Monday, August 27, 2007

Mito da Preguiça Bahiana desmistificado em tese de Doutoramento.





São Salvador da Bahia, mas conhecida por Salvador da Bahia, é uma relíquia na terra. A terceira maior Cidade do Brasil a seguir as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Para mim, um dos lugares por onde todo o ser, que se dá por humano, devia passar, pelo menos, uma vez na vida. Um lugar místico, contemplativo e por que não mítico. Salvador situa-se na costa do Nordeste Brasileiro. Um Nordeste que quase se torna sinónimo de pobreza, pelo menos, no imaginário social dos que, como eu, acedem ao Brasil pela janela mágica da TV.
Roma Negra

Assim a designam, por ser provavelmente o lugar com maior concentração de negros fora d’África (sic)! Os negros representam 80% da população de Salvador. No entanto, Salvador não deixa de ser também um lugar onde a mistura de raças, culturas, religiões ou culturas religiosas de povos de múltiplas origens se entrecruzam numa acto simbiótico que os estudiosos lhe chamam sincrético. Os Orixás, divindades religiosas bastante devotadas pelos Bahianos, parecem-me disso um exemplo. De tanta santidade – “festiva” – chamaram-lhe a Bahia de TODOS OS SANTOS!
Capital da Alegria!

O lugar onde vi mais comida disponivel, mas também onde mais gente percebi sentido fome. Fartura no meio da desgraça. São as incongruências da Bahia. Da Bahia? Ou do Mundo? Nem a fome retirava, aos meus olhos, o riso das pessoas que nas condições mais precárias (aos meus olhos, repito) esboçavam sempre um sorriso incandescente! Enfim, não pretendo, pelo menos agora, fazer uma crónica de viagem ainda a Salvador da Bahia. Esta nota é apenas para introduzir um outro texto. O texo da Giovana Xavier de que vou falar mais adiante. A imagem que apresentei pode induzir-nos a ideia enganosa de que em Salvador é onde encontramos a evidência empírica da, utópica, porém ideal, “democracia racial”!Não é! Salvador é uma terra de todos os SANTOS, mas também do muitos DIABOS! É que não há Santo sem Diabo, ou bela sem senão ! A riqueza de uns, poucos, contrasta a pobreza de outros, muitos. Essa é condição mais do que necessária para que surjam todo tipo de clivagens sociais que se impregnam num recorte racial e classista (este último menos mobilizado politicamente) de re-produção das desigualdades sociais.
A tese de Giovana Xavier!

A tese de Giovana Xavier, doutourada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, cujo resumo apresento mais abaixo, é apenas um retrato dessas clivagens sociais. No meu entender, o imaginário social do Bahiano como preguiçoso resulta dum contexto relacional e de disputa por recursos material e simbólicos escassos peculiares a sociedade Brasileira. A preguiça Bahiana não é inata, como parece demonstrar o estudo, surge num contexto relacional.
Seria interessante um estudo comparativo com o caso Moçambicano. Boa parte da regulação do trabalho indígena e do trabalho forçado (O Xibalo- não é Zamparoni?) assenta precisamente no argumento da indolência e preguiça dos africanos. Sarcástico ou não é que, hoje, três décadas de pós-independência o actual presidente de Moçambique reabilita o argumento da preguiça de seus concidadãos para justificar seu estado de pobreza. Não será mais fácil responsabilizar as pessoas pelo seu infortúnio (individualizando as causas da pobreza) e assim desresponsabilizar o Estado, do que revelar uma visão estrutural do problema?
Enfim, leiam e tese da Giovanna Xavier no seu português Brasileiro !
Doutorado na PUC : "preguiça baiana"

"Preguiça baiana" é faceta do racismo. A famosa "malemolência" ou preguiça baiana, na verdade, não passa de racismo, segundo concluiu uma tese de doutorado defendido na USP. A pesquisa que resultou nessa tese durou quatro anos. A tese, defendida no início de setembro pela professora de antropologia Elisete Zanlorenzi, da PUC-Campinas, sustenta que o baiano é muitas vezes mais eficiente que o trabalhador das outras regiões do Brasil e contesta a visão de que o morador da Bahia vive em clima de "festa eterna". Pelo contrário, é justamente no período de festas que o baiano mais trabalha. Como 51% da mão-de-obra da população atua no mercado informal, as festas são uma oportunidade de trabalho. "Quem se diverte é o turista", diz a antropóloga.
O objetivo da tese foi descobrir como a imagem da preguiça baiana surgiu e se consolidou. Elisete concluiu, após quatro anos de pesquisas históricas, que a imagem da preguiça derivou do discurso discriminatórios contra os negros e mestiços, que são cerca de 79% da população da Bahia.
O estudo mostra que a elevada porcentagem de negros e mestiços não é uma coincidência. A atribuição da preguiça aos baianos tem um teor racista. A imagem de povo preguiçoso se enraizou no próprio Estado, por meio da elite portuguesa, que considerava os escravos indolentes e preguiçosos, devido às suas expressões faciais de desgosto e a lentidão na execução do serviço (como trabalhar bem-humorado em regime de escravidão??? ?).
Depois, se espalhou de forma acentuada no Sul e Sudeste a partir das migrações da década de 40. Todos os que chegavam do Nordeste viraram baianos. Chamá-los de preguiçosos foi a forma de defesa encontrada para denegrir a imagem dos trabalhadores nordestinos (muito mais paraibanos do que propriamente baianos), taxando-os como desqualificados, estabelecendo fronteiras simbólicas entre dois mundos como forma de "proteção" dos seus empregos.
Elisete afirma que os próprios artistas da Bahia, como Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Gilberto Gil, têm responsabilidade na popularização da imagem. "Eles desenvolveram esse discurso para marcar um diferencial nas cidades industrializadas e urbanas. A preguiça, aí, aparece como uma especiaria que a Bahia oferece para o Brasil", diz Elisete. Até Caetano se contradiz quando vende uma imagem e diz: "A fama não corresponde à realidade. Eu trabalho muito e vejo pessoas trabalhando na Bahia como em qualquer lugar do mundo".
Segundo a tese, a preguiça foi apropriada por outro segmento: a indústria do turismo, que incorporou a imagem para vender uma idéia de lazer permanente "Só que Salvador é uma das principais capitais industriais do país, com um ritmo tão urbano quanto o das demais cidades."
O maior pólo petroquímico do país está na Bahia, assim como o maior pól o industrial do norte e nordeste, crescendo de forma tão acelerada que, em cerca de 10 anos será o maior pólo industrial na América Latina.
Para tirar as conclusões acerca da origem do termo "preguiça baiana", a antropóloga pesquisou em jornais de 1949 até 1985 e estudou o comportamento dos trabalhadores em empresas. O estudo comprovou que o calendário das festas não interfere no comparecimento ao trabalho. O feriado de carnaval na Bahia coincide com o do resto do país. Os recessos de final de ano também. A única diferença é no São João (dia 24 /06), que é feriado em todo o norte e nordeste (e não só na Bahia). Em fevereiro (Carnaval) uma empresa, cuja sede encontra-se no Pólo Petroquímico da Bahia, teve mais faltas na filial de São Paulo que na matriz baiana (sendo que o n° de funcionários na matriz é 50% maior do que na filial citada). Outro exemplo: a Xerox do Nordeste, que fica na Bahia, ganhou os dois prêmios de qualidade no trabalho dados pela Câmara Americana de Comércio (e foi a única do Brasil).
Pesquisas demonstram que é no Rio de Janeiro que existem mais dos chamados "desocupados" (pessoas em faixa etária superior a 21 anos que transitam por shoppings, praias, ambientes de lazer e principalmente bares de bairros durante os dias da semana entre 9 e 18h), considerando levantamento feito em todos os estados brasileiros. A Bahia aparece em 13°lugar. Acredita-se hoje (e ainda por mais uns 5 a 7 anos) que a Bahia é o melhor lugar para investimento industrial e turístico da América Latina, devido a fatores como incentivos fiscais, recursos naturais e campo para o mercado ainda não saturado. O investimento industrial e turístico tem atraído muitos recursos para o estado e inflando a economia, sobretudo de Salvador, o que tem feito inflar também o mercado financeiro (bancos, financeiras e empresas prestadoras de serviços como escritório s de advocacia, empresas de auditoria, administradoras e lojas do terceiro setor).