Friday, October 31, 2008

Honoris causa e o espírito académico [2].

A definição de honoris causa é bastante generosa pela sua amplitude. Honoris causa significa, literalmente, causa nobre. Na língua de Camões (será que alguma universidade luso já se lembrou de fazer de Camões Doutor Honoris Causa - DHC) causa nobre é um título honorífico concedido a uma personalidade que tenha contribuído com os preceitos de uma instituição oficial de ensino, não pertencente a seu quadro funcional. A causa nobre pode ser pelo saber ou pela actuação em prol das artes, das ciências, da filosofia, das letras ou do melhor entendimento entre os povos. Como vides muita coisa pode caber no guarda-chuva do DHC. No entanto, sendo a universidade tradicionalmente um lugar privilegiado, mas não exclusivo, da produção de conhecimento científico é de esperar que os galardoados representem algo para o avanço dessa cultura. Até que ponto os nossos laureados representam algo em termos de contribuição para o avanço da cultura académica e do espírito científico?


Os presidentes, em África, eram os principais laureados com o DHC. Quase todos, continente adentro, já alguma vez foram agraciados. Alguns tendo tido inclusive uma relação madrasta com a universidade. Há algum tempo atrás, durante o “Chissanismo”, o nosso ex-presidente Joaquim Chissano era praticamente o único agraciado com DHC e principalmente por universidades estrangeiras. O País anda(va) nas graças da comunidade ajudante – quer dizer internacional. Estavam deslumbrados com o que consideravam ser a capacidade de negociar a paz e reconciliatória de Chissas. Como se aquela fosse produto da acção individual. Mas isso não vem, agora, ao caso. As mesmas entidades, hoje, estão a retirar tudo que foi DHC que durante décadas atribuíram ao tio “Bob”, Mugabe. Hoje o tio “Bob” não mais representa uma causa nobre, mudaram-se os tempos e com ele as vontades. O tio “Bob” é, para os ajudantes, o demónio em pessoa!


Recentemente nota-se que não são mas apenas os presidentes os “honráveis sem causa” para usar o termo do Rildo Rafael. Alargou-se a base de selecção dos honráveis e com esta a lista. Num espaço de menos dois anos diferentes instituições de ensino superior, entre públicas e privadas, andam numa verdadeira procura de figuras honráveis. O próprio Chissano voltou a ser agraciado pelo Instituto Superior Politécnico e Universitário (ISPU), se não me engano há dois anos. Foi-lhe inclusive conferido uma cátedra, a de resolução de conflitos. A faculdade de letras, da Universidade Eduardo Mondlane, que faz questão de frisar ser a maior e mais antiga, retorquiu atribuindo também a Chissano mais um honoris em Ciência Política.


Como referi há pouco começamos a assistir a diversidade no tipo de laureados pelas universidades. Perturbaram o sono eterno do nosso poeta mor, José Craveirinha, para lhe vestirem as túnicas de DHC, ainda que na cripta tumba. O pintor Malangatana Valente Ngoenha teve a sua vez no ISPU. Mais recentemente a UEM voltou a carga doutorando honoris causa o fotojornalista Ricardo Rangel e o “king” da Marrabenta – título disputado por Dilon Djindji – Fany Mpfumo. Há dois dias passei pela faculdade de educação da UEM e vi na vitrina mais um anúncio para o próximo DHC. Trata-se de um nome, pelo menos para mim desconhecido, que vai se tornar honoris causa. Ao que parece a fasquia vai baixando. Não tardará e teremos uma inflação de doutores honoris causa. Aí o consenso que parece prevalecer em relação as figuras até agora galardoadas vai certamente reduzir com a entrada dos ilustres desconhecidos. Não tarda e teremos a mesma situação que se assiste na definição de herói nacional. O que ainda não está claro, repito, é o que as nossas universidades estão a ganhar, em termos de capital científico, associando-se a essas figuras.


Ainda que se comece a diversificar a base de selecção, entre vivos e perecidos, a característica típica dos premiados é de indivíduos cujo prestígio radica fundamentalmente da sua acção na esfera política, mais do que académica. Mesmo no caso das artes, a obra de Malangatana deve boa parte da sua autoridade e legitimidade ao capital político que lhe esta associada e menos a qualquer sentido académico. A obra de Craveirinha deve parte da sua grandeza as profecias de nação que os historiadores designaram de proto-nacionalismo. A obra de Rangel idem. Como estes podia falar de tantos outros. Já podemos imaginar a lista dos próximos galardoados, nessas categorias, desde políticos até político-artístas. Que tal honoris causarmos Samora Machel, Justino Tchemane, Josina Machel, A. Matsangaisa (post mortem), Alberto Chipande, Lurdes Mutola, os Mambas e a mim, claro!


É claro que todas as esferas da vida são de alguma maneira esferas políticas. São no na medida em que existe sempre um substrato de relações de poder. O político, o artístico, o científico e o académico não são campos estanques. No entanto cada um deverá preservar uma certa autonomia relativa para se perpetuar. Quando o político se sobrepõe ao académico e vice-versa começamos a ter problemas de disfunção. Quando o político está na base do reconhecimento académico ou científico é porque aí há algo pervertido. O académico prestigiado pode eventualmente converter-se num político, mas raramente o inverso o corre com sucesso. Bom, acabei desviando-me um pouco do cerne da questão. Até que ponto os nossos laureados representam algo em termos de contribuição para o avanço da cultura académica e do espírito científico?O que está por detrás da recente corrida a procura de honráveis? Vou retomar estes pontos no próximo texto. Espero que ainda tenham paciência para me acompanhar, pois vamos explorar a dita lógica de competição no mercado do ensino superior. Aí a atribuição de DHC a figuras publicas com prestígio pode ser visto como uma estratégia de marketing para adquirir vantagem competitiva nesse mercado [Continua].

8 comments:

Egídio Vaz-Historiador said...

Phany Mphumo morreu ha bastante tempo. Até a altura da sua morte tinhamos nos gira-discos e Rádio Moçambique os únicos meios para ouví-lo. Com a guerra, dificilmente os gira-discos (LPs) podiam circular. As regiões do país estão quase que desligadas umas das outras. Para dizer que até a data, pouco se divulgou sobre a obra de Phany. Não haja dúvidas que foi o GRANDE. Isso sabemos por várias vias. Porém, pobre de mim, apenas sei dalgumas músicas cantadas por outros...do tipo, "A wasati wa longoooooo". E mais nada. O que a UEM irá fazer para divulgar a vida e obra do Phany? Eu não sei. Ou será que parou-se por aqui? Parece-me bem isso.

Rildo Rafael said...

Caro Patricio

Realmente esta questao do DHC e muito complicado. A questao da relacao de poder e extremamente interessante para fazermos estas leituras.

Sao realmente varios campos em luta mas que acabam se venerando ao campo politico.

Pierre Bourdieu em vida afirmava que aqueles que detem o poder politico estao em melhores condicoes de produzir logicas da legitimacao de qualquer coisa.

Ja agora poderemos fazer um exercicio simples, qual e o perfil destes agraciados ou laureados com DHC.

Mano so um reparo, quando apresentas a lista de alguns provaveis ou candidadtos a DHC,colocas "A. Matsangaissa" e os outros pelos nomes todos Samora Machel, Josina Machel, etc. Qual foi!!

Abracos
A luta continua

Patricio Langa said...

Caro Egídio.
Penso que faz sentido a tua questão. Para mim faria mais sentido estudarmos a Fany e a sua obra do que agraciá-lo com esse DHC. Essa seria a melhor maneira de homenagear o autor de “A Vasati Va lomu”. E isso nem é tarefa apenas da nova escola de arte e comunicação, mas podia começar por aí. Ao que me parece Fany iniciou um novo estilo musical e de dança. Como podemos preservar este estilo por exemplo sem conhecê-lo nos seus aspectos técnico-musicais. Enfim, estou a entrar para um terreno que desconheço, mas acho que Fany mas mais sentido para a academia como objecto de estudo do que como DHC.

Caro Rildo.
Tens razão, por alguma razão não conseguia acentuar o é de André e decidi ficar pelo A. Quando conseguir acentuar coloco o Andr?

Sueli Borges said...

Oi Langa,
você está adentrando em seara aberta a muitos questionamentos e análises. Maravilha!
Concordo com voce que algumas instituições acadêmicas possam querer auto-promoção através da simbiose-prestígio dos Honoris Causa (H.C).
Mas, já aqui surge uma ponderação. Para uma Universidade conceder um doutoramento H.C é preciso que ela, antes, já tenha alguma legitimação acadêmica e social. Ou qualquer "despretigiada" (perdoe o termo)instituição pode conceder este título. E em concedendo, qual seria o peso deste título na relação marketing X H.C, já que a isntituição é, reconhecidamente, "fraca"?
Outro questionamento que ouço, comumente, diz respeito a uma postura execrável do tipo: um analfabeto recebeu um título H.C pela Universidade tal.
Ora, um analfabeto não pode ter dado sua vida, inteligentemente, por uma causa nobre? Enquanto um pesquisador pode ficar anos recebendo financiamentos e á procura de uma terceira via metodológica, que nunca é encontrada e os resultados de seu trabalho ficam encalhados. Perdoe, novamente, meu maniqueísmo.
O que quero, finalmente, enfatizar é que este assunto é controverso.
Ademais,talvez seja interessante voce explicitar o que está chamando de "espírito científico" e "cultura acadêmica", pois dentro destas conceituações(?) cabe um mundo de categorias, lutas e definições, e também verificar através de que maneiras tais "espírito e cultura" interagem com a sociedade como um todo.
Estou pensando aqui na relação Universidade- pesquisa-extensão comunitária que pode, quem sabe, abrigar espaço para os H.C.
Por fim, voce já deve estar sabendo que Graça Machel será condecorada no dia 14/11/2008 com o título H.C, pela Universidade de Évora.
(Tá vendo aí,sabichão.Hehehe...não resisti à ironida).
um abraço atlântico "procê".

Patricio Langa said...

Estimada Sueli.
Muito obrigado pelos reparos que faz ao meu argumento. Tem toda razão nas questões que levanta. Pensava abordar alguns dos pontos que levanta em números posteriores. A questão da operacionalização dos conceitos é fundamental.Começo pela primeira questão que me colocas. A relação que considerei de simbiótica pode ocorrer mesmo que uma das partes não tenha necessariamente o prestígio ou melhor o tipo de capital que poderá adquirir associando-se a instituição ou a personalidade. Uma universidade sem prestígio (não é necessariamente desprestigiada, já que entendo por desprestigiada má fama) pode ganhar visibilidade e algum prestígio atribuído DHC a figuras com algum prestígio. Não é necessário que já o tenha antes. Não quis sugerir que a busca de prestígio é exclusivamente a razão dessa relação simbiótica. Pode ser mero reconhecimento. O que estou a tentar sugerir é que existe um contexto específico que está por detrás do recente fenómeno de atribuição de DHC. Para mim, hipoteticamente, esse contexto é determinado pela presença múltipla de instituições de ensino superior (resultando da expansão e diversificação) espevitando a concorrência. A atribuição dos DHC é em parte reacção a este novo contexto. Vou elaborar este argumento no próximo texto. A outra questão é sobre o “analfabeto” galardoado. Não sei o que consideras um analfabeto. Alguém sem escolaridade formal? Alguém sem grau académico superior? Se reparares, no meu texto, não ponho em causa a qualificação dos galardoados, nem é minha intenção. É verdade que, no meu entender, a probabilidade de alguém contribuir para o “espírito científico” e “cultura académica” é maior quanto maior for a qualificação académica. Mas a própria definição de HC abre espaço até para gente sem essa qualificação. O que eu estava a questionar é se a “causa nobre” do galardoado significa alguma coisa para a Universidade em termos daquilo que considero ser o principal negócio (core business) da instituição, pesquisa científica, ensino e “extensão”. A universidade, de modo geral, no meu entender é um espaço social que se constitui pela ambiguidade. Por outras palavras, a ambiguidade é constitutiva da universidade na medida em que seus actos são passíveis de serem vistos como uma faca de dois gumes, umas vezes contando a favor do que se considera ser o “core business” e as demandas sociais. Neste momento, a minha preocupação académica é com aquilo que designo de perversão da legitimidade académica pela legitimidade político-social. A universidade deve combater a pobreza ou absoluta ou estudar que “bicho” é esse? A universidade deve buscar relevância científica ou relevância social. Essas são questões que jamais serão superadas. São na verdade dilemas constitutivos da universidade, cabe aos académicos e a sua sociedade negociar um meio-termo.

Graça Machel! Está aí um exemplo interessante. Quem sai a ganhar com esse negócio? Évora ou Graça. Évora, ao que me parece, é uma ilustre desconhecida! Graça já não! Mas pode ser que individualmente ela se sinta realizada, afinal é mais um título honorífico. E lembre-se prestígio persegue prestigio. Não sei se respondi todas as questões e de forma clara. Continuemos no próximo número.
abrcs

Sueli Borges said...

Continuemos, sim, honoriscausuísticamente.
Bom domingo!

Bayano Valy said...

caro patrício,
interessante. fico à espera até ao fim para comentar. mas já agora: se concede-se um título de honoris causa devido aos feitos de quem quer que seja (vivo), não se pode retirar o mesmo título quando o fulano já não representa os ideias da instituição académica? só para provocação: existirá alguma ligação entre as honoris causa que a uem passa e as homenagens do chefe do estado aos "heróis"?

freefun0616 said...

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