Thursday, December 20, 2007

Medo de argumentar: contra o relativismo dos pontos de vista e da validade equivalente!


O debate na blogosfera está a animar. Historiadores, Juristas, Sociólogos e por aí em diante estão finalmente a debater. Infelizmente, o debate contínua encalhado por privilegiar desculpas, (des)qualificação dos intervenientes e desabafos, não abordando criticamente os argumentos dos que pensam diferente. Há pessoas que quando sentem que já não têm razões plausíveis para sustentar suas certezas (conclusões) enveredam pelo relativismo do ponto de vista profissional ou fazem apelo ao princípio “caridade" Ainda estou a tentar perceber o que significa ter caridade de alguém num debate de ideias (Quem sabe o Egídio Vaz nos explique um dia). Ainda estou a tentar perceber o que faz de um argumento exposto por um jurista imune a crítica (Quem sabe o jurista Custódio Duma nos explique um dia). Porque é que um jurista não pode cometer falácias, erros de raciocínio? Por ser jurista? Não será isso em si uma falácia? Porque é que um sociólogo não pode avaliar a plausibilidade das razões(premissas) que um jurista apresenta para concluir que este país está tomado por uma elite corrupta? Precisa sentar cinco anos na faculdade de direito para analisar um argumento? Retomo a ideia de caridade com o interlocutor. Não basta ter no meu interlocutor alguém que partilha da mesma faculdade de raciocinar? Esse é o princípio de igualdade racional que aplico. Para mim, a razão é universal. Podem existir razões sociológicas que fazem com que não exploremos as nossas faculdades racionais da mesma maneira, mas esse é outro assunto. Vale a pena recordar algo que escrevi em Setembro aqui a propósito da argumentação. Há pessoas que têm aversão as regras (no blog, na verdade no debate de ideias), só não se dão conta que a primeira regra que nos impõe é a ausência de regras.

Regras do Discurso segundo Habermas: (estas regras não são de caridade).

1. Todo sujeito com a competência para falar e agir é permitido participar no discurso.

2. a) A todos é permitido questionar qualquer asserção.

b) A qualquer um é permitido introduzir qualquer asserção no discurso.

3. A qualquer um é permitido expressar suas atitudes, desejos e necessidades.

4. Nenhum falante pode ser impedido, por coerção interna ou externa, de exercer seus direitos expostos em 1 &2.

A única força possível é a “não-forçada força do melhor argumento” e o único motivo permissível é “a busca cooperativa do verdade”!

Ninguém é forçado a entrar nos debates que ocorrem na blogosfera. Por isso, se existe alguma tentativa de regrar esse debate, se existe algum poder que é exercido pelos actores que participam nesse espaço, esse poder é exercido com consentimento daqueles que lhes sofrem as consequências. Vou repisar aqui a ideia de que o debate de ideias que pessoalmente advogo não é apanágio de nenhuma disciplina científica. Qualquer indivíduo que goze das suas faculdades racionais é capaz de acompanhar qualquer debate deste que este seja claro na sua exposição. Voltaire escrevia seus textos e depois passava-os para o seu cozinheiro lê-los e interpretá-los. Com esse exercício Voltaire procurava não tornar menos complexo o seu argumento, mas torná-lo perceptível. Alguns bloguistas estão a sugerir que se baixe a exigência de rigor no debate ao nível das suas crenças. Aceitar isso é condenarmo-nos ao ciclo vicioso que os desabafos nos remetem. O desabafo não pensa, sente e acredita. E sentimento não é do âmbito da razão, mas da emoção. Se alguém acredita que no país todos os políticos enriquecem ilicitamente, não temos como mudar essa crença se ela não for confrontada com melhor argumentos. É essa a tarefa da crítica. A única saída para confrontar essa crença é aceitar um outro nível de debate, que não se baseia na crença. Alguns na blogosfera estão a exigir que se baixe o nível de discussão, em nome da caridade, e que se aceitem argumentos fracos (conclusões cujas premissas são problemáticas). É claro que para argumentar “bem”, isto é, para fornecer razões plausíveis, premissas fidedignas, as pessoas têm que investigar. E nesse exercício, muitos por defeito ou efeito da sua profissão, recorrem e fecham-se nas gavetas das suas disciplinas. Não é necessário ter diploma de Direito ou ter frequentado cinco anos a faculdade de direito para poder olhar a sociedade numa perspectiva jurídica. Não é preciso ter carteira de piloto para saber pilotar. Para pilotar é preciso aprender a pilotar. Para olhar as coisas numa perspectiva jurídica é preciso investir em tempo de aprendizagem para aprimorar os instrumentos da análise jurídica. Não se confunda exercício de uma profissão, e todos os mecanismos de fechamento profissional (ordens, associações disto e daquilo) com exercício de pensar. Não existe ordem dos que pensam juridicamente ou sociologicamente. O mesmo é válido para qualquer disciplina. O que precisamos é de investir nosso tempo lendo e investigando naquela área específica de conhecimento se quisermos aprimorá-la. O argumento de que existem zonas de interpretação privilegiadas para juristas, historiadores e por ai em diante é daqueles que querem usar as suas credencias e disciplinas como escudo no debate. É uma falácia. Trata-se de fobia de argumentar. Começasse a inventar desculpas esfarrapadas como a ideia do relativismo do ponto de vista. O pior disso é esses defensores do relativismo do ponto de vista reclamarem um estatuto igual para conhecimento, facto, crença e verdade. É a ideia de validade equivalente. As falhas de raciocínio, as falácias nos argumentos, que por principio procuro ilustrar com os meus artigos, não são mais admissíveis ou permissíveis para uns do que para outros. Um erro de raciocínio ou analítico não é menos erro quando cometido por um cidadão, jurista ou por um sociólogo. Erro de raciocínio é erro de raciocínio, na China ou na Conchichina! Mas as sanções, para os erros de raciocínio, não são democraticamente distribuídas conforme cometidas por um cidadão ou por um jurista.