Wednesday, November 7, 2007

A procura de poder fora do poder: fórum dos ex-presidentes!

Ex-presidentes africanos criam fórum continental [ O PaisOnline].
02/11/2007

Vinte e quatro antigos presidentes e chefes de governo africanos criaram na passada quinta-feira, em Maputo um Fórum, em que os antigos líderes do continente pretendem contribuir para o fim da "marginalização económica e política de África". Ao enunciar os objectivos do fórum, o ex-presidente moçambicano Joaquim Chissano, mentor da ideia, afirmou que a iniciativa é uma plataforma para a "participação dos antigos líderes africanos no desenvolvimento político, económico e social de África". "Após uma reflexão, tornou-se evidente que a nossa experiência e perícia podem contribuir melhor para o desenvolvimento do nosso continente", sublinhou Chissano. O Fórum quer também unir-se ao desafio de "assumir as iniciativas concebidas e financiadas em primeiro lugar pelo continente africano", numa altura em que a África "está a experimentar um sentimento de fadiga no que respeita às iniciativas externas". Joaquim Chissano sublinhou que os ex-presidentes e os antigos chefes de governo africanos "têm a obrigação de colocar a África em primeiro lugar, posicionando o continente como sua primeira prioridade". Chissano indicou que irão integrar o Fórum antigos chefes de Estado e de governo "com credenciais democráticas" e um "passado na promoção e sustentação da governação democrática" nos seus próprios países, sub-região e no continente. Por seu turno, o actual presidente moçambicano, Armando Guebuza, elogiou a ideia, destacando que vai permitir o aproveitamento das "ricas experiências que os antigos líderes africanos possuem na luta contra os actuais desafios com que o continente se debate"."Cada um deles tem ricas experiências de luta por uma ordem internacional mais justa, equitativa e democrática e, com este gesto, pretendem dizer que nunca se diz missão cumprida quando se tem de servir o povo", sublinhou Guebuza. O ex-chefe de Estado sul-africano Nelson Mandela afirmou na ocasião que os antigos líderes do continente não pretendem criar polémicas com os actuais governos africanos, mas colocar à disposição das comunidades do continente a "sua sabedoria e experiência na resolução dos problemas que enfrentam". "Os antigos chefes de Estado, como os anciãos nas culturas africanas, têm autoridade moral para sugerir caminhos na busca de melhores condições de vida para África", enfatizou o primeiro presidente negro da África do Sul. Dos 24 ex-estadistas que aderiram ao Fórum, apenas 16 participaram hoje na reunião constitutiva do Fórum dos Antigos Presidentes e Chefes de Governo de África. [FIM]
###

Intermediários do futuro?


Na minha casa quem manda é a minha mulher, mas quem manda na minha mulher sou eu” (Frederick Chiluba, ex-presidente da Zambia).

Este fórum é diferente daquele que já havia juntado os ex-presidentes há algum tempo em Maputo ou é coisa nova? Alguém sabe me dizer? É que segundo a notícia acima o fórum foi criado na quinta-feira dia 1 de Novembro de 2007. Alguém por favor pode me explicar isso? É um fórum diferente daquele que já havia sido criado, também por iniciativa de Joaquim Chissano ou é o mesmo que está a ser oficilamente reconhecido? Por quem? É um órgão consultivo? Do estado? Do governo? Dos Governos africanos? De quem e de quê? É um grupo de mediadores, com ou sem mandato? E de quem? Que estatuto ou enquadramento jurídico-legal têm no nosso sistema político nacional e continental? É uma espécie de Organização Não-Governamental, do tipo Juntos Pela Paz, Pró-Paz, o que é efectivamente esse fórum dos ex-presidentes?

De qualquer das maneiras, sendo novo ou o antigo, essa história de criar fóruns de ex-presidentes não me parece boa coisa. Neste texto vou desenvolver uma espécie de teoria de conspiração em relação a esse fórum, obra do nosso “bem-amado” ex-presidente.

Das Boas Intenções.

o “participação dos antigos líderes africanos no desenvolvimento político, económico e social de África”.

o “contribuir para o fim da "marginalização económica e política de África"

Um fórum para contribuir para o “fim da marginalização económica e política de África”. Parece ser uma “boa-intenção”. Mas é boa para quem? Em princípio cada um de nós, africanos e não só, devemos contribuir para o desenvolvimento político, económico e social dos nossos países e por extensão do continente. É uma maneira de nós individual e colectivamente sairmos das margens seja lá do que fôr, se é que somos des-marginalizados. Não há nada contra as “boas-intenções”, apesar de o inferno estar cheio delas. Se dependesse das “boas intenções” o continente africano há muito que se tinha liberto das margens a que se diz estar votado pela mão dos que nos tem estado a ajudar a desenvolver há mais de três décadas. Precisamente as mesmas três décadas em que o continente esteve nas mãos e sob os desígnios desses ex-presidentes que formam o fórum hoje. Não desmarginalizaram o continente durante seus mandatos ( vários diga-se), enquanto estavam no poder e querem fazê-lo agora! Tudo bem, antes tarde do que nunca. Mas agora qual é o sentido mesmo das suas acções bem intencionadas?

Neste mundo cheio de “boas-intenções” o que se nos têm dado a observar é um processo de desenvolvimento cada vez mais sinuoso, mais complexo e onde os maiores beneficiários das “boas intenções” são justamente os bem intencionados não os ajudados. Os que nos querem ajudar de alguma maneira a desenvolver, por exemplo, resolvem os problemas dos seus sistemas financeiros que têm dinheiro a mais emprestando-o a nós com juros que só hipotecam o nosso futuro; resolvem o problema dos seus desempregados que são enviando-os para os nossos países como especialistas e pagos com o dinheiro que nos emprestaram. Criam muitos problemas na gestão que nós temos que fazer das nossas vidas porque temos que contar com a presença deles.

Passasse mais tempo a debater como renovar financiamentos, como justificar as contas, como pedir mais dinheiro (Clube de Paris o quê é? Já repararam quanta ginástica têm que se fazer para ir pedir dinheiro?), como tornar os projectos mais locais, enfim a negociar os termos da relação de co-operação, do que a identificar os verdadeiros nós de estrangulamento do nosso desenvolvimento. Desenvolvimento é um assunto complexo, e a melhor maneira de abordá-lo talvez não seja questionando as intenções dos que nos querem ajudar. Esse caminho não nos leva muito longe. Como vamos saber quem é bem intencionado mesmo ou não? Talvez o caminho fosse questionar o próprio desenvolvimento enquanto possibilidade e desiderato. Mesmo assim, este não seria espaço nem altura certa, pois propus-me algo diferente.


O assunto aqui não é desenvolvimento é o fórum dos ex-presidentes que tem na sua frente o nosso ex-presidente. Quando os ex-presidentes africanos, que sugerem a criação desse forúm dos ex-presidentes, estavam no poder ninguém lhes chateiava com essas ideias. Governaram a vontade. Agora, fora do poder querem continuar a influênciar de forma in-directa o curso e o rumo dos processos nos seus países e no continente. Isso em sí não é problemático, uma vez serem cidadãos desses países. Mas como cidadãos, agora simples cidadãos, ex-presidentes, deviam usar os mesmos canais que os demais cidadãos usam. Eles não são seres especiais só por que foram ex-presidentes. Estão a exigir uma atênção especial e um lugar de poder muito forte. Pior do que isso é quererem se colocar no meio entre os doadores internacionais e os governos no poder, aparentemente por que os primeiros perderam credibilidade, e os governos no poder não têm experiência. Estão a ver o lugar de poder que estes ex estão a reclamar para si?

§ “África está a experimentar um sentimento de fadiga no que respeita às iniciativas externas".

O Diagnóstico até pode estar correcto, mas a solução do problema talvez não passe por essas pessoas que conduziram o continente para a intervenção e dependência externa hoje se reclamarem internalistas. É interessante analisar este aspecto e relacioná-lo com a actual postura do nosso ex-chefe de estado em relação a comunidade internacional. De repente tornou-se num de seus maiores críticos. Como escrevera aqui, vive botando a “boca no trombone”. Esta postura até pode ter um aspecto positivo, na medida em que são pronunciamentos de alguém com conhecimento de causa. Afinal foi das suas mãos que essas instituições tomaram o país. No entanto, não quer dizer que é pelas suas mãos que vamos tê-lo de volta, resgatá-lo.

§ O Fórum quer também unir-se ao desafio de "assumir as iniciativas concebidas e financiadas em primeiro lugar pelo continente africano".

Chissano e seus pares sabem muito bem que essa ideia de iniciativas concebidas e financiadas localmente é uma pura ilusão. A primeira coisa que a NEPAD fez, iniciativa aparentemente concebida localmente, foi estender a mão a comunidade internacional pedindo dinheiro. O parlamento Pan-Africano, outra ilusão, é o órgão que mais abstenção regista dos seus membros nas suas sessões porque não há grana. É verdade que existe algum cansaço em relação ao fracasso que tem sido todos esses anos de intervenção externa em nome da ajuda sem resultados palpáveis. Uma maneira de resolver esse problema para a comunidade internacional é transferir, claro, a responsabilidade do fracasso para os próprios africanos. As ideas de 'ownership', 'partnership' (apropriação e parceria) são as metáforas inventadas para esse efeito.

§ “Chissano indicou que irão integrar o Fórum antigos chefes de Estado e de governo com credenciais democráticas" e um "passado na promoção e sustentação da governação democrática".

Só faltava esta ideia brilhante agora. De certeza que os critérios para se ser considerado democrata e “bom-governante” são aqueles do nosso magnata continental, nascido no reino unido. O big-brother Mo[re]! Sugiro a criação do Mo[re]Ibrahim barómetro de “democracia e boa-govbernação”. Alías já deve existir, afinal como se achou o vencedor? Com as credenciais do tipo Mo[re] Ibrahim[s] esses presidentes vão passar as ser interlocutores intermédiários entre os donos da mola e os governos africanos, dando o revestimento de iniciativa local aos projectos. Isso é grave! Para que se criou a NEPAD, a UA, o parlamento Pan-Africano? Não são esses forúns legais que devem tratar dos problemas dos povos africanos? Não são esses que devem formular inicativas locais? Os blocos regionais de integração económica para que servem?

§ "Após uma reflexão, tornou-se evidente que a nossa experiência e perícia podem contribuir melhor para o desenvolvimento do nosso continente", sublinhou Chissano.

§ O ex-chefe de Estado sul-africano Nelson Mandela afirmou na ocasião que os antigos líderes do continente não pretendem criar polémicas com os actuais governos africanos, mas colocar à disposição das comunidades do continente a "sua sabedoria e experiência na resolução dos problemas que enfrentam".


Se os ex-presidentes têm essa experiência toda acumulada e muitos deles conseguiram doutorados honores causas durante os seus mandatos por que não concorrer com as suas credênciais para dar aulas em algumas universidades e difundirem seus conhecimentos? Porque não dedicar o tempo que lhes resta de vida escrevendo livros, de suas ideias políticas e experiências de governação, e até de suas próprias autobiografias. Nós havemos de ler e aprender dessas fontes. Alias está ai uma “boa” utilidade para a mola do Mo[re] Ibrahim! Esta aí também uma maneira de não criar polémicas com os actuais governos no poder, fazendo-lhes sombra, atrapalhando-lhes. Ajuda que não foi solicitada atrapalha. É solução para um problema que não existe. Esse fórum, até prova contrária, é isso mesmo, mais uma solução problemática. Essa ideia de fóruns dos ex-presidentes só vêem complicar o xadrez político africano. Em que fóruns é que os ex-presidentes vão participar? Vão ser enviados das Nações Unidas para as zonas de conflitos? (Aí há mais mola!). Que tipo de deliberações vão fazer? À quem vão endereçar suas ideias e opiniões experientes? A quem vão prestar contas? Não vão ser uma espécie de poder paralelo? Poder fora do poder? E com o dinheiro que amealharam durante os seus mandatos, mais as sobras de Mo[re] Ibrahim[s] têm mesmo poder suficiente para ter poder mesmo fora do poder.

Essa história dos “anciãos” na cultura africana não passa de um argumento embrulhado num presente envenenado com determinismo cultural. O ancião africano deve se adaptar aos tempos modernos. O ancião africano hoje está sujeito a mesma efeméridade, precaridade e incerteza da realidade a que os demais estão sujeitos. Experiência, não são mais os anos acumulados de erros, é capacidade de inventar soluções criativas para problemas novos. Munda[ra]m-se os tempos, muda[ra]m-se as vontades, disse o poeta. Escrevam livros nós vamos lê-los e divulgá-los. Sam Nujoma, ex-presidente da Namíbia, após sair do poder voltou aos bancos da universidade para terminar o seu curso de engenharia. Quem sabe era altura de alguns terminarem os cursos de medicina e aumentar o número de médicos no país. Poderia também abrir uma cátedra de diplomacia no ISRI, como aquela de resolução de conflitos no ISPU, melhor A Politécnica. O ritmo de crescimento, a cogumelo, das nossas universidades é grande. Há espaço para se fazer meditação lá nos departementos. Não é que a universidade seja reservatório de reformados, mas o que poderia ser melhor do que dedicar-se a investigação e partilha de experiência. Ser presidente não é profissão, ser ex-presidente muito menos.