Sunday, January 13, 2008

Toca ou não toca?: o inevitável debate sobre critérios!


Achei esta reflexão interessante que resolvi retirar dos comentários e colocá-la aqui em destaque.
(...)
Não são análises, mas impressões que gostaria de registrar aqui. Impressões de uma musicista que,por total impossibilidade de sobrevivência, também abandonou o sonho de viver de música. Impressões de quem conhece as difíceis dissonâncias da bossa nova e que da música moçambicana muito pouco teve oportunidade de estudar e ouvir. Mas, enfim, arrisca-se a colocar interrogações pessoais a dois pontos da excelente matéria postada.Adérito Gomate é muito lúcido no que diz sobre a música descartável e sobre músicos-mímicos que não tocam nem mesmo os primários acordes da escala de dó maior. Esta música é feita em todo o mundo,sabemos. De qualidade sonora extremamente duvidável, é certo, e quase abominável aos ouvidos de muitos! Mas, é uma música sobre a qual não podemos deixar de olhar, nem de ouvir. Está nas ruas, nos ônibus, no cotidiano, popularizada e divulgada. Creio que é uma música que não passará, mas se reproduzirá em variados estilos, ajustando-se inclusive às trombetas, não sei se do inferno ou do céu, no dia do Juízo Final (para quem assim acredita no céu/inferno!). Já sabemos os retrocessos musicais a que somos remetidos com esta música. Então, será que poderíamos pensar em alguma outra possibilidade que esta música massiva traria a cada sociedade e, mais especificamente, em cada contexto social onde é executada insistentemente? Seria uma música inclusiva, a despeito da má qualidade sonora, unindo o gosto de certas camadas sociais, sobretudo populares? Expressaria este gosto ideologicamente formatado ou formas de vidas e de pensar? Ou serviria somente para o rebolado e para o prazer descompromissado? E assim o for, que mal haveria nisso? Talvez o “toca ou não toca”.São portanto, dois lados da moeda: o modo como esta música é feita e divulgada, o músico que não toca e que é plasticamente construído, cujo aspecto considero execrável, e a forma como as pessoas interagem socialmente com esta música e com este músico.Por outro lado, nas últimas respostas de Adérito, leio a argumentação de que esta música moçambicana de nada teria de moçambicana, apenas o fato de ser feita no País , sem refletir essencialmente a identidade cultural. No caso brasileiro, e aí não tenho conhecimento para fazer um razoável paralelo com a realidade moçambicana, poderíamos refletir primeiro sobre o que é “a” identidade cultural e se um País pode ser expresso apenas por uma única (a redundância é proposital) identidade cultural (e musical) ou por várias? Tal identidade seria aquela atrelada às nossas tradições? E nossas tradições são estáticas ou criadas e reinventadas? Estou pensando se um sapato envernizado deixa de ser um sapato?Estou pensando quando ouço um típico samba de roda, tradicionalmente tocada no acústico com viola, voz e percussão, que expressa a dita tradição “originária” de um tipo de samba, se este samba acústico se eletrifica, ele deixa de expressar uma identidade cultural brasileira? Ou a tradição se adequou ao pós-moderno? E de forma foi feito? Sobre quais critérios se envernizou o sapato? Gostaria de usar a reportagem postada para refletir sobre uma questão mais complexa para além do dó maior: o lugar, o papel e a responsabilidade da arte (artistas) na contemporaneidade, enquanto porta-vozes de identidades plurais. Ou, invertendo o pólo, o lugar, o papel e a responsabilidade dos que analisam o produto final da arte (e os artistas) nas sociedades plurais. E, no mais, torcer para conseguir alguma gravação de Adérito Gomate na net!
Resposta.
Este assunto é deveras complexo. Penso que há várias coisas em questão. A concepção e ou definição de música. A questão bem colocada pela Sueli da identidade nacional e cultural dos produtos culturais e todos os relativismos e ou essencialismos que ai se cruzam. A questão dos interesses comerciais em jogo, desde a sobrevivência do artista até a publicidade de produtos e serviços das empresas multi-nacionais. Enfim, são variadíssimas questões mesmo que se colocam. Não penso que existam diferenças substâncias na forma como o problema se coloca aqui em Moçambique ou no Brasil. Tenho alguns textos escritos sobre este assunto. Recordo-me de um debate que durou semanas em 2005 com um bloguista sobre a Identidade Cultural da Música Moçambicana. Esse debate terminou com as partes acordando em discordar. Eu defendia que não existia música moçambicana de “raiz” e a outra parte defendia o contrário. O debate foi interessante, do meu ponto de vista, porque saímos com uma maior compreensão da complexidade da questão. Os links acima direccionam para esse debate.

4 comments:

Sueli Borges said...

Estimado Langa,

Não são análises, mas impressões que gostaria de registrar aqui. Impressões de uma musicista que,por total impossibilidade de sobrevivência, também abandonou o sonho de viver de música. Impressões de quem conhece as difíceis dissonâncias da bossa nova e que da música moçambicana muito pouco teve oportunidade de estudar e ouvir. Mas, enfim, arrisca-se a colocar interrogações pessoais a dois pontos da excelente matéria postada.
Adérito Gomate é muito lúcido no que diz sobre a música descartável e sobre músicos-mímicos que não tocam nem mesmo os primários acordes da escala de dó maior. Esta música é feita em todo o mundo,sabemos. De qualidade sonora extremamente duvidável, é certo, e quase abominável aos ouvidos de muitos! Mas, é uma música sobre a qual não podemos deixar de olhar, nem de ouvir. Está nas ruas, nos ônibus, no cotidiano, popularizada e divulgada. Creio que é uma música que não passará, mas se reproduzirá em variados estilos, ajustando-se inclusive às trombetas, não sei se do inferno ou do céu, no dia do Juízo Final (para quem assim acredita no céu/inferno!). Já sabemos os retrocessos musicais a que somos remetidos com esta música. Então, será que poderíamos pensar em alguma outra possibilidade que esta música massiva traria a cada sociedade e, mais especificamente, em cada contexto social onde é executada insistentemente? Seria uma música inclusiva, a despeito da má qualidade sonora, unindo o gosto de certas camadas sociais, sobretudo populares? Expressaria este gosto ideologicamente formatado ou formas de vidas e de pensar? Ou serviria somente para o rebolado e para o prazer descompromissado? E assim o for, que mal haveria nisso? Talvez o “toca ou não toca”.
São portanto, dois lados da moeda: o modo como esta música é feita e divulgada, o músico que não toca e que é plasticamente construído, cujo aspecto considero execrável, e a forma como as pessoas interagem socialmente com esta música e com este músico.
Por outro lado, nas últimas respostas de Adérito, leio a argumentação de que esta música moçambicana de nada teria de moçambicana, apenas o fato de ser feita no País , sem refletir essencialmente a identidade cultural. No caso brasileiro, e aí não tenho conhecimento para fazer um razoável paralelo com a realidade moçambicana, poderíamos refletir primeiro sobre o que é “a” identidade cultural e se um País pode ser expresso apenas por uma única (a redundância é proposital) identidade cultural (e musical) ou por várias? Tal identidade seria aquela atrelada às nossas tradições? E nossas tradições são estáticas ou criadas e reinventadas? Estou pensando se um sapato envernizado deixa de ser um sapato?
Estou pensando quando ouço um típico samba de roda, tradicionalmente tocada no acústico com viola, voz e percussão, que expressa a dita tradição “originária” de um tipo de samba, se este samba acústico se eletrifica, ele deixa de expressar uma identidade cultural brasileira? Ou a tradição se adequou ao pós-moderno? E de forma foi feito? Sobre quais critérios se envernizou o sapato?
Gostaria de usar a reportagem postada para refletir sobre uma questão mais complexa para além do dó maior: o lugar, o papel e a responsabilidade da arte (artistas) na contemporaneidade, enquanto porta-vozes de identidades plurais. Ou, invertendo o pólo, o lugar, o papel e a responsabilidade dos que analisam o produto final da arte (e os artistas) nas sociedades plurais.
E, no mais, torcer para conseguir alguma gravação de Adérito Gomate na net!
Um abraço,

Patricio Langa said...

Cara Sueli.
Excelente a sua reflexão. Este assunto é deveras complexo.
Penso que há várias coisas em questão. A concepção e ou definição de música. A questão bem colocada pela Sueli da identidade nacional e cultural dos produtos culturais e todos os relativismos e ou essencialismos que ai se cruzam. A questão dos interesses comerciais em jogo, desde a sobrevivência do artista até aos publicidade de produtos e serviços das multi-nacionais. Enfim, são variadíssimas questões mesmo que se colocam. Não penso que existam diferenças substâncias na forma como o problema se coloca aqui em Moçambique e no Brasil. Tenho alguns textos escritos sobre este assunto. Recordo-me de um debate que durou semanas em 2005 com um bloguista sobre a Identidade Cultural da Música Moçambicana. Esse debate terminou com as partes acordando em discordar. Eu defendia que não existia música moçambicana de “raiz” e a outra parte defendia o contrário. O debate foi interessante, do meu ponto de vista, porque saímos com uma maior compreensão da complexidade da questão. Vou tentar direccioná-la para esse debate colocando o seu texto em destaque.
Obrigado pelo excelente comentário.

Sueli Borges said...

Estimado Langa, concordo que é problemático assumir que exista uma música de raiz.
Agradeço pelo possível redirecionamento do texto e aguardo o debate.

Abraço,

freefun0616 said...

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