Friday, June 22, 2007

O lado sociológico de Tussito!

Tussito é como ficou popularizado o apelido do apresentador, na língua Ronga do canal televisivo privado Miramar, Samuel Matusse. Seu apelido, Matusse, é comum na zona sul de Moçambique, mas o diminutivo, Tussito, empresta-lhe um ar de exclusividade. Um verdadeiro comunicador, nos mass media, se revelou Tussito nos seus programas de diálogo interactivo naquele canal. Recordo-me do nome, de pelo menos dois, de seus programas: “Dialogando com Matusse” e “Terceira Idade”. Nunca antes ouvira alguém falar nas línguas locais com o a vontade e fluência de Tussito. Um Ronga “puro” sem o habitual intercalar com palavras Portuguesas. Dzi kanela Xizonga! Outros aspectos interessantes dos programas de Tussito são a versatilidade dos temas e as características sociológicas de seus convidados. Desde o aborto, o celibato, o roubo, divórsio, a intrigas entre famílias, enfim, tudo que cabe na categoria de problemas sociais da vida quotidiana suburbana e rural constituem tema de debate no seu programa. Aí reina o senso comum, no bom sentido do termo, o bom senso. Os seus convidados, maioritariamente, religiosos ou autoridades morais em seus colectivos imediatos e secundários (família e igreja) são dos bairros suburbanos de Maputo (Mafalala, Xipamanine, e arredores). Os guardiãs da moral duma sociedade que se queixa tanto da perda desses mesmos valores. Sempre que oiço esta ideia de perda de valores ocorre-me uma teoria que aprendi em física ainda no secundário segundo a qual: "No mundo nada se perde, tudo se transforma". Mas logo me esquecia disso e embalava-me na animosidade das intervenções dos telespectadores para comentar isto ou aquilo, para opinar. Opinar. Sim, opinar. E ai me vinha outra lição escolástica: a opinião não pensa. Pensa que sabe, mas não sabe, no entanto fala. Não sabendo, então, por que falam? “Hi mavonela ya mina” (na minha maneira de ver, igual a na minha opinião), e tocavam a comentar normativamente. Os jovens de hoje são assado e cozido, já não respeitam este e aquele custume e/ou preceito moral e por aí em diante nos mais variados assuntos. Afinal, não é proibido não ter opinião. Ai é que me enganava. É que os convidados de Tussito são experts de opinião. Produzem opinião, mesmo não sabendo. Mas ai está. O que é saber? Pergunta para muitas linhas, melhor parar por aqui. Os curiosos de certeza sabem se virar. Assim fui acompanhando, e continuo a fazê-lo sempre que posso, os diálogos de Tussito. Afinal, descobrira uma boa maneira de aprimorar mais uma língua, o Xizonga e expor-me a lógica do bem intencionado bom senso.

Hoje surpreendentemente, pelo agrado, descobri uma outra faceta de Tussito. Escreve. E, escreve bem. O artigo que vides acima é de sua autoria e foi publicado no semanário Zambeze desta semana. Tussito faz uma análise interessante da mudança de contextos sócio – políticos que tornam favoráveis ou não a censura de certas músicas. Tussito oferece-nos um quadro interpretativo para percebermos que uma música não é censurável penas pelo seu sentido ou conteúdo intrínseco, mas pelo contexto sócio-político em que esse conteúdo é interpretado e cantado. Quanto a mim, Tussito levanta um debate interessante. Pelo menos muito mais elaborado, teoricamente, do que as infrutíferas acusações sobre a originalidade da música, por exemplo. Através da leitura de Tussito podemos saber das características particulares de determinados momentos históricos por que passou o nosso país. Podemos apercebermo-nos das mudanças de regimes e por ai em diante. Enfim, podemos dar conta da transformação social que ocorreu e ocorre na nossa sociedade. E isso também é tarefa dos sociólogos. A música moçambicana sofreu uma grande transformação rítmica e de conteúdo, uma verdadaira revolução silenciosa, mas com barulho. Acho que nós, os sociólogos de carteira, ainda não demos conta disso. E essa revolução, que se manifesta hoje na emergência de “novos” ritmos como os Mpanza, Xitsuketa, Patrãoes entre outros aspectos como, por exemplo, o conteúdo das músicas, pode ser apenas a crista de algo mais profundo que ocorreu na nossa socieade. Algo que estravaza o esteril debate da “guerra de gerações”. Presisamos ainda de uma sociologia da Música. É assim, ao ler este texto de Tussito, que descubro nele o seu lado de sociólogo, mesmo sem as credencias académicas! Essas abrem muitas portas, menos a da “imaginação sociológica”!