Saturday, November 24, 2007

O regresso cybernético a Xai-Xai, com uma lágrima no canto do olho!


O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáceis, e pessoas – eu acrescento lugares – incomparáveis . [Fernado Pessoa].

Xai-Xai é esse lugar, para mim!


Actual estágio do futebol é preocupante - diz Mansur Daúde, figura que esteve durante 30 anos à frente dos destinos do Clube de Gaza
ESTEVE à frente dos destinos do Clube de Gaza lá se vão três décadas. De um simples e modesto técnico de contas virou um empresário de renome na indústria hoteleira, detentor de um concorrido complexo turístico na praia de Xai-Xai, onde reside e trabalha. Pela sua postura como homem pronto a ensinar e a ajudar o próximo, conheci nas minhas relações, apenas dois grandes homens, que infelizmente já não se encontram entre nós, refiro-me a Bachir Calú e Shabir Khan, desportistas e gente do mundo de negócios, que deram muito de si, amando e desenvolvendo a pátria. Depois de uma verdadeira maratona, foi então possível entrevistar Mansur Daúde, o carismático presidente do Clube de Gaza, que decidiu em Março deste ano ceder lugar ao empresário Nuno Fonseca, para dedicar mais tempo à família, à sua saúde e aos negócios. Nesta entrevista, que teve lugar na luxuosa e confortável viatura, várias vezes interrompida, para ele atender àquilo que foi designado de oportunidades inadiáveis de negócio, Mansur Daúde, carinhosamente tratado no meio desportivo por grande presidente, retrata o seu percurso como dirigente, os momentos áureos da sua colectividade quando teve uma excelente prestação no “Nacional” de futebol, e particularmente a Taça de Moçambique conquistada, no período em que a equipa estava sob a batuta de Joaquim Alói. Dentre outros assuntos, o nosso entrevistado manifesta o seu desapontamento pelo facto de as grandes empresas se limitarem a patrocinar a actividade desportiva na capital do país, em detrimento dos clubes provinciais que se encontram numa situação bastante debilitada para manter vivo o movimento desportivo nas suas regiões. Eis os extractos mais significativos desta conversa.


Maputo, Sábado, 24 de Novembro de 2007:: Notícias

NOTÍCIAS (NOT) – Afinal, quem é mesmo Mansur Daúde?

Mansur Daúde (MD) - Nasci em Manjacaze, onde fiz os estudos primários, tendo me transferido em 1967 para a cidade de Maputo. Em finais de 1968 estive em Quelimane por um período de pouco mais de um ano, para depois fixar-me definitivamente em Xai-Xai, decorria o ano 1971, e trabalhei nesses sítios todos como funcionário público, exercendo as funções de técnico de contas, uma actividade que continuei a abraçar com muito carinho, apesar de hoje ser empresário ligado à indústria hoteleira. É, sem dúvidas, uma área bastante apaixonante, que encorajo a juventude a trilhar por ela, porque nos obriga a uma disciplina de vida muito rigorosa.

NOT - Mas o que lhe moveu para o mundo do desporto e em que ano isso aconteceu?

MD - Gostaria de dizer em primeiro lugar que sou um Sportinguista ferrenho, e quando chego a Xai-Xai, ido de Quelimane, o meu director comercial na antiga empresa A.J. da Costa, onde posteriormente passei a trabalhar, era do Clube de Gaza, devido à minha paixão pelo futebol e particularmente pelo Sporting que era seu clube de paixão, este acabaria por me convidar para fazer parte dos corpos directivos do Clube de Gaza que era na altura a maior agremiação desportiva, isso em 1973.
Pouco tempo depois veio a independência nacional. Este um dos maiores marcos da minha vida, e na sequência disso aconteceu aquela saída maciça dos portugueses que eram os donos do Clube de Gaza. Eu e uns outros poucos moçambicanos iniciamos uma grande campanha de angariação de sócios para a colectividade, isto nos finais de 1974.
Realizaram-se as eleições. Eu fui indicado vice-presidente do Clube de Gaza, tendo como presidente o Liberato Fragoso, que muito cedo viria a abandonar o cargo, por não aguentar com a pedalada. Solicitam-se eleições e é quando nessa altura fui eleito presidente, cargo que exerci até Março do ano em curso, portanto qualquer coisa como 30 anos à frente dos destinos desta grande agremiação desportiva.


ERA PRECISO UMA COMPETIÇÃO MAIS ADULTA E COMPETITIVA


Maputo, Sábado, 24 de Novembro de 2007:: Notícias

NOT - Fale-me então do que foi todo esse percurso à frente do Clube de Gaza, sobretudo a forma como esta actividade era encarada por todos aqueles que durante este período trabalharam ao seu lado.
MD - O Clube de Gaza foi sempre um grande clube, mas a grande preocupação, particularmente a partir da década 80, era de elevar a colectividade a um nível de competitividade nacional.
Aliás, logo após a minha vitória eleitoral, a prioridade foi sempre trabalhar arduamente para levar o Gaza a competir de igual para igual com os grandes clubes, particularmente os da capital do país. Daí que tive o atrevimento de ir buscar um técnico que na altura acabava de se formar na antiga República Democrática Alemã. Refiro-me ao conceituado treinador Palma Pinto. Foi efectivamente o primeiro técnico vindo de fora da província de Gaza que por nós contratado logo após a proclamação da independência nacional, tudo isto imbuídos no espírito de elevar o Gaza a outros patamares, se a memória não me falha entre 80 a 81. Porque a experiência indicava francamente ser bastante promissora, decidimos ir buscar com os mesmos objectivos, técnicos nacionais consagrados como José Bazar, Cândido Coelho, Joaquim Alói, este último que deu a glória ao clube com a Taça de Moçambique, que arrecadámos com todo o mérito.
Por essas ocasiões, fomos às fases derradeiras da Taça em pelo menos quatro ocasiões e vencemos a supertaça e não fomos campeões nacionais, muito embora não se possa falar da pessoa que protagonizou este triste espectáculo, porque já faleceu, refiro-me a Fernando Luís, que acabaria por ser erradiado da arbitragem nacional.
Para aqueles que já não se lembram, aconteceu exactamente na penúltima jornada do “Nacional” um facto insólito em que nos foi anulado um penalte convertido quando apenas faltavam escassos dois minutos para o final da partida, num jogo com o Costa do Sol. O árbitro simplesmente anular o golo e mandou executar um pontapé de baliza, uma atitude que ainda não tinha ouvido em nenhuma parte do mundo.
São águas passadas, mas foi graças a esse projecto que levamos o Gaza para muito mais longe, viajando pelo país todo, espalhando o perfume do nosso futebol e sobretudo o bom nome da colectividade. Com todas as grandes equipas sempre soubemos passear a nossa classe e isso era efectivamente muito bom, para se acabar com o mito de que o bom futebol residia apenas no Maputo.
É por isso que aos poucos as províncias foram mostrando que esse mito não correspondia à verdade, estou a falar das maravilhas de Chimoio trazidas através do Textáfrica, do Téxtil de Púnguè, na Beira, do Ferroviário de Nampula, e do Nova Aliança, em Inhambane. Todas estas equipas, incluindo o Clube de Gaza, sempre competiram de igual para igual com os chamados grandes de Maputo.


APOIO MULTIFACETADOS


Maputo, Sábado, 24 de Novembro de 2007:: Notícias

NOT - Mas donde vinha toda essa força anímica?
MD - Nessa fase tínhamos obviamente uma outra vantagem. Tínhamos muitos carolas, dirigentes com muita força e muito entusiasmo para trabalhar e trabalhávamos juntos, coisa que hoje falta aos clubes. Por outro lado, tínhamos um considerável apoio por parte dos empresários moçambicanos com negócios em Xai-Xai. O cenário, como bem sabe, hoje é totalmente diferente aqui em Xai-Xai, onde está sediado o clube. Estes desapareceram economicamente, pese embora o facto de estarem paulatinamente a se reerguerem de todos os traumas provocados pela guerra e pelas cheias recentes que, digamos, vieram dar o golpe final a esta classe empresarial moçambicana.
Como se não bastasse, as próprias instalações do clube, que sempre produziram algum rendimento, ficaram afectadas pelas cheias e para nos refazermos tivemos um pequeno apoio do Fundo de Promoção Desportiva que deu para reabilitar o campo polivalente.
Contudo, outras infra-estruturas, como é o caso do centro social, uma importante fonte de receitas, continuam destruídas, e como se não bastasse, recentemente ficámos sem a nossa sala de cinema, uma instalação que havíamos arrendado à Igreja Universal do Reino de Deus, que sem nosso consentimento viria a colocar um dos seus crentes a pernoitar no palco, onde ele usava uma vela que viria a provocar aquele grande incêndio, que destruiu por completo aquele grande património do clube.
Tratou-se de uma situação triste, mas que a justiça não quis fazer justiça, dando razão à igreja, alegadamente porque não tínhamos o contrato registado em notário e porque o clube não estava registado oficialmente, o que não constitui verdade, porque o Gaza foi criado em 1953, e nós temos o Boletim da República que prova o seu registo. Isso deixou-me muito desgostoso e sobretudo muito desanimado.
Como se não bastasse, não temos hoje apoio nenhum por parte dos empresários e do próprio governo, que nos convidou, aliás no início da temporada desportiva do ano passado, através da Direcção Provincial da Juventude e Desportos, e nos exortou a elevar o nível competitivo tendo em conta o facto de a província se ter notabilizado na prática de futebol a nível nacional e mesmo fora do país.
Foi nessa óptica e porque nos parecia que havia alguma vontade política por parte da direcção de Desportos e Juventude, colocamos as nossas preocupações com destaque para o assunto relacionado com o pagamento de prémios de jogo e apoio em transporte para as deslocações dos atletas durante a competição da segunda liga.
A directora Ana Wate disse na altura que nos convidara porque existiam efectivamente apoios da parte do governo, numa primeira fase para custear despesas de transporte.
Aproveitamos para explicar à directora que o sucesso que se viveu noutros tempos resultava do acarinhamento aos atletas, da criação de condições condignas para que estes possam fazer o seu trabalho, com zelo e profissionalismo.
Explicamo-la que era necessário trabalhar-se em conjunto, por forma a se adicionar algo ao salário dos atletas, através do prémio de jogos, que constituem, sem dúvidas, um grande estímulo para que estes se empenhem cada vez mais. Aliás, esta foi uma das grandes razões para as retumbantes vitórias do Clube de Gaza.

O capitão Efraime (falecido) ergue a Taça de Moçambique conquistada pelo Clube em 1990

DESAPONTADO COM A DPJDG

Maputo, Sábado, 24 de Novembro de 2007:: Notícias

NOT - E quais eram na altura as empresas ou outras instituições que prestavam esse apoio?
MD - O Sistema de Regadio do Baixo Limpopo, a Empresa Serralharia Fuel, COGEME, SOCOMA que eram empresas do senhor Shabir Khan, tínhamos vários comerciantes como o Etech, o Pinto Ferreira, pessoalmente dava meu contributo financeiro, porque as minhas empresas na altura respiravam muita boa saúde.
Voltando ainda para este assunto da directora provincial, quando eu começo a exigir o tal transporte que nos tinha prometido, e isso não aconteceu só com o Clube de Gaza, mas com outros clubes aqui, tivemos que solicitar os transportadores dentro da confiança que nutrem por nós, no sentido de se proceder o pagamento numa fase posterior, por estarmos a aguardar que a directora Ana Wate soltasse os valores prometidos para esse efeito, o que infelizmente não viria a acontecer, mas para o nosso espanto ela apareceu na imprensa a dar a entender que estávamos exigindo algo que aparentemente não nos havia prometido.
Usou inclusivamente estes meios para me fazer acusações, o que me deixou aborrecido, pelo facto de como homem, empresário e desportista gozar de uma grande reputação que não pode ser posta em causa assim de ânimo leve. Esta situação chegou inclusivamente a afectar a minha família. O que aconteceu foi uma autêntica falta de consideração, por parte da directora dos desportos em Gaza.
A atenção do pelouro deve estar virada para questões que concorram para o desenvolvimento e não para brincadeiras ou tentativas de denegrir a imagem dos que efectivamente trabalham.
Repare, por exemplo, que o Clube de Gaza tem um campo polivalente onde se poderia praticar muito bem o futebol de salão, andebol, basquetebol entre outras actividades, mas não se faz nada, e é uma grande pena, porque não temos meios nenhuns, e infelizmente as empresas que actualmente patrocinam normalmente o desporto, tudo fica na cidade de Maputo. Empresas como a mCel, Vodacom, Coca-Cola, 2M facturam em grande na província, mas nada fazem pelo nosso desporto, pois as atenções estão viradas única e exclusivamente à capital do país, o mesmo diria em relação a uma série de bancos que aqui operam.

FAZER DESPORTO CUSTA MUITO DINHEIRO

Maputo, Sábado, 24 de Novembro de 2007:: Notícias

NOT - Num passado recente, mesmo com dificuldades, a qualidade de futebol que era praticado na altura pode-se dizer que estava a uns furos acima mesmo do futebol hoje praticado no “Nacional”. Afinal o que se passa?~
MD - Vou concretamente á realidade que se viveu em Gaza, porque efectivamente a queda que se assiste hoje se deve em grande medida à falta de incentivos à modalidade, porque a província de Gaza, não sei porque razão foi a mais atingida pela guerra dos 16 anos, daí que os empresários ficaram totalmente debilitados e muitos deles desapareceram ou simplesmente viraram negociantes em barracas, devido a uma realidade que lhes foi imposta.
Quando a economia é fraca, dificilmente o desporto pode progredir. É exactamente o que se pode assistir hoje. Dificilmente se pode ter a mesma qualidade enquanto não houver dinheiro e outros incentivos para esse efeito.
NOT - Sem querer tirar mérito a todos os outros que por aqui passaram, quais foram os treinadores que mais o marcaram?
MD - Vou lhe ser franco, tive uma grande equipa em 1981 com Palma Pinto, uma grande equipa nos tempos de Malagueta, do Boi, Nicolau, Adamo, Nasser. Era, sem dúvida, uma equipa de luxo, mas devo dizer que isso era fruto do trabalho essencialmente feito nos escalões de base, e o Gaza sempre teve essa tradição. Vivi momentos de orgulho e de muita confiança quando esteve aqui o Cândido Coelho, e muito particularmente a presença da figura de Joaquim Alói, uma pessoa muito querida pelas glórias que deu à província e por essas alturas foram nomes sonantes o Efraime, os irmãos Bobo, o goleador Dinis, o Raul (Matthaus), Matusse entre outros que brilhantemente marcaram a sua presença no clube.
Continua na página desportiva de 2ª-feira
VIRGILIO BAMBO

Heróis do futebol são aqui respeitados (conclusão).

Eis a conclusão da entrevista com Mansur Daúde (ex-presidente do Clube de Gaza), cuja primeira parte publicamos no (Primeiro Plano) do passado sábado.

Maputo, Segunda-Feira, 26 de Novembro de 2007:: Notícias

NOT - Todos os técnicos a que se referiu estão fora de Gaza. Haverá, mesmo assim, algum relacionamento com eles ou não?

MD - É claro que as nossas relações continuam muito boas, são figuras que marcarão para sempre a sua relação amistosa que criaram por estas bandas, são pessoas muito queridas pelos desportistas de Gaza. Aliás, eu sou ainda chamado por eles de o grande presidente, isso é um grande orgulho para mim, por eles reconhecerem que tiveram um presidente que soube com eles colaborar, porque muita gente pensa que a direcção do clube deve mandar no técnico, deve impor quem deve ou não jogar.

Tínhamos uma virtude que era a de acompanhar e apoiar a todo o momento os nossos técnicos na hora própria em tudo o que necessitassem para que o seu trabalho pudesse render e nas segundas-feiras, depois dos jogos com ele nos sentávamos como amigos, num ambiente totalmente informal, para avaliarmos o jogo, onde dávamos as nossas opiniões, sem nenhum tipo de imposição e no caso concreto de Joaquim Alói, era uma pessoa de uma inteligência peculiar que aproveitava muito do bom que se falava nesses encontros informais com o técnico.Not. - Fala com um sentimento saudosista do passado glorioso do Clube de Gaza, na sua óptica que tipo de milagres, então, poderão contribuir para se retirar o Gaza da actual crise?

MD - A banca podia muito bem constituir uma eventual saída airosa se nas suas políticas incluísse a componente sócio-cultural, que é o desporto. Devia haver uma linha nos bancos, como acontece noutros países, para o financiamento dos clubes, enquanto não se fortalecer a classe empresarial local.
Contudo, com esta abertura que o nosso governo tem estado a demonstrar, quer direccionar as suas atenções ao desenvolvimento dos distritos, ou seja a exploração das suas potencialidades, eu acredito que a primeira grande surpresa virá sem dúvida de Chibuto, porque acredito que o mega-projecto das areias pesadas terá um peso na economia de Chibuto e de Gaza em geral, incrementando-se assim dentre outras áreas a desportiva.
Esperança pode ser aguardada por parte de Chókwè, porque o governo está a fazer enormes investimentos que nos próximos tempos irão certamente mudar a vida naquela região, e consequentemente trazer vantagens para o apoio que merece o futebol, uma vez que aquela região, para além de possuir infra-estruturas invejáveis, tem uma grande tradição na prática do futebol.
Outra dificuldade, e esta é geral, reside na falta de dirigentes desportivos, porque um dirigente tem que ser uma pessoa que se aplica a sério sem olhar para as dificuldades e muito menos sem pensar que disso possa tirar vantagens pessoais, e não se pode pensar também que, por exemplo, um presidente de um clube sozinho pode resolver por si os problemas. É necessário que haja uma interacção entre todos os sectores que compõem a direcção de um clube.
Quero reafirmar que em primeiro lugar devem aparecer pessoas com vontade de trabalhar. Exemplo disso foram os momentos altos do Clube de Gaza, nós tínhamos um elenco muito forte e com objectivos muito claros.

CONQUISTA DA TAÇA ORGULHO DE TODOS GAZENSES

Maputo, Segunda-Feira, 26 de Novembro de 2007:: Notícias

NOT - Quais foram para si os momentos que mais lhe marcaram como dirigente ao longo destas três décadas como dirigente desportivo?

MD - Os melhores momentos para mim, posso afirmar terem sido sem dúvida o período de 1980 a 1995, primeiro quando eu trouxe para cá o Palma Pinto, notou-se muito uma grande subida de qualidade do nosso futebol, a partir daí, os conhecimentos científicos adquiridos por Palma Pinto na antiga RDA foram aplicados com muita mestria e isso espevitou os outros clubes a irem atrás da qualidade que o Gaza passou a partir daí a ostentar.
Foi assim que o futebol começou a crescer não só no Gaza, como no Ferroviário, Desportivo, Associação Desportiva de Chókwè, apenas para citar alguns exemplos e isso foi muito bom.
Olha, mesmo na fase crítica da guerra, e isso me encatava muito, as pessoas viajavam dos distritos sob todos os riscos para assistir futebol. Os campos andavam cheios, porque já havia futebol de muita qualidade.
Encantava-me naquela altura o empenho dos jogadores, que sabiam assumir os seus compromissos através de uma boa conduta dentro e fora dos campos.
Contudo, o momento mais alto que não só prestigiou o Gaza, como toda a província, foi sem dúvida a vitória que obtivemos na Taça de Moçambique em 1990, o governo provincial, a sociedade em geral prestaram uma merecida homenagem aos bravos rapazes treinados por um excelente técnico de futebol que se chama Joaquim Alói.
Essa vitória permitiu que a partir desse momento o futebol fosse olhado de outra maneira, particularmente pelos chamados grandes de Maputo.NOT - E qual foi o seu pior momento?

MD - Marcou-me a mim e a todos os amantes de futebol a forma baixa e vergonhosa como nos foi retirada a possibilidade de pela primeira vez ganharmos o título de campeão nacional de futebol. Estranhamente o árbitro Fernando Luís anulou o golo que iria ditar a nossa consagração como campeões nacionais.
Esta hegemonia oriunda das províncias e aqui não estou falando apenas do Clube de Gaza, mas também de outras boas colectividades espalhadas pelo país, o que já constituía algo de preocupação para o comodismo que desaparecera na capital do país, que íam às províncias apenas para cumprir calendário, fez com que de forma inexplicável, os clubes de Maputo, isso um pouco depois de 1995, decidissem interromper os campeonatos nos moldes anteriores, alegadamente porque não tinham condições para se deslocarem às províncias. Isto foi mau para o futebol de Gaza e das províncias.
Essa paragem apenas serviu para fragilizar os clubes das províncias e recordo-me que na altura o presidente da Federação Mário Guerreiro criticou-nos por termos caído na fita dos clubes da capital. Enfim, é mesmo o preço de ser provinciano.

ESTAREI SEMPRE LIGADO AO DESPORTO E AO GAZA
Maputo, Segunda-Feira, 26 de Novembro de 2007:: Notícias

NOT- Mudando de assunto, como conseguia conciliar a vida agitada de negócios, família e futebol?

MD - Durante o período em que dirigi o desporto não tive grandes problemas porque os negócios rendiam tanto e possuía uma excelente equipa de colaboradores e tinha a família sempre ao meu lado. Para as coisas funcionarem bem, o segredo estava na dedicação às causas a que me havia entregue na altura. Felizmente tudo me saía à contento. Tinha tempo porque os meus negócios estavam todos sediados aqui no Xai-Xai, portanto facilmente conseguia gerir todas estas actividades.
Contudo, depois das cheias, as coisas começaram a complicar-se de certo modo, eu tinha que me desdobrar mais à busca de apoios para que efectivamente o Gaza se pudesse manter firme.NOT - Apesar de aparentemente ter abandonado o Gaza e o desporto de uma maneira geral, a sociedade que sempre o conheceu e reconhece as suas qualidades. Acha que devia continuar a dar o seu contributo, não pensa em regressar ao mundo da bola?

MD - Eu estando fora continuo a prestar o meu contributo. O Clube de Gaza está intrinsecamente ligado à minha vida. O desporto é o meu mundo virtual. Estou a observar um repouso, tanto é que andei com problemas de joelho e tive que ser operado na África do Sul. Felizmente com muito sucesso. Localmente tenho estado a receber todo o apoio por parte dos jovens e extremamente competentes fisioterapeutas afectos ao Hospital Provincial, em Xai-Xai.
Aliás, eu é que convidei o novo presidente Nuno Fonseca para continuar com o trabalho por nós iniciado, foi necessário muito trabalho para o convencer, mas lamento o facto dele não estar a receber apoios para a materialização do almejado projecto de recondução do Gaza à sua real condição no futebol nacional. Pessoalmente tenho me empenhado na perspectiva de definitivamente voltar-se a virar mais uma página na história do Clube de Gaza.NOT - Como tem passado os seus momentos livres?

MD - Conversando com amigos sobre futebol e sobre a vida de uma maneira geral. Gosto de escutar boa música.NOT - Mas que música, mesmo?

MD - Sou fã de toda a música desde que tenha qualidade, mas assim em especial o grande Roberto Carlos, a Alcione, estes do Brasil. No meu país admiro muito grupos que foram uma grande referência, concretamente o Hokolokwe, João Domingos, Som Livre, assim como os grandes monstros da música moçambicana Wazimbo, Mingas e da nova geração aquele moço que trabalhou na TVE, o MC Roger, gosto da Dama do Bling, do Ziqo, Lizha James. Nós temos aqui músicos de muita qualidade que precisam apenas de ser acarinhados.

Olha, estava a esquecer-me de uma verdadeira fera na música, o grande João Paulo, aquele senhor tem uma voz que vale muito, são raras aquelas vozes no mundo da música. Estou satisfeito, porque vi no jornal que ele está recomposto e foi salvo pelos médicos daqui de Xai-Xai.
Peço a quem de direito para que se faça um bom acompanhamento a esta figura que tanta falta faz. Ajudem-no no que for possível para que ele possa voltar aos velhos tempos em que agradava todo o mundo com a sua belíssima voz.
Virgílio Bambo