Wednesday, April 11, 2007

Do racionalismo aplicado às irracionalidades implicadas


Filimone Meigos é (na verdade ele não é, está!), portanto, está sociólogo, poeta, ensaísta, actor, enfim, o melhor é parar por aqui. Mone, como carinhosamente o tratamos, dispensa qualquer apresentação. Como referi na postagem anterior, Mone fez uma, brilhante, apresentação na homenagem à professora M. Conceição Osório que teve lugar, hoje, na UEM. Eis, na íntegra, o texto de Meigos. O que estará em falta talvez seja aquele entusiasmo transmitido pelo seu jeito característico. O gesticular Meigoiano nada meigo! Quem o conhece, sabe de que estou a falar. O título é da responsabilidade do próprio autor do texto.



Aprendi a ler Gaston Bachelard nas aulas de Métodos e Técnicas em Ciências Sociais dadas pela mana São, como carinhosamente chamamos à professora Conceição Osório.

Nas suas aulas, ou no famoso “Círculo de Viena,” nosso local predilecto de tertúlias, hoje transformado em secretaria por força de um acto administrativo, replicávamos as discussões sobre o falsificacionismo popperiano ou sobre a estrutura das revoluções científicas Khunianas, para não falarmos dos regimes de verdade foucadianos que ela fazia questão de nos explicar tintin por tintin.

Pessoalmente fiquei muito entusiasmado com o racionalismo aplicado de Bachelard, até porque foi o meu primeiro grande desafio de apresentação nas aulas da mana São, seguido do “Enumeracy”, na “famigerada” aula de estatística do professor Wim, lembram-se?

Mas voltando ao Bachelard, dizia eu que fiquei bastante entusiasmado com o teórico do racionalismo aplicado. A mana São deu-me três volumes: dois em francês e um em português e disse: “Apanhas o quarto livro na biblioteca do Centro de Estudos Africanos, lê-os e apresentas o Bachelard aos teus colegas na próxima semana.

Com a estupidez natural que me é característica, li avidamente os quatro livros, pois ela me asseverara que eu me apaixonaria pelo conteúdo, já que eu era dado às artes. Assim o disse e assim foi: apresentei Bachelard no anfiteatro principal, aos meus colegas, numa aula das treze. Lembro-me como se fosse ontem, chovia nesse dia. Se eu quiser falar na base do mito local direi que era a bençâo dos nossos antepassados.

Por isso entendi que Bachelard aplica muito bem a metodologia das epistemologias cruzadas, utilizando campos distintos do saber tais como a perguntativa filosofia, o devaneio das artes (a poesis grega), o mito dogmático da religião, a rigorosa ciência e o próprio senso comum para o qual o que parece é: Eureka! Disse eu cá para os meus botões: quando eu fôr grande quero ser como Bachelard e aplicar essa racionalidade cruzada para dissecar e compreender para explicar a construção social da realidade. E fazer a minha poesia. E fazer a minha sociologia ensaística. E compreender os sem voz, os que dizem que é o que parece ser. E compreender os que confundem Kant com Comte. E já que estamos a sair da quaresma dizer, a propósito destes últimos: “pai , perdoai-lhes , não sabem o que fazem!”

Mas voltemos, à mana São e à UFICS. Consta dos anais da História que a mana São trabalhou arduamente na concepção de estratégias, planos temáticos e todas a démarches para a existência da UFICS. Ao tempo, a UFICS era pequena: éramos, se a memória não me trai, três turmas de 25 estudantes cada. Depois veio a turma da Kátia. E Depois a do Jauana e Macuácua. E por aí adiante. Todas essas gerações foram “txunadas” pela mana São.

Querelas e questiúnculas fizeram com que o paradigma mudasse e com ele a composição da comunidade científica uficiana. Eis a moral da história: mudaram-se os tempos e as vontades. Hoje fomos apanhados nessa encruzilhada em que houve moblilidade na descendente para uns e na ascendente para outros. Dirão que é o que se espera das revoluções, onde estaria a dúvida?

A minha dúvida, reside na qualidade da nossa comunidade científica e no tipo de perguntas que fazemos. A questão está tal como disse algures, em termos colegas sociólogos que confundem Kant com Comte, ostentando os seus diferentes canudos tirados nos diversos quadrantes, e portanto, legitimados com cartas doutorais.

Posta como está a questão resta-nos uma saída: usar da racionalidade aplicada que aprendemos e garantir à mana São que já começamos os nossos doutoramentos e acaba-los-emos o mais cedo possível. Só assim, podemos honrar aquelas aulas que tanto tempo levaste a preparar e a explicar-nos tintin por tintin os meandros dos quadros e modelos teóricos. O prometido é devido: Seremos PhDs dentro em breve para melhorarmos a qualidade dos legitimadores das nossas ciências sociais contra todas as irracionalidades implicadas neste processo que, como se vê, afigura-se-nos um osso duro de roer. Mas cá está: Depois da época de ouro da filosofia grega passou-se por um período tenebroso em que houve esclarecidos que tiveram que tomar cicuta. Racionalidades irracionais que de vez em quando triunfam. Mas cá está o ditado popular: A mentira tem pernas curtas!