Sunday, September 12, 2010

A ausência de modestia analítica

O que explica a ocorrência de linchamentos em Moçambique? Resposta: –‘ A ausência do Estado’. O que explica os eventos de 5 de Fevereiro de 2008 e os tumultos de 1 e 2 de Setembro deste ano em Maputo? Resposta: –‘A ausência de um Estado-Pai’. O que explica os ataques de elementos da população a outros alegadamente por aqueles segundos prenderem a chuva? Resposta: ‘- A ausência de um Estado pai’. O que explica a crise dos ‘chapas’? Resposta: ‘A ausência de um Estado Pai’. Noutros escritos meus, considerei este tipo de respostas de teorias ‘four by four’ ou todo terreno. Explicam tudo sem explicar nada. São teorias que sugerem elevado déficit de modestia analítica por parte de seus proponentes.


Por modestia analítica refiro-me a capacidade de estudiosos de entreter certas crenças e convicções sobre a razão da ocorrência de determinados fenómenos, mas com o cuidado de reconhecer que não passam convicções. É preciso sermos capazes de distinguir uma convicção da evidência. Este parece ser um dos maiores problemas de alguns dos nossos estudiosos do social quando se trata de analisar certos fenémonos sociais, como os últimos eventos que paralizaram as cidades de Maputo e Matola no príncipio deste mês. A convicção com que alguns académicos afirmam, por exemplo, que os manifestantes protestaram contra a ausência de um Estado-Pai”, têm as características de uma postura ideologica, expressão de um desejo do analísta do que deveriam constituir as funções do Estado, no lugar de resultar duma análise isenta dos acontecimentos. Trata-se duma tendência normativa comum na maneira de abordar certos fenómenos sociais da nossa classe intelectual que ao invés de procurar explicar a razão da ocorrência racionaliza e justifica a ocorrência do fenómeno. Porquanto, existe uma diferença entre justificar e explicar. Este problema, como disse, constitui o maior desafio analítico que alguns estudiosos das manifestações violentas no nosso país, sejam elas os linchamentos ou os levantamentos populares, apresentam nas suas análises. Por um lado, olvidam que as condições estruturais que propiciariam à ocorrência das manifestações populares estão presentes a todo momento, no entanto, as manifestações são eventos esporádicos. Ainda que alguns se façam de profectas retrospectivos dos eventos. Sabiamos que vai acontecer! Por outro lado, o que apresentam como explicações são tão genéricas e limitadas que não nos oferecem elementos fundamentais para distinguir os seus aspectos morfológicos e intrínsecos que possam ir além da eventual ligação com as condições estruturais. Isto faz-lhes cair num argumento circular. Do tipo: As manifestações ocorrem devido a ausência do Estado porque se não se houvesse ausência de Estado estas não ocorreriam. Pois bem, acontece que este tipo de comportamento social (colectivo) não é exclusivo de países com as condições estruturais de Moçambique nem com Estados – padrastos como se supõe. E aí, como fica a teoria da ausência do Estado? Reparem que não estou a refutar a teoria, estou simplesmente a sugerir que a conclusão da ausência do Estado-Pai é precipitada e não resulta de qualquer tipo de observação nem da conceptualização de Estado feita pelos próprios manifestantes, mas das convicções e concepções ideologicas de Estado do analísta, do que eventualemente possa ser o móbil dos manifestantes. Da mesma maneira que não existem elementos de prova empírica para sustentar a ausência do Estado podia justificar a presença da concepção de um Estado-Provedor como a provavel causa dos protestos. A idea de que é o Estado que deve prover tudo não significa que o Estado tenha capacidade para tal, e nem significa que seja ausênte devido a sua incapacidade. Há diferença entre um paí ausente e um paí sem capacidade de prover. Não pretendo também cair na falácia analítica que critíco e começar aqui a apresentar as minhas convicções de Estado. Esse exercício seria analiticamente especulativo e supérfluo. Teriamos primeiro que estudar as concepções de Estado dos nossos concidadãos, que podem ser multiplas e variadas, antes de tirarmos grandes conclusões que só revelam falta de modestia analítica.



6 comments:

Anonymous said...

Caro Patricio Langa,

O "Estado-pai" é um anacronismo, responsável pelas restrições dos direitos democráticos e liberdades fundamentais dos cidadãos e pela infantilização do povo Moçambicano. Presidentes que se comportar como um pai, controlam a política e economia, manipulam a vontade do povo através a propaganda, a simulação de eleições, corrupção e incontrolados gastos públicos financiados pelos contribuintes e doadores internacionais. Sob o pretexto de defender os interesses do povo, o "Estado-pai" consome a renda dos camponeses e trabalhadores, gere mal o país, seus recursos naturais e fecha a economia do país a seus desejos, inibindo investimentos internos ou externos. O "Estado-pai" é um monstro burocrático, um sistema atrasado, ineficiente e frágil. Um bom pai nunca manda a Polícia matar seus próprios filhos. Um pai, que merece ser respeitado, nunca lança gás lacrimogéneo contra mulheres e crianças. Um verdadeiro pai nunca abusa seu poder. Por isso o "Estado-pai" é um Estado autoritário. Se houve ausência do “Estado-pai”, não houve violações graves dos Direitos Humanos com mortos e feridos nas ruas.

Oxalá

Patricio Langa said...

Estimado leitor.

Obrigado por passar aqui. Estou, na medida do possível, a tentar ressuscitar este espaço. Fico com a impressão de que temos mais gente da nossa classe intelectual a reproduzir acriticamente ideias produzidas por algumas pessoas com ‘autoridade intelectual’. Muitas dessas ideias são extremanente problemáticas na sua concepção (ideológica), para não dizer analítica. Por exemplo, esta do ‘Estado-Pai’. Parece tratar-se mais de uma crença do que de uma elaboração teórica com suporte empírico. E o pior é que passa como se de conhecimento erudito se tratasse. Precisamos debater os termos e as premissas das nossas conclusões por sinal bastante fortes. De que estamos a falar quando falamos de ‘Estado-Pai’? É a essa pergunta que temos de responder antes de concluirmos que aquele (o Estado) é ausente ou presente. Diria o mesmo para uma série de termos (vagos e arrojados) que populam nas referidas pseudo-análises. É correcto compararmos, ainda que seja por analogia, os eventos que ocorreram nos a 5 de Fevereiro de 2008 com os de 1 & 2 de Setembro deste ano? É correcto colocarmos a todos chavões do tipo ‘sismo social’, ‘torpedo social’, convulsão social etc. Em que medida isso (não) naturaliza o social? Que factores revelantes de comparação existem entre o fenómeno natural e o social? Qual é a relevância da comparação? Tenho para mim que rotular não é analisar. Essa corrida para rotular antes de fazermos as perguntas necessárias para tornar as coisas mais inteligíveis faz parte dessa falta de modestia analítica que mina a natureza do debate na nossa esfera pública.

Abraços

oakleyses said...

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oakleyses said...

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oakleyses said...

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oakleyses said...

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