

A noção de “revolução” de Mondlane parece estar mais próxima da noção do filósofo austríaco Karl Popper de “peaceful social engeneering” (engenharia social pacífica, tradução literal em português), do que de um processo leninista de ruptura, como seria natural esperar de alguém que é antropólogo antes de ser sociólogo ou político, defende aquele académico.

Duarte de Jesus disse ainda que Mondlane também teria manifestado não estar interessado num modelo cubano para Moçambique.

“Mondlane disse claramente que não aceitava o modelo cubano para o futuro de Moçambique”, disse o académico.


Concluindo, Duarte de Jesus disse que Mondlane foi assassinado num dos períodos mais difíceis da sua vida política em termos de estratégias que deveria conceptualizar e pôr em prática no interior de uma Frelimo dilacerada por correntes e personalidades muito diversas, tendo sempre como objectivo manter a unidade do movimento.


Também era difícil face à interface que queria estabilizar entre as questões internas e a geostratégia da Guerra Fria, no quadro global.

Por isso, na óptica de Duarte de Jesus, Mondlane procurou salvar a independência de Moçambique não só do colonialismo português, mas das ameaças de quaisquer outros colonialismos, que se prefiguravam no horizonte africano das pós-independências ou das guerras pelas independências.

Neste quadro, Mondlane e a sua estratégia eram profundamente incómodos tanto no quadro micro que o rodeava, como no contexto macro em que a sua guerra se inseria.

Em suma, “Eduardo Mondlane era um alvo que interessava a muitos abater”, conclui Duarte de Jesus, que diz acreditar que “o seu desaparecimento mudou negativamente o evoluir da situação em Moçambique, a África perdeu um líder e uma referência invulgar, e Portugal perdeu, numa perspectiva de futuro a médio e longo prazo”.

Tuesday, June 23, 2009

Reformar a reforma.

Tal como a economia mundial, o meu blog está em recessão. A crise poderá arrastar-se até o princício de 2010. A principal causa da crise é a inflação de assuntos interessantes para abordar ao mesmo tempo que se resgista deflação de tempo para o fazer atendendo a outras obrigações académicas. Quando assim acontece sacrificam-se os passatempos-individuais, ainda que sérios. Esta crise custou-nos a declaração de falência do ideias críticas que tanta diferença fazia no nosso espaço público. O four by fourismo” reina sem paralelo. Nem os pacototes de estímulo vindos dos comentários de leitores assíduos impediu o enceramento. Oxalá um dia o ideas críticas reabra as portas. Esta postagem não é apenas para justificar a minha continuada e prolongada ausência, mas para reagir a tamanho assalto a nossa inteligência. O assalto vem de uma breve notícia – notícia? – do Notícias. O texto pretende ser uma notícia ainda que se limite a fazer propaganda mal lavrada das mudanças curriculares forçadas na UEM. Retirei-a do Notícias de hoje. É a razão desta reaparição exporádica. Em outra ocasião, escrevi extensamente sobre o que penso da corrnte reforma curricular na UEM. Duvído que alguém se oponha aos príncipios da reforma (o tal ensino centrado no estudante), mas não restam dúvidas que se trata de um processo politcamente motivado, forçado (top-down) pela administração da UEM, fundamentalmnte na pessoa do seu Reitor, e tecnicamente mal preparado. Enfim, penso que deviamos pensar em reformar a reforma.


Reformas na UEM interessam Pretória

AS reformas curriculares [MSOffice1] em curso na Universidade Eduardo Mondlane (UEM) interessam a Universidade de Pretória, da África do Sul, razão pela qual um grupo de 20 elementos, entre membros de direcção, docentes e estudantes, se encontra de visita ao nosso país. Recentemente, a UEM foi reconhecida pelas suas congéneres da União Africana (UA), por estar a implementar reformas académicas inovadoras para fazer frente aos novos desafios que se colocam, com vista à melhoria da qualidade de ensino[MSOffice2] .

Tidas como um exemplo a seguir por parte de muitas instituições do Ensino Superior que ainda não embarcaram neste processo[MSOffice3] , as reformas da UEM agora estão a interessar a Universidade de Pretória, que fez deslocar a Maputo uma delegação encabeçada pelo respectivo vice-reitor, Chris de Beers. As reformas em curso têm como grande mérito o facto de o ensino estar centrado nos estudantes[MSOffice4] , o que implica a redução do tempo de curso[MSOffice5] .

Para a Universidade de Pretória, com estas inovações a UEM está a conseguir enquadrar-se e a corresponder ao processo de Integração Regional[MSOffice6] , razão do interesse sul-africano por este modelo. Entre as duas instituições de Ensino Superior existe um acordo de cooperação na área da Agricultura e Ciências Biológicas, bem como para a mobilidade de estudantes e docentes e troca de experiência académica.

Na ocasião, Filipe Couto, Reitor da UEM, disse que a sua instituição continua empenhada em assegurar que todas as faculdades, escolas e centros de aprendizagem enveredem por este novo modelo[MSOffice7] , que centra o ensino nos estudantes. Para o vice-reitor da Universidade de Pretória, Chris de Beers, o que a sua instituição precisa é de mais subsídios sobre o processo, de modo a estar melhorar preparada para enfrentar os desafios que se impõem.

Em Maputo, os estudantes moçambicanos e sul-africanos irão trocar experiências nas mais diversas áreas do conhecimento, sobretudo naquilo que é a actual situação e condição desta camada estudantil.

A língua inglesa estará ainda no centro das atenções, onde os moçambicanos procurarão saber muito mais[MSOffice8] . O processo de integração regional exige que a língua inglesa seja leccionada com grande enfoque nas instituições de Ensino Superior.

Por seu turno, os estudantes sul-aficanos irão se inteirar das condições oferecidas pela maior biblioteca que a região possui[MSOffice9] , a “Brazão Mazula”, no Campus Universitário. O que se pretende é que tenham possibilidades de fazer o seu uso.

A UEM, que conta com cerca de 20 mil estudantes, tem 12 faculdades, quatro escolas e centros de aprendizagem. Com as restantes universidades da região tem outros acordos de cooperação para a troca de experiências.[MSOffice10]


[MSOffice1]Quantas Reformas estão em curso na UEM?

[MSOffice2] Quando é que uma reforma não é inovadora? Ou melhor, ainda é reforma se não for inovadora? A inovação é sempre em relação a algo que exista. Em que medida é que os curriculas que existem na UEM comprometiam a qualidade? Que qualidade? Isso nunca foi estudado. A UEM está a inovar, alegadamente, copiando o que a região está a fazer em termos de curricula. Para que está “notícia” fizesse sentido seria, no mínimo, preciso estabelecer para quem e em que consiste a tal inovação. Que novos desafios se colocam? Novos para quem e porque?

[MSOffice3]Muitas”(1, 2, 3, 100, 3000, quantas?) instituições? Que instituições são essas? Nacionais? Estrangeiras?

[MSOffice4]Como princípio filosófico-pedagógico sim, mas como prática não temos experiência para tirar esta conclusão. Pior, não houve estudos que avaliassem as possibilidades de sucesso de tal modelo nas nossas condições de escolaridade.

[MSOffice5]Porque que é que centrar o ensino no estudante” implica” (só faltava por necessáriamente), a redução do tempo dos cursos? O que é que uma coisa têm a ver com a outra? Não creio que isto venha da UEM, é um exemplo da “pobreza-absoluta” do nosso jornalismo.

[MSOffice6]Quem disse isto? Com que autoridade? O que é que essa pessoa sabe das condições moçambicanas de escolaridade a todos os níveis? Nenhuma matriz curricular aqui na RSA se assemelha a recêm introduzida na UEM, muito menos as condições em que isso está a ser feito.

[MSOffice7]Empenhada a impor, queria-se dizer!

[MSOffice8]O que é que se está a dizer aqui? O que vai ser feito em concreto? Os estudantes sul-africanos vão ficar em Maputo a ensinar inglês aos Moçambicanos?

[MSOffice9]Metira das grossas. Propaganda enganosa. A UEM não têm, nem de longe, a maior biblióteca da região (suponho que se esteja a falar da SADC). A menor biblióteca da menor Universidade Sul-Africana suplanta em acervo e espaço de arquivo bibliógrafico a recém construída biblióteca Central da UEM. Com todo o respeito e carinho pelos seus trabalhadores e gestores. O actual director da biblióteca BZ é um técnico altamente competente que jamais faria uma afirmação desenquadrada como esta.

[MSOffice10]Esta parece mais um propaganda jornalistica barata do que uma Notícia. O jornalista podia ter se limitado a dizer que a UEM recebeu um visita de Pretória, sem andar a inventar futilidades.