Tuesday, February 9, 2010

Made in Inhambane: Orgulhosamente Moçambicano!






Fonte: Recebi as fotos por email.

Desconheço o autor.

Friday, December 18, 2009

“O Julgamento de Samora” de Severino Ngoenha

PRINCÍPIOS do séc. XVII, Veneza, no porto da cidade. Os senhores do Conselho Municipal da cidade estão todos presentes. Seguindo em frente, o amigo de Galileo Galilei, Sagredo e, atrás deste, Virgínia Galilei, a filha de 15 anos, carregando uma caixa de veludo, em cima da qual está a “invenção”, um telescópio de ca. 60 cm, embrulhado num estojo de pele. Galeleo no pódio, preparado para o grande momento. Atrás dele está um pequeno estrado onde o telescópio será, segundos depois, exposto. Vigilante, mais atrás ainda, está o sempre atento Federzoni, o Linsenschleifer (do alemão: “afiador de lentes”). Esta é a descrição do cenário que o dramaturgo marxista alemão e escritor de teatro épico Bertold Brecht faz, na sua obra teatral Galileo Galilei, sobre a cerimónia da entrega de mais uma invenzione deste cientista italiano à Repubblica Veneta.

Maputo, Quarta-Feira, 16 de Dezembro de 2009:: Notícias

Na sua intervenção, Galilei começa por dizer que ele, como docente da Universidade de Pádua, não via a sua tarefa como sendo somente a de ensinar, mas também pôr à disposição da sua Repubblica invenções “úteis” que tragam prosperidade para todos e que contribuam para o progresso da ciência. O fabrico do telescópio levara-lhe 17 anos (1592-1610) de “profunda pesquisa”, sublinha ele. Depois do discurso de entrega, o próprio Galelei murmurou para Sagredo, o amigo ao lado: “foi uma perca de tempo”.

A “perca de tempo” justificava-se pelas cenas que se seguem na obra de Brecht. O curador da cidade, que falou em seguida, enalteceu aquela invenzione porque permitiria ao exército veneziano “ver e contar os barcos de guerra dos inimigos que se aproximassem à nossa costa duas horas antes de chegarem e, assim, decidirmos se vamos enfrentar o inimigo ou fugir”. Um dos senadores, olhando para a cidade pelo telescópio disse: “Daqui posso ver o forte de Santa Rosita: estão a almoçar peixe grelhado. Que apetite...!”. Um segundo senador, olhando pelo mesmo telescópio, afirmou algo contrariado: “terei que tirar a banheira da varanda do quarto da minha mulher...”. Pela invenção do telescópio Galileo Galilei acabou recebendo apenas 10 Skudi. O próprio Galilei retirou-se murmurando: “pergunto-me seriamente se, com esta coisa, não irei provar uma certa teoria...”. A “certa” teoria refere-se à heliocêntrica pela qual viria a ser condenado à morte pela Igreja Católica, num julgamento macabro.

São assim também os filósofos: falam para o futuro, usando o passado-presente. Para nós moçambicanos, há um espectro que paira na nossa História. É o espectro passado-presente de Machel. Como “julgar” este espectro? Por aquilo que Machel, como homem, foi? Ou por aquilo que ele representa, como símbolo, na História de Moçambique? Ngoenha acaba de lançar um livro intitulado Machel: Ícone da 1ª República? (Ndjira 2009) Este livro pretende ser um “Julgamento de Samora” (aliás este era o título inicial do livro que, por razões para mim pouco defensáveis, foi mudado). Alguns poderão usar o livro para olhar somente o passado na História de Moçambique. São os “nostálgicos e saudosistas que com a morte do Marechal presidente perderam os lugares de honra e de poder que ocupavam” (p.11). Para Ngoenha, os que assim o fazem, não têm de facto saudades do Marechal-Presidente e do que ele representa na História de Moçambique. Chorariam sim pelos privilégios que perderam. A prova disso é só olharem para como esses saudosistas e nostálgicos vivem hoje, diz-nos Ngoenha. Para esses, Machel deve ser enterrado como homem e como símbolo.

Outros, porém, julgarão (ou julgam) o Marechal da 1ª República pelo seu símbolo, por aquilo que ele representa. Estes homens e mulheres identificam-se pelo modelo de sociedade que Machel defendeu: justiça, solidariedade, trabalho, unidade, igualdade, anti-racismo, anti-tribalismo... Ou seja, tal e qual como Galileo Galilei pretendia com o telescópio, ver as estrelas e fundamentar a teoria heliocêntrica, esse grupo de moçambicanos, através de Machel, poderão escrutinar o futuro do país. Assim, para esse grupo de pessoas, julgar Machel, é um “pretexto para criticar indirectamente o sistema, o regime político e os governantes actuais” (p.11).

Assim, a pergunta-chave do livro Machel é: “... quem é que morreu, quem enterrámos em 28 de Outubro, o homem Machel, o presidente ou o símbolo?” A resposta de Ngoenha é clara. Machel foi enterrado como um faraó, isto é, selado hermeticamente numa tumba bem profunda com tudo o que ele tinha: ideologia socialista, justiça, patriotismo, papel do Estado e do partido e até aos homens que lhe foram fiéis. Ao mesmo tempo, porém, em alguns momentos da nossa História, o desenterramos (e vamos continuar a fazê-lo, sempre que necessário). Melhor: está enterrado o espírito de Samora, mas não está morto. O espectro da liberdade, que ele representa, ainda paira no ar.

Com esta obra, Ngoenha quer desenterrar Machel para ser “julgado”. Para esse julgamento ele convoca uma juíza muito estranha: a Maát*. Sendo do antigo Egipto, esta justiceira fazia muito tempo que não era acordada do seu sono secular para um julgamento. Mas é a única(?) que poderia julgar aos homens da dimensão de Samora Machel; de facto ela não julga os homens e seus actos; a Maát julga sim ícones (deuses laicos) porque, eles sozinhos, pela sua grandeza, encarnam a verdade e o espírito de toda uma época. Dão seu nome a essa época. Por trás da escolha da Maát, Ngoenha quer interrogar o próprio espírito da justiça na História de Moçambique e hoje.

Não posso deixar de dizer que a filosofia tende a ser des-humana. Pois, por excesso de racionalidade, ela tende a fulminar, algumas vezes até a “desculpar”, os actos irracionais dos homens-heróis ou ícones. O filósofo Mark Rowlands escreve, referindo-se a esta tendência da filosofia, no seu mais recente livro O Filósofo e o Lobo (Lua de Papel, 2009), que “os filósofos deviam receber condolências e não parabéns”. A questão é a seguinte: ao “empurrar-nos” para, como povo, julgarmos o símbolo que Machel representa, será que Ngoenha nos aconselha a “esquecer” o homem-Samora e os seus actos? Ou a figura e o uso do símbolo é a forma mais simbólica que a filosofia tem de considerar somente os bons actos do homem Machel (e, naturalmente, pôr na balança da Maát) e para ela própria – a filosofia – não se “sujar” neste processo?

Numa primeira leitura o livro parecera-me sugerir algo feio para o nascimento de uma filosofia moçambicana da história: Perdoar as “pequenas injustiças” à luz dos grandes actos históricos. Pareceu-me que Severino sugere: “podemos tirar a liberdade, a justiça, esconder a verdade aos homens de hoje porque temos em mente a liberdade, a justiça, a verdade do amanhã”. Eu teria muitos problemas em aceitar se essa fosse a forma que Ngoenha nos sugere para que uma filosofia moçambicana da História, com este livro, seja fundada e fundamentada.

Depois duma segunda leitura, porém, vejo que não. Ngoenha usa a ironia como estilo de escrita, sobretudo nas passagens que se refere aos momentos complicados da História contemporânea de Moçambique. É nesses “momentos” onde a acção do Machel-homem sobressai em relação ao que Ngoenha propõe como sendo o Machel-símbolo. Escolhi duas passagens do livro de Ngoenha que mostram que o autor não nos quis fazer esquecer o Machel-homem. A dado passo lê-se: “Distraidamente, [Samora] deitou um pouco de vinho no chão. Quando viu que todos olhavam para ele esperando uma explicação, ele sorriu e disse: É para os nossos antepassados: É para Mondlane, Simango, Joana Simeão, para todos aqueles que morreram e até mesmo para os portugueses. Sabem, não era contra os portugueses que nós lutávamos, nem sequer contra as suas ideias sobre eles e sobre nós. Nós lutamos, isso sim, para destruir o velho mundo, é para isso que ao lado dos portugueses tiveram que sucumbir, com a queda desse mundo, homens como Simango, Joana Simeão e outros” (p.66). E mais adiante Ngoenha, usando a voz de Samora, diz: “Eu e Simango divergimos quanto aos objectivos da luta e quanto à orientação a dar ao país depois da independência. Mas temos uma coisa em comum: engajámo-nos à custa das nossas vidas para defender os nossos ideais” (p.70).

Parece-me não ter sido fácil para Ngoenha manter-se numa leitura filosófica da História recente de Moçambique e da Frelimo sugerindo, por um lado, uma leitura do símbolo Machel, mas, por outro lado e ao mesmo tempo, chamando-nos atenção aos actos singulares de injustiças perpetrados em nome desta mesma História. Nesta óptica, Machel: Ícone da 1ª República? é um livro fundacionista de uma filosofia moçambicana da história. Será uma filosofia informada por uma leitura de “a história me absolverá” (ou me condenará) do companheiro Fidel. Assim, é caso para se perguntar se a nossa história terá mais ícones a julgar e o que eles irão simbolizar?

No fim, é o próprio Machel que exige a todos nós uma coisa muito simples: “que cada um de vós meta na balança da Maát as representações que tem da minha vida e da minha obra”. Ele quer submeter-se a um julgamento sim, mas não de uma justiça capitalista. Samora quer que todos e cada um de nós o julguem. “Que o povo seja instaurado juiz da minha causa” é o último desejo de Machel.

“Aqueles que desejam conquistar o favor de algum príncipe costumam apresentar-se-lhe com os bens que mais prezam ou com aqueles que crê dar mais prazer. Por isso é frequente vê-los oferecer cavalos, armas, panos de ouro, pedras preciosas e ornamentos semelhantes, dignos da sua grandeza. Desejando, pois, oferecer-me à Vossa Magnificência com qualquer prova da minha sujeição, não encontrei, entre todas as minhas bagatelas, nada que estime e ame tanto como o conhecimento das acções das grandes personagens [...], conhecimento em que pensei e reflecti demoradamente e com grande cuidado, a fim de o resumir num pequeno volume que envio à Vossa Magnificência”. O “pequeno volume” refere-se ao livro O Príncipe. E é Maquiavel que escreve. O Príncipe foi o livro mais lido de Maquiavel. Ao mesmo tempo um dos mais polémicos da Filosofia Política. O próprio Napoleão Bonaparte fez vários comentários ao livro. Era a sua obra de cabeceira.

Penso que Machel de Ngoenha poderá ser o livro mais intrincado que Severino Ngoenha oferece à sociedade moçambicana, às Vossas Magnificências. No debate filosófico que se segue, sugiro o contrário ao que Marechal (i.e. Ngoenha) pede, nomeadamente que cada um de nós ponha na balança da Maát as nossas representações sobre o símbolo Machel; sugiro, em contrapartida, que cada um de nós ponha sim as suas próprias acções nessa mesma balança. E que, desta vez, o símbolo epocal seja, sem abandonar a Liberdade, o da Justiça Social. E que a juíza seja informada pela Ubuntu. Este é uma juíza que tem uma agulha numa mão pronta a coser, na outra mão, um tecido (social) em pedaços. Aliás, é este o ideal da justiça que o próprio Ngoenha propõe algures entre as páginas da sua obra predecessora, Os Tempos da Filosofia (Imprensa Universitária, 2004).

* MAÁT é uma deusa egípcia que traz na cabeça uma pluma de avestruz. Ela representa a justiça e a verdade, o equilíbrio, a harmonia do Universo tal como foi criado inicialmente. É também a deusa do senso de realidade. Filha de Rá e de um passarinho que apaixonando-se pela luminosidade e calor do Sol, subiu em sua direção até morrer queimado. No momento da incineração uma pena voou. Era Maát. É a pena usada por Anúbis para pesar o coração daqueles que ingressam no Dwat. Em sociedade, este respeito pelo equilíbrio implica na prática da equidade, verdade, justiça; no respeito às leis e aos indivíduos; e na consciência do facto que o tratamento que se inflige aos outros pode nos ser infligido. É Maát, muito simbolicamente, que se oferece aos deuses nos templos.

  • JOSÉ P. CASTIANO

Wednesday, October 28, 2009

A Estória dos 2M!



Alguns já devem estar a pensar na nossa, “A Nossa Maneira”! Não, não se trata da douradinha. Os 2Ms vem de [M]oçambique e [M]ichael Jackson. O que é que uma coisa tem a ver com a outra? Bom, para mim, duas entidades pelas quais nutro sentimentos irracionais. Mas este post não é sobre a irracionalidade dos meus sentimentos. É que se fossem racionais talvez não mais serviam para sentimento. O post é simplesmente para assinalar uma curiosidade. Uma coincidência, para aqueles que acreditam nela.

No dia 25 de Junho os Moçambicanos descansavam em fériado pela celebração da indepêndencia. Michael partia para o seu descanso eterno. A informação sobre os 2Ms competiam nos serviços noticiosos. Claro, com maior destaque para o “Rei do POP”. Hoje, dia 28 de Outubro Moçambique e Michael voltam a competir nos espaços noticiosos. Enquanto Moçambique vota, Michael volta. Moçambique faz filas para votar. “This Is It” que inaugurou na salas de cinema esta madruada já está fazer filas enormes (pelo menos aqui na Joni ). As 10 da manhã vou ir-racionalmente votar Moçambique (no consulado) e as 20 vou irracionalimente voltar a ver Michael. Esta é estória dos meus 2Ms.

Monday, October 19, 2009

É OU NÃO É?

Poverty Fighters in Academia:

Tinha por ai 10 anos, apenas, mas recordo-me dele como se o tivesse visto ontem. Tive o raro previlégio de o encontrar e falar por três ocasiões, em Xai-Xai, Chilembene e na Praia do Bilene! Passam 23 anos que partiu. Leia e recorde-se, aqui e aqui.

Poverty Fighters in Academia:

Friday, October 16, 2009

Immanuel Wallerstein: Crisis of the Capitalist System

Thursday, September 10, 2009

Jornalistas devem distanciar-se das paixões da classe política


O ACADÉMICO Lourenço do Rosário reconheceu que os jornalistas moçambicanos estão a aprender rapidamente que devem deixar de ser armadilhados pelos políticos, mantendo-se distantes das suas paixões. Dissertando no seminário recentemente organizado pelo Conselho Superior de Comunicação Social (CSCS), o também Reitor da APolitécnica instou aos profissionais do ramo a saberem focalizar a realidade dos factos em períodos eleitorais “como sendo uma realidade prenhe de paixões que não devem perturbar o seu olhar”. A pertinência do tema em momento pré-eleitoral motivou-nos a publicar na íntegra a referida comunicação que teve como tema “Cobertura Eleitoral em Período Eleitoral”.
Texto completo aqui

Wednesday, September 9, 2009

Sandra Manuel lança “Amor e Desejo”

Friday, July 17, 2009

IDEIAS - A viagem interior de Mia Couto (*)

Pedem-me palavras primeiras ao lançamento em solo pátrio do livro Jesusalém; pedem-me uma leitura, um olhar, um escorço a um escritor que há muito se remessou, com o seu engenho, para horizontes que não se confinam somente as fronteiras mundiais da língua da sua escrita, do seu discurso literário. Que palavras para um transfronteiriço, um disseminador de linguagens, de imagens, de identidades de um rincão dos trópicos perdidos, para a geografia do mundo, para o mapa dos saberes perenes, senão o enaltecimento desse magistério, desse exemplo que nunca se escorou nas efémeras facilidades tropicais, por valer-se sempre do seu talento, da sua arte.

Maputo, Quarta-Feira, 15 de Julho de 2009:: Notícias

Na moeda da nossa cultura há muito que Mia Couto deixou de se inscrever no reverso, nesse lado onde pontificam outras nobres figuras das nossas letras e artes, porque transladou, por mérito, por labor, ao anverso, e tornou-se na efígie da nossa moeda na transacção no grande bazar das culturas. A essa moeda já não se pergunta pela sua validade, mas pedem-se trocos, quer-se conhece-la nas suas múltiplas vertentes, nos seus variados espelhos. No dédalo das culturas, a obra do Mia, para nosso gáudio, não foi devorada pelo Minotauro sedento do efémero, do passadiço, porque o fio de Ariadne, o fio da perseverança, o fio da qualidade, o fio da salvação ao olvido, o guia pelos labirintos do mundo da literatura saudável, robusta, perene, e sem artifícios, como dizia Hemingway. Com Mia ganha a literatura moçambicana, ganham os escritores, e ganha este País ainda relutante em assumir que a grande bandeira na memória dos povos é a cultura drapejando pelo mundo nos seus variados tentáculos.

Ao ler Jesusalém, ocorreu-me, pela estratégia, o Engenhososo Fidalgo D. Quixote de la Mancha.

Cervantes, com a sua obra, erigiu, como todos sabemos, o fundamento do mundo romanesco moderno: a ambiguidade. Não há uma verdade, há muitas verdades. Verdades relativas que se vão entrelaçando, formando um nó que o leitor vai desenlaçando com o prazer ou desprazer, dependendo do engenho do autor. Em Cervantes, D. Quixote sai para o mundo, desfazendo injustiças e protegendo damas, personificadas no amor imaginário pela Dulcineia Del Toboso. Em Jesusalém os personagens saem do mundo e pervagam pelos labirintos da vida interior, esquecendo injustiças e riscando damas da memória. Em Cervantes o Fidalgo D. Quixote, acompanhado do seu escudeiro Sancho Pança, quer endireitar o mundo. Em Jesusalém, Silvestre Vitalício e o serviçal Zacaria Kalach, escudeiro nos modernos dizeres, querem sair da História, da selva dos tempos modernos. Nos dois a viagem. Num, do imaginário à realidade, noutro, da realidade crua, sangrenta, ao imaginário interior.

Algo nos perturba nas primeiras páginas de Jesusalém: o título e os Livros - divisores de capítulos, alusão aos livros biblícos. À partida somos perseguidos por essa imagem secular e tutelar de Jesus, o Cristo de uma moral, de uma teologia. Perguntamo-nos se a alusão aos Livros - Um, Dois e Três -, é o egresso, a saída dos livros canónicos em direcção ao mundo do Cristo descrucificado, ou um artificio da efabulação, um jogo de espelhos? A poeta Sophia de Mello Breyner Andresen não nos ajuda muito ao dizer que “Escuto mas não sei⁄ Se o que oiço é silêncio ⁄ Ou deus”. Mas as dúvidas dissipam-se quando o emblemático Silvestre Vitalício convoca os eremitas e anuncia que a terra da iniciação chamar-se-á Jesusalém, e os que nela irão conviver serão desbaptizados.

À excepção do mais novo, por sinal o narrador, os principais personagens da trama convertem-se a nova ordem. Orlando Macara, passa a Tio Aproximado; Olindo Ventura a Ntuzi-sombra; Ernestinho Sobra a Zacarias Kalach; Mateus Ventura A Silvestre Vitalício. O mais novo mantêm-se como mwanito, diminutivo de rapaz em chissena, língua do centro do país, por o pai achar que “…ainda está nascendo”. Formaliza-se, na ordem simbólica, o destino dos personagens, dando, por conseguinte, sinal de partida e coerência ao que Vitalício dissera ao Mwanito, o afinador de silêncios: “…vocês não podem sonhar nem lembrar. Porque eu próprio não sonho, nem lembro.” Quer-se inaugurar uma nova ordem, uma nova gramática, uma sintaxe fora do mundo caótico, desordenado, onde outrora viveram. Para tal é preciso instaurar um mundo, uma humanidade no dizer do autor. Jesusalém é o espaço demarcado, o nicho que se quer diferente. “Um dia, Deus nos virá pedir desculpa, diz Vitalício ao grafar, por cima da tabuleta indicativa de Jesusalém, a frase: “Seja bem-vindo, Senhor Deus.”

A abertura dos capítulos e subcapítulos dos Livros comportam, no meu entender, Salmos – permitam-me invocar o sagrado termo para o romance. Tirando as citações do sociólogo e também poeta francês Jean Baudrillard, e do escritor Herman Hesse, Mia elegeu para seus salmos quatro grandes poetas, sendo três do espaço lusófono- as brasileiras Adélia Prado e Hilda Hilst, e a portuguesa Sophia de Mello Breyener Andresen -, e uma de língua castelhana, a argentina Alejandra Pizarnick. Interessante notar na construção do romance, no jogo de afectos e desafectos, a escolha de mulheres poetas para os cantos, e da mulher mãe, amante, esposa, como desencadeadora da trama romanesca. Este jogo entre os vates dos salmos, e os personagens do romance - maioritariamente masculinos -, dá-nos a dimensão indescritível do mundo efabulatório de Mia Couto. Nos cantos, as musas, as deusas, o sagrado feminino expressando-se na mais elevada linguagem: a poesia. No romance, no texto, a negação do feminino, a desacralização da mulher, a diabolização da criadora da vida. Que é isto senão a anfibologia, o jogo de sentidos, a ambiguidade do texto, a razão da literatura?

Diz a poeta Alejandra Pizarnick: “Yo me levanté de mi cadáver, e fui em busca de quien soy. Peregrina de mí…” No romance, pelo contrário, não se busca a identidade, não se procura o eu, quer-se, isso sim, matar a memória, esquecer o mundo vivido, e invocar uma nova ordem que se fundamente no silêncio. Um silêncio com um Deus que Hilda Hilst alvitra como “O Deus de que vos falo ⁄ Não é um Deus de afagos ⁄ É mudo. ⁄ Está só…”. Mas é em Sophia de Mello que está o canto primeiro e último, a voz iniciática em “ Sou o único homem a bordo do meu barco. ⁄ Os outros são monstros que não falam, ⁄ Tigres e ursos que amarrei aos remos, ⁄ E o meu desprezo reina sobre o mar. ”, e o canto último em “ Nunca mais amarei quem não possa viver ⁄ Sempre, ⁄ Porque eu amei como se fossem eternos ⁄ A glória, a luz e o brilho do teu ser, ⁄ Amei-te em verdade e transparência ⁄ E nem sequer me resta a tua ausência, ⁄ És um rosto de nojo e negação ⁄ E eu fecho os olhos para não te ver. ⁄ Nunca mais servirei senhor que possa morrer.” Está dito.

O anátema a uma realidade cruel, predadora, que nos desumaniza com discursos envenenados, máquinas trituradoras de boas consciências com a efemeridade de sonhos adocicados, é sinal de busca de outros horizontes que a nossa consciência, liberta das cartilhas castralizadoras da história, nos vai ditar nessa longa viagem pelo interior de nós mesmos.

Mia está ciente de que não há rincão neste mundo onde a voz humana não possa chegar. Os tempos modernos anularam barreiras, aproximaram mundos, desfizeram mitos. Não há mais mão autocrática que possa travar, por tempo indeterminado, a barreira da comunicação, o fluxo do pensamento. Em Jesusalém a ponte entre mundos nunca foi totalmente anulada, porque o Aproximado aproximou sempre os mundos, ainda que na vertente material, palpável. O mais interessante neste jogo de luzes e sombras, é a quebra dos silêncios advir do corpo de mulher, duma figura feminina transposta de outros oceanos, como que a provar que o mundo é tão grande e ao mesmo tempo pequeno na confluência dos sentimentos. Se o feminino desencadeou a partida, a fuga, o distanciamento, o mesmo feminino veio aglutinar e encadear outras ligações, outros discursos, outros silêncios, outras anarquias. É a Marta, simbolizando o distante ⁄ próximo, que anuncia ao Vitalício que não é o único a sair do mundo: -“ Caro Ventura, uma coisa lhe posso dizer: não foi só o senhor a sair do mundo.” O mundo está a nossa janela.

Se evoquei Cervantes, fi-lo com a deliberada intenção de dizer que a viagem, a procura de significados, é presença constante desde os antanhos da literatura. Se Cervantes guiuo o seu fidalgo pelas terras da Mancha, Aragão e Catalunha, a busca de verdades, encontrou verdades relativas. Em Mia, a viagem é para a cura. E isso torna-se apodíctico quando o personagem Mwanito, diz: “ Deixo de ser cego apenas quando escrevo.” A escrita tornou-se orgânica, transformou-se em mais um dos sentidos do corpo. Sem ela a cegueira é incontornável. E para que isso não aconteça é preciso viajar, viajar sempre no barco da escrita. Mia busca sonoridades, sons que a pauta da vida não grafou. E é nessa viagem infinita, nessa incessante busca do som puro que a literatura, o romance inaugurado por Cervantes há quatro séculos, encontra a sua vida, o seu oxigénio. Com Mia, mais que com os inauguradores de correntes, os exegetas do fim do romance, encontramos o prazer da efabulação, o encanto de criar, de amar a palavra, de usufruir o texto.

ico grato por te ter como lábaro - não o estandarte das iniciais de Jesus Cristo na época de Constantino, a efígie literária nos labirintos do mundo da escrita. Este Jesusalém que se quer como o livro dos livros ensina-nos que nesta selva de desigualdades, de alienação global, de homogeneização de ambições mesquinhas e terrenas, o grande desafio está em abrir até aos limites a grande coutada da vida: a nossa consciência.


*Texto lido na apresentação do livro “Jesusalém”, de Mia Couto
  • Ungulani Baka Khosa