Monday, February 28, 2011

Relação entre música e conteúdo textual musical

Texto da responsabilidade de Rafael da Camara.
A propósito da música da cantora Tânia Tomé, intitulada “Nhi Ngugu Haladza”

Sempre achei fascinante a relação texto e música, ou música texto. O cantor é motivado, se me permitem o termo, a aprender diferentes idiomas, no intuito de obter uma melhor, e talvez, mais perfeita articulação e emissão dos vocábulos inseridos na música. Ademais procura com base neste esforço transmitir a sua mensagem e sentimento através da música e com isso captar a sensibilidade dos ouvintes, quiçá falantes e não falantes deste idioma. Para além disso, se põe a questão de se perceber o que se está a dizer, uma vez que, se há um texto escolhido pelo compositor, o seu sentido deverá ser descodificado pelo intérprete e, em condições ideais, pelo ouvinte também. Contudo, colocam-se também outras questões: o que será mais relevante o texto ou a música? Far-se-á uma melodia para musicar um discurso, ou será a melodia que o vai sugerir?
Esta pequena nota introdutória vem a propósito da música da autoria da Tânia Tomé, intitulada “Nhi Ngugu Haladza”, que se supõe estar cantada em Guitonga, uma das línguas faladas em algumas zonas da província de Inhambane. Não quero aqui, discutir aspectos harmónicos e melódicos da música da Tânia. Sinto-me incapacitado tecnicamente para o fazer.

A minha modéstia observação reside essencialmente, na forma como a música é cantada em Guitonga pela cantora, Tânia Tomé, (confesso que não nenhum especialista nesta língua). O que defendo é que conscientes da produção dos sons vocábulos, os cantores devem desenvolver habilidades de articulação das palavras para permitir o significado do texto e do discurso musical.
Lembro-me ter começado a ouvir a música (incluindo o próprio vídeo) num dos canais televisivos nacionais. Mais tarde, tive acesso a música, e a partir daí, fiquei horas a fio com o intuito de querer perceber em que língua é que a Tânia estava a querer transmitir a sua mensagem, apesar de o título estar em língua Guitonga.

A decepção, se me permitem o termo, ocorre quando percebo que o que Tânia canta, não tem nada a ver com a língua Guitonga, muito mesmo seu provável dialecto. E coloco aqui duas questões: a cantora Tânia sabe que o que canta não é Guitonga, apesar da letra estar em língua Guitonga?. Porque é a cantora sabendo das suas dificuldades de comunicação em língua Guitonga, em termos de dicção e consequentemente enunciação do texto, insistiu em cantar?

Para mim não basta que a cantora ou o cantor diga que a sua música é cantada em língua X ou Y, para parecer que investiga ou fala uma determinada língua. É importante que lembrar que o trabalho da dicção é muito mais abrangente do que normalmente se entende. A dicção permite a melhor enunciação do texto a fim de que o público entenda o texto que está sendo cantado. Para isto, é essencial e indispensável que a cantora aprimore a pureza dos sons vocálicos e a clareza das consoantes. Além disso, é preciso combinar tais qualidades com a prática de se cantar as palavras com a acentuação adequada e dar sentido ao conteúdo poético de cada verso do texto, adequando-o ao conteúdo musical Desta forma, os textos ganham expressividades e seu significado é melhor comunicado.

Suponho que a cantora Tânia ficou alheia a estes pormenores fundamentais. Alheia a relação “íntima” entre texto e música, entre palavra e melodia, entre “som” da palavra e “sons” musicais escolhidos. Para mim torna-se inconcebível que um cantora ou cantor engane o público dizendo que está a cantar em uma determinada língua, quando na verdade, não se está a perceber patavina de nada, senão o balbuciar de sons estranhos numa língua estranha. Em fim, baboseiras.

A lição é válida para outros músicos
AVANTE!

Por: Rafael da Camara

Aqui ninguém morreu (Parte I)

O Rafael da Camara pediu que publicassemos o seu poema aqui.
Pedido que acolhemos com muito gosto.

Ao pequeno Hélio que quando voltava da
escola o pequeno projéctil soprou-lhe os
ouvidos

Os meninos de Bié
De ranho e rabo seco
Voltaram as costas
Com as chamas invadiram a cidade
O pneu ardente queimou a nossa cidade

Nossa cidade pintada a cores
Negro branco e amarelo
O projéctil aceso e lustro
Vem rente a cabeça dos meninos de Bié
E zás…

Recolheram a arma do crime?
Os bandidos foram caçados?
Os marginais foram presos?
Os escravos libertos?
Houve produção e produtividade?

Os meninos de Bié
Arregaçaram as mangas
As pedras
Os paus
E ficaram a espera!

E o Judas veio
Com produção e produtividade
Ainda mesmo no nascer do segundo sol
Antes mesmo da segunda marcha
A caravana dos imbecis recuou
Recuou para sempre
Levou consigo
O seu machado de guerra
Para bem longe daqui

Mas deixou reluzente na flecha dos olhos
O corpo tombado do menino Hélio
E o grito seco do ndlate que ficou órfão para sempre
A debicar o último grão de trigo
Que ficou na floresta…

Pena!
Aqui ninguém morreu…

Poema de Rafael da Camara

Sunday, February 20, 2011

Ferramentas de Sociologia

A direcção da A.M.S em colaboração com o sociólogo Elísio Macamo (que devia ser de leitura obrigatória para quem quer abraçar esta área do saber) vai criar um espaço de debate em torno de alguns conceitos fundamentais da sociologia. Este espaço será dedicado especialmente aos estudantes de sociologia, que podem ser desde pessoas inscritas em cursos de sociologia, docentes, pesquisadores, até leigos. Todo aquele que se interessa pela sociologia enquanto disciplina, ciência e/ou campo de lazer poderá participar no debate. O espaço designa-se “Ferramentas de Sociologia”. Semanalmente iremos postar no blog da A.M.S um texto para reflexão. Todos estão, portanto, convidados a debater. Repetimos, não precisa ser especialista ou ostentar algum grau académico. Precisa apenas ter curiosidade de conhecer um pouco mais sobre as ‘coisas sociais’ ou as coisas do social (eish, estarei a tornar-me Durkhemiano sem me aperceber?). Os textos serão publicados no seguinte endereço: www.sociologia-mocambicana.blogspot.com
P.L

Thursday, February 3, 2011

XI Congresso Luso Afro Brasileiro de Ciências Sociais

Prezados colegas,
Entre os dias 07 e 10 de agosto de 2011 ocorrerá em Salvador
XI Congresso Luso Afro Brasileiro de Ciências Sociais
com o tema Diversidades e (Des)Igualdades
Abaixo segue a divulgaçao do nosso GT.
Visite o site do Congresso
http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/site/capa
Solicito a divulgaçao do nosso GT em suas listas (ver informações sobre o GT abaixo). O período de inscrições dos trabalhos individuais é 11 de janeiro a 14 de março de 2011.



GRUPO DE TRABALHO – GT 05
Morfologia do protesto social no espaço Afro-Luso-Brasileiro: desafios teóricos e metodológicos
Coordenadores:
Elisio Macamo

Universidade da Basileira - Centro de Estudos Africanos

Patricio Langa
Associação Moçambicana de Sociologia

Remo Mutzenberg
Universidade Federal de Pernambuco

Eliane Veras Soares
Universidade Federal de Pernambuco



Resumo:
O GT se propõe debater a morfologia do protesto social em África e na América Latina, tendo como pano de fundo, a sua possível articulação teórica com o fenómeno de movimentos sociais. O GT propõe como definição do protesto social toda a contestação colectiva da ordem política, social e económica a qual pode assumir formas violentas como tem acontecido em Moçambique em reacção à alta de preços de produtos básicos ou, duma forma geral, por via da criminalidade. De que maneira o protesto social se articula com a ideia de movimentos sociais na América Latina e em África, com as múltiplas formas de organização, as distintas motivações e demandas, que impõem outra morfologia aos movimentos sociais distintas da organização de partidos e/ou formas associativas tradicionais com características hierárquicas e centralizada? Será o protesto social no contexto neo-liberal revelador de outros significados para democracia e do próprio desenvolvimento econômico, social, político e cultural? Em que medida transcende a política, como prática no âmbito institucional, e indicariam uma transformação do político como prática constitutiva e inerente ao conjunto da vida social. Que ilações podem ser tiradas de cariz teórico e metodológico a partir da heterogeneidade do protesto social, das suas múltiplas formas de ação, dos distintos modos como recorrem à memória de repertórios de ação, reinventando-os ou superando-os com a incorporação de novos recursos tecnológicos e cognitivos? O GT propõe, assim, um espaço de visibilidade aos protestos e suas interpretações e identificar limites das teorias mobilizadas para a sua compreensão.
Justificativa:
O protesto social constitui um elemento central da conflitualidade inerente a qualquer sociedade. Ele documenta a insatisfação de certos sectores da sociedade em relação à forma como ela é gerida. Nessa ordem de ideias, o protesto é um indicador importante das tensões existentes dentro duma sociedade bem como o prenúncio do que pode ameaçar a estabilidade social a curto ou médio prazo. A ideia de que o protesto pudesse ser entendido como uma manifestação de alienação em relação ao sistema político em vigor conduziu alguns sociólogos a sugerir uma ligação intrínseca entre o protesto e a emergência de movimentos sociais. Desde então, o estudo do protesto nas suas mais variadas manifestações tem sido articulado com os movimentos sociais. O GT se propõe debater a articulação teórica entre o fenómeno do protesto social e o conceito de movimento social na América Latina e em África. O debate buscará descrever a morfologia do protesto social com base em contribuições empíricas sólidas. Partindo do pressuposto segundo o qual a ligação implícita entre protesto social e conflictualidade seria insuficiente para dar conta da complexidade do fenómeno, uma vez que impõe ao investigador como o fenómeno empírico deve ser visto, o GT vai privilegiar uma abordagem que permita uma descrição mais etnográfica do fenómeno em si. Interessa, pois, colher elementos que permitam entender as múltiplas formas de organização, as distintas motivações e demandas, que impõem outra morfologia ao protesto e, por conseguinte, abre espaço para uma outra apreciação do conceito de movimento social. Sobretudo no contexto de supremacia neo-liberal, cuja manifestação social é o crescimento das desigualidades e a redução de espaços para uma articulação política do descontentamento, torna-se imperioso analisar com mais cuidado o significado profundo que o protesto. É, com efeito, em face das transformações econômicas, políticas, sociais, culturais, tecnológicas e cognitivas, que marcam o contexto dessa afluência e seus desdobramentos no campo das ações coletivas, que as perguntas sobre como identificar, entender e explicar as ações coletivas e a identidade de seus agentes tornou o campo teórico e da pesquisa mais heterogêneo. Isto também coloca desafios analíticos em relação aos processos internos de articulação de grupos específicos e a construção de cadeias de equivalência entre as diferenças; à relação entre o local e o global, além das questões regionais, assim como das relações com o Estado. Para os movimentos sociais, essa relação com o Estado tornou-se ainda mais intrincada e ambígua na medida em que lideranças oriundas de seus quadros, ou no mínimo comprometidas com as suas demandas, tornaram-se, no caso da América Latina governo em seus diferentes níveis. No caso de nações africanas, os processos de independência e as transições democráticas recentes, nos moldes da democracia formal, expõem promessas não cumpridas. Esses fatos levam tanto a um afastamento como a uma inserção dos movimentos no âmbito dos governos, ou geram, ainda, uma dupla atuação, isto é, manifestações de apoio aos governos assim como à resistência e mobilização no sentido de acelerar o cumprimento de demandas postergadas. Há aqui uma tensão entre, por um lado, um processo de conquistas e alargamento da democracia e, por outro, o ideário neo-liberal de um projeto de Estado mínimo. Essa tensão parece ocultar-se sob um conjunto de significantes comuns, tais como participação, sociedade civil, cidadania, democracia, cujos significados distintos são de difícil deciframento. Seriam os protestos reveladores de outros significados para democracia e do próprio desenvolvimento econômico, social, político e cultural? Que desafios teóricos, metodológicos e políticos emergem a partir das múltiplas formas de ação dos movimentos sociais, dos distintos modos com que recorrem à memória de repertórios de ação, reinventando-os ou superando-os com a incorporação de novos recursos tecnológicos e cognitivos?