Friday, November 30, 2007

Os Pró e os Contra: ídolas que minam o debate na esfera pública Moçambicana.

Introdução

Foi Miguel Buendia – meu primeiro professor de Introdução as Ciências Sociais, na verdade de filosofia – quem me introduziu à noção de ídola. Buendia recomendara-me a leitura do Novum Organon do Filósofo Francis Bacon. Fiz a leitura através de um romance de filosofia – se não me engano o preferido de Buendia dada a insistência com que nos sugeria sua leitura – do filósofo e romancista Norueguês Jostein Gaarder. O título do romance é “O mundo de Sofia”. Um verdadeiro sucesso de venda que já passou da vigésima edição em língua Portuguesa. Infelizmente esse é mais um daqueles livros que já não faz parte da minha pequena biblióteca por conta das malditas cabeçadas. Uffff, finalmente, desabafei. Enfim, dizia que da leitura retive a ideia de que Bacon – considerado um dos fundadores da ciência moderna – estava preocupado em exorcizar os ídolas para que o conhecimento científico se desenvolve-se sob rigorosos critérios de controle, previsão e causa eficiente. Nesse sentido, Bacon identificara e tipificara os enganos da razão como sendo os ídolas. Para aquele filósofo eram quatro os tipos de enganos da razão que bloqueavam o acesso ao conhecimento “puro” a mente humana: ídolas da tribo, Ídolas da caverna e Ídolas do foro e Ídolas do teatro. Não vou dissertar sobre cada um deles aqui. Recomendo a leitura do Novum Organon ou do Mundo de Sofia para quem quiser aprofundar o assunto. Aliás, o debate sobre o papel dos preconceitos na produção de conhecimento científico já vaí muito para além das contribuições de Bacon. Aqui também não interessa recuperar esse assunto, antes que me acusem de cientismo. O que pretendo recuperar da história dos ídolas é uma espécie de preocupação análoga, que julgo existir em mim hoje, em relação ao que me parece impedir-nos de fazer um debate de ideias, digamos na falta de melhor caracterização, se não livre pelo menos consciente dos nossos preconceitos. Quer dizer um debate de ideias que nos permite recuperar e/ou re-produzir uma representação o mais fiel possível da nossa realidade. O que para Bacon seriam os ídolas que criam constrangimentos ao conhecimento pelas falácias que induziam aos sentidos, para mim são os preconceitos (ídolas) que nos impedem de aceder e avaliar os argumentos dos nossos interlocutores no debate de ideias. Já me explico. Bacon sugere que é preciso exorcizar, desalojar os ídolas através do rigor científico. Eu pretendo sugerir que é preciso exorcizar os nossos preconceitos (ídolas) através de uma atitude de critica argumentativa aberta e directa que permite a avaliação dos argumentos dos nossos interlocutores sem nos preocuparmos em saber se são pró ou contra, se são da Renamo ou da Frelimo, se são da esquerda ou da direita, se são do sul ou do norte e por aí em diante. Penso que esses sãos os ídolas que induzem, na nossa esfera pública, a falacias constantes e a incapacidade de avaliar o mérito dos argumentos dos nossos interlocutores nos debates em que nos engajamos sobre os diferentes assuntos. É sobre os idolas do pró e do contra que vou tentar debruçar-me nos próximos (não sei quantos ainda) textos.
Foto: ÁGORA