Thursday, January 31, 2008

O retorno da neutralidade axiológica.

Infelizmente, vou continuar ausente por mais algum tempo desta “fábrica de ideias críticas”. Fui convidado a integrar uma equipe internacional de pesquisa que estuda a relação entre o ensino superior e desenvolvimento em África. Por que estamos numa fase inicial da pesquisa a coisa “rouba-me” muito tempo. No entanto, sempre que posso espreito os diferentes debates na Mozblogosfera. A vontade de regressar as vezes é atiçada pelos “atentados a razão” que se fazem em alguns blogs. Enfim, é preciso exercitar a paciência e não responder a tudo, mas esta foi demais. Aqui nem falo sequer da irresponsável instigação étnica por académicos sabiamente interpelada por Obed Khan e outros críticos atentos aos deslizes da razão. Um dia pensei que etnia não existia. Eu próprio não sei a que etnia pertenço ou melhor se a minha etnia existe. Para mim etnia era uma construção social, uma identidade social de grupo inventada e estrategicamente manipulável. Hoje, penso que o mais importante não demostrar que etnia não existe ou que é uma construção social pois ela é real nos seus efeitos a artir da simples crença da sua existência (perguntem aos Quenianos). Quer dizer, a etnia pode ser criada instântaneamente. Aí, depois de criá-la, numa oficina de sociologia por exemplo, é só ter os profetas da sua existência a reproduzí-la com debates argumentativamente problémáticos. O passo seguinte é as pessoas acreditarem que os profectas representam os seus interesses. Que certas etnias, por exemplo, estão a ser subjogadas por outras. Que certas etnias estão sub-representadas na partilha de recursos (poder) simbólico ou material. Quando se acredita que isso existe, não importa que não exista ou como foi produzino, pois o efeito da crença é real na mesma. Acabei me excedendo. A razão desta interrupção da ausência é uma frase (máxima)!. Gostaria que os leitores me ajudassem a entender o seu sentido. É que eu sou, um pensador apressado, e as vezes levo algum tempo a entender o sentido lógico das coisas. Mesmo assim não acho que faço “sociologia de intervenção rápida”.

Um “grande sociólogo” escreveu a seguinte frase:

Quanto mais flagrante é a desigualdade social [x], mais têndencia têm os “fast thinkers” para exigir neutralidade axiológica”[y].( Vejam aqui).

Queria convidar os leitores a fazer um pequeno exercício. O exercício consiste em analisarmos o sentido da relação que nos é proposta pelo pensador. Comecemos por partilhar o entendimento da palavra flagrante. Digamos que quer significar algo em presença, acentuada. Pegando na frase do nosso pensador a coisa ficaria assim:

- Quanto mais presente (acentuadas) as desiguldades sociais, mais tendência têm os “pensadores rápidos” - fast thinkers - (na verdade pensadores apressados) de exigir neutralidade axiólógica.

Devo recordarvos que a neutralidade axiólogica refere-se a um postulado metodológico importantissimo que ficou popularizado com a famosa distinção que o Sociólogo, Alemão do século XIX, Max Weber, fez entre enunciados valorativos e enunciados com relação a valores. Não confudamos! Em outras palavras, Weber distingue juizos de facto – “Em Moçambique existêm desiguldades sociais” – de Juizos de ValorAs desiguldades sociais em Moçambique são más, provocam linchamentos”. Um exemplo menos comprometido. -"A 2M é uma cerveja Moçambicana"Juizo de facto. "A 2M é a melhor cerveja Moçambicana" Juizo de valor. A primeira a firmação não depende dos nossos gostos ou desejos para ser verdadeira. A segunda depende. Existem várias implicações metodológicas mais profundas que derivam desta distinção Weberiana que não interessa explorar aqui. Talvez acrescentar apenas que Weber pretendia sugeir que ao sociólogo não cabe julgar os valores dos grupos sociais que estiver a estudar (emitir juizos de valor). De facto, a “neutralidade axiológica” foi uma tomada de posição fundamental para retirar as Ciências Sociais do domínio da moral teológica. Nunca Weber sugeriu que o sociólogo devesse eximir-se da responsabilidade ética em relação ao seu lugar de cientista e ao seu ofício como sociólogo pois é ela que impede a redução do labor científico ao exercício de uma razão instrumental que se limitasse a valorizar procedimentos eficazes independentemente dos fins aos quais serve. Portanto, a neutralidade axiólogica, bem interpretada, não é um princípio caducado. Permanece, bastente válido e actual. É, infelizmente, um principio mal interpretado por alguns sociólogos consciente ou inconscientemente. Os que o fazem conscientemente aproveitam-se das críticas mal elaboradas ao postulado para tomar partido em acções políticas disfarçadas em ciência ou legitimadas pelo engajemanto ideológico a favor dos deserdados. Falta-lhes a ética da responsabilildade. Retomemos o nosso exercício.

Qual é a relação entre “a presença de desigualdades sociais” – era preciso estabelecer claramente o que se quer dizer com presença flagrante de desiguladades sociais, já que estas se apresentam de diferentes maneiras em função da postura teórica e analítica de quem as observa – e o pressuposto espistemologico e metodologico Weberiano de neutralidade axiológica? Para por as coisas de forma mais desnudada o que é que varia em função de quê? Bom, isso é sugerido no pensamento cuidadoso (portanto not fast thinker) do “grande sociólogo”: Mais flagrante desigualdade social (x) [variável, toma valores diferentes], mais exigência de neutralidade axiológica [y].

A postura espistemológica e metodológica de exigir mais neutralidade depende (portanto) da presença flagrante de desigualdades sociais. A pergunta que gostava de deixar para os leitores é seguinte: Que tipo de relação acham existe ou se estabelece entre os dois fenómenos? Faz sentido essa relação? Se sim, porque faz? Podeia sugerir um TPC sobre os tipos de relações entre variáveis, mas parece-me um exagero aqui. Farei o TPC pelos leitores, como prémio pela atenção que me dispensão! Para alêm das variáveis dependentes e idependentes que todo mundo sabe, posso lembrarvos por alto mais algumas.

Os principais tipos de relações entre variáveis são: simétrica, em que nenhuma das variáveis exerce influência sobre a outra, quando então pouco interesse tem para a ciência; recíproca onde cada uma das variáveis é, alternadamente, causa exercendo continuo efeito uma sobre a outra, condição até certo ponto frequente em ciências sociais; assimétrica, onde uma variável (independente) exerce efeito sobre a outra (dependente). A relação assimétrica é o cerne da análise nas ciências deve-se sempre procurar pelo menos uma relação assimétrica, mesmo que a maioria das hipóteses prediga relações de reciprocidade. Em outras palavras, deve-se buscar uma relação causal entre variáveis independentes e dependentes, que pode ser:

determinista - “se X (independente) ocorre, sempre ocorrerá Y (dependente)”;
suficiente - “a ocorrência de X é suficiente, independente de qualquer outra coisa, para a subseqüente ocorrência de Y”;
coextensiva – “se X ocorre, então ocorrerá Y”;
reversível - “se X ocorre, então Y ocorrerá; e se Y ocorre, então X ocorrerá”;
necessária - “se X ocorre, e somente X, então ocorrerá Y”;
substituível - “se X ocorre, então Y ocorre, mas se H ocorre, então Y ocorrerá”;
irreversível - “se X ocorre, então Y ocorrerá, mas se Y ocorre, então nenhuma ocorrência se produzirá”;
sequencial - “se X ocorre, então ocorrerá mais tarde Y”;
contingente - “se X ocorre, então ocorrerá Y somente se M estiver presente”;
probabilista ou estocástica - “dada a ocorrência de X, então provavelmente ocorrerá Y” (a mais comum das relações em ciências sociais.

Esta coisa de dar TPC aprendi lá com o “grande sociólogo”. Posso adiantarvos que se sugere uma relação assimétrica de proporcionalidade directa, na frase pensador não apressado, entre os dois fenémenos. A pergunta mantêm-se, faz sentido? Será mesmo assimetrica? Reparem que essa relação só é válida na presença de uma categoria de pensadores (os fast thinker), na presença dos “all the time to think” (todo tempo para pensar) a coisa deve mudar de figura. Podemos, então, inferir que Max Weber era um “fast thinker”? Por outra podemos inferir que as desigualdades sociais na Alemanhã, quando Weber escreve os seus livros de metodologia para as Ciencias Sociais onde propõe a ideia de neutralidade axiológica (um proposta que têm sido muito mal interpretada por sinal), deviam ser bem flagrantes? Que relação existe entre os dois fenémenos sugeridos na frase douta! Quem acertar têm um prémio, que “Faster Thinker”!







7 comments:

Elísio Macamo said...

patrício, tentei seguir o elo que indicas, mas não vai dar em nenhum texto específico onde essa afirmação é feita. gostaria de perceber o contexto em que ela foi feita. independentemente do contexto, contudo, acho que devemos reagir afirmativamente a essa expressão. de facto, quanto mais flagrantes forem as desigualidades sociais e injustiças, mais devemos emular a neutralidade axiológica. isso é importante para percebermos realmente o que está em jogo! obrigado por chamares a nossa atenção para mais um atentado à nossa integridade intelectual. ninguém deve ficar envergonhado por insistir na neutralidade axiológica. ela não diminui necessariamente o nosso compromisso com a justiça social. reforça.o!

Matsinhe said...

De facto Patrício. O Link não vai dar a nenhum texto especificamente.

Patricio Langa said...

Caro Elísio.
Desculpe-me a resposta tardia. Continuo só a dar espreitadelas ocasionais ao blog. Não fui específico na referência a fonte. Na verdade o link que indico não é para um texto especifico. O link é para o blog. Lá no blog, porém, passava (pelo menos até ontem) de forma corrente, e destacada em azul, está afirmação. O contexto? Há o contexto como habitual é descontextualizado. É preciso ser um “bom” advinho para tentar descobrir o contexto para o texto (melhor para a máxima). Textos ou frases descontextualizadas é também uma característica perniciosa desta forma de debater fazendo máximas. Quanto a neutralidade axiológica penso que tens toda razão. Quanto mais flagrante as desigualdades sociais, mais vigilantes deviamos ser dos nossos juizos valorativos. O principio da neutralidade axiológica está aí para nos ajudar a ficar espistemologicamente vigilantes aos atentados a razão em nome das “boas” intenções.
PS:Dei-me a pensar alto apercebi-me que o Brasil e a Africa do Sul (dois países de que tenho algum conhecimento) deviam ser além de campões das desigualdades sociais, também campões da neutralidade axiológica ou dos “fast thinkers”. Isto se seguirmos raciocínio sugerido pela máxima.

Patricio Langa said...

Caros Elísio e Mastinhe.
Fiquem alguns segundos no blog a que vos remete o link e verão que a frase continua a passar em destaque (azul). Fiz isso agora.

Elísio Macamo said...

ok. é só ver a coisa de forma positiva.

thais_orp said...

Olá

Após ler seu texto, não pude deixar de elaborar juízo de valor sobre o mesmo.
A princípio, para se ter uma compreensão analítica e crítica do real, é necessário que não sejamos apenas metodológicos e estatísticos, jah que o cerne da cosntituição social, são individuos. Esta tendência weberiana e estruturalista de tratar a humanidade como uma rede desfragmentada em si, é típica do pensamento cientificista moderno. Contudo, a neutralidade axiológica constitui mais uma fração do pensamemto dominante.
Quanto a forma, achei que vc conseguiu ser incrivelemnte pedante ao tentar explicar epistemologicamente cada palavra, num excerto em que seu sentido se faz claro o suficiente. E também não pude deixar de perceber que tanto rigor ortográfico e gramatical, por vezes deixam escapar palavras como "dispensão", quando no caso o correto seria "dispensam".
Uma sensação de alívio também ao fato de que seus textos não ultrapassam o formato e o limite de um blog.

Hasta!

Thais

freefun0616 said...

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