Tuesday, April 3, 2007

Porquê a demissão do ministro se o povo já se demitiu!

Elton Beirão continua a pensar e a brindar-nos com suas reflexões. Por estas bandas há sociólogos, intelectuais, que conseguem sê-lo “sem pensar”, muito menos escrevendo. Não me estou a referir a validade, nem a qualidade do escrito. Refiro-me apenas a ousadia de deixar por escrito o que pensam. Força Elton. De erro em erro vamos acertando. Perdoa-me publicação tardia deste texto andei ausente por alguns dias.
Ainda sobre as explosões do paiol de Malhazine.
Tenho estado a acompanhar atentamente os discursos que circulam nos orgãos de comunicação e pelas esquinas deste vasto Moçambique, e um elemento tem despertado a minha atenção: andam todos dizendo que “os cidadãos isto e os cidadãos aquilo”; “que os moçambicanos já há muitos tempo estão cansados”; “que a população exige que rolem cabeças”; “que o povo não é parvo e já há muito tempo percebeu”; que o governo já não engana ninguém”; etc. Esta colectânea de discursos que circulam deixam-me um pouco confuso. Vamos lá ver se consigo me situar.
Quando dizem os cidadãos, a população, o povo, os moçambicanos, estão se referindo a quem? (Lhe parece uma pergunta absurda? Mas não é). Se referem ao conjunto dos habitantes do país (neste caso Moçambique)? Aos moçambicanos na sua totalidade? Os discursos que circulam me induzem a pensar que a esse conjunto se referem. Mas a partir de que base esta generalização do cidadão, do povo e da população como a totalidade dos moçambicanos? Recorri ao dicionário da língua portuguesa e cidadão, povo ou população pode significar além de habitantes duma nação, também habitantes duma localidade, citadinos (habitantes duma cidade). Então, os discursos se referem aos moçambicanos no seu todo, ou aos moçambicanos citadinos (ou será citadinos moçambicanos)? Ou aos moçambicanos de um lugar específico? (Ainda lhe parecem questões absurdas? Mas não são) O povo, os cidadãos, a população moçambicana (no seu todo”?”) percebeu há muito tempo e está tão cansado que já não se deixa enganar. Isto é, esta ciente de tudo e por iniciativa vai deixando andar (é o deixa-andar não só na função pública mas também nos moçambicanos na generalidade). Sim! Os cidadãos estão tão cansados que votam sempre nas mesmas pessoas e nas mesmas velhas promessas “furadas”. O povo está sempre calado quando chamado a fala (sinal de consentimento? A velha máxima que quem cala consente), porquê o governo já não o engana? Não creio que assim seja. O que vejo é uma “meia dúzia de gatos pingados” composto por alguns académicos, intelectuais, algumas figuras de renome e a comunicação social, intervindo activamente. Mostrando que pensa e que o governo já não engana. Que estão mais atentos. É verdade que a maior parte destes intelectuais, académicos e algumas figuras de renome são cidadão moçambicanos. Mas serão eles representativos dos moçambicanos no seu todo. Representativos no sentido estatístico. No sentido de uma amostra representativa. Não é um procedimento enganador assumir que um grupo restrito e ínfimo (atendendo o número total da população moçambicana) seja estatisticamente representativo dos moçambicanos na totalidade e a partir dai generalizarmos que os moçambicanos estão cansados e já perceberam? Os moçambicanos na totalidade perceberam mesmo? Há certezas que não são mais enganados? Que estão mesmo cansados? E quais são então os indicadores disso? Isto é, quais são as manifestações do povo, dos cidadãos moçambicanos no seu todo que nos levam a concluir que estão cansados e atentos? Respostas para estas questões não as tenho debaixo duma cartola prontas a sair num passo de mágica. Tenho sim mais inquietações. Mas por agora estas estão de “bom tamanho”. E estas todas questões me fazem ainda pensar em como os moçambicanos (pelo menos os citadinos) são incríveis (ainda não sei se no bom ou mau sentido) Que explodiu o paiol, morreu gente (e não pouca), muitos feridos, danos materiais incalculáveis. Isto é um facto, que pelos vistos, para o Estado moçambicano trata-se apenas de danos colaterais. E por isso é também um facto que o governo não se vai responsabilizar por isso (“queixem-se ao Papa se quiserem”). Outro facto ainda é que “meia dúzia” de académicos, intelectuais, figuras de renome e órgãos de comunicação social têm tentado trazer a tona os responsáveis (e diga-se de passagem, sem sucesso algum: como diz o ditado popular, os cães ladram e a caravana passa). E o povo? Os cidadãos? Os moçambicanos na generalidade? Onde é que estão aqueles cidadãos que quase espontaneamente enchem o estádio da Machava para ver os “mambas?” jogar? Que enchem o estádio da Machava para ver os Kassav actuar (pessoalmente acho uma excelente banda musical)? Onde estão aqueles cidadãos que quase espontaneamente ocupam por toda uma noite a praça da independência (no Maputo) quando há eventos de carácter recreativo? Onde estão aqueles cidadãos que quase espontaneamente invadem a praia do Costa do Sol ou Miramar (no Maputo)quando uma certa empresa de telefonia móvel atribui certa cor ao verão e encontra nisso motivos de grandes celebrações? Tive oportunidade de estar na cidade da Beira quando os citadinos do chiveve apanharam a “síndrome de calistoíte aguda”. Ainda lembram-se disso? Quando o vencedor dum concurso (que prefiro não dizer o nome mas que todos sabemos) de caraoke, ou reality show como dizem promovido por uma das nossas televisões voltou ao chiveve com o “troféu?” que foi buscar a Maputo. Pessoalmente não tenho nada contra nem a favor do vencedor do tal concurso ou reality show, muito menos contra a televisão promotora. Quanto ao concurso em si, poderei discutir numa altura própria. Mas antes de nos perdermos, voltemos ao “síndrome de calistoíte aguda” que assolou o chiveve por volta de Dezembro de 2006. Ou usando uma terminologia que esta na moda, a calistoização do chiveve. Nessa altura, em qualquer esquina da cidade da Beira não se falava noutra coisa que não fosse “vota Calisto”; “mandem sms para Calisto”; “o carro é nosso”; “empresta-me o teu telemóvel para votar no Calisto”; “já votaste no Calisto?”; “passei toda noite a votar no nosso Calisto”; etc. Objectivo era reunir votos suficientes para ganhar o tal concurso. Ou será reality show? Volto a repetir que pessoalmente não tenho nada contra nem a favor do tal Calisto. O que chamou-me atenção foi a espontaneidade da mobilização, independentemente das razões que possam estar por trás de tamanha mobilização (que também pode ser discutida noutra altura). Precisavam ver então quando se soube a data da chegada do vencedor do tal concurso (o vencedor foi mesmo o tal Calisto). Foi uma mobilização poucas vezes vista na Beira e talvez em Moçambique. Uma recepção digna de uma selecção que acaba de ganhar o campeonato mundial de futebol. Desde ao mais pacato cidadão até aos mais altos dirigentes da província. É certo que para alguns o objectivo era obter dividendos políticos, mas o grosso dos presentes, talvez 90%, e garanto que não eram poucos, estavam lá quase que espontaneamente. E onde pretendo chegar com isto? Qual será a razão para uma mobilização espontânea em momentos recreativos? Como esta força consegue se impor nos citadinos para momentos festivos e de lazer? Que força é essa que consegue atrair espontaneamente “massas” para alegria e silenciar as mesmas “massas”, em momentos como os que se seguiram a explosões do paiol? O que torna os citadinos impávidos e serenos diante as consequências das explosões? Ou não estão impávidos e serenos mas ainda chocados e espantados com o acontecido? Volto a perguntar, onde estão os cidadãos? O povo no sentido alargado do termo? Os moçambicanos no seu todo? Será que faz sentido falar e exigir demissões se o povo já tomou a iniciativa de se demitir quando chamado a responsabilidade? Antes de se demitir o povo teve o cuidado de consultar seus deveres e direitos? E o povo se demite alegando o quê? Ou está seguindo a letra aquela velha máxima que diz: “os incomodados que se mudem”. (Uma vez que o governo está calmo. São apenas danos colaterais). É A CULPA MORRENDO SOLTEIRA. Elton B.

4 comments:

Patricio Langa said...

Interessante a sua análise Elton da acção ou inacção colectiva.
Coloca perguntas relevantes. É desse tipo de recuperação da realidade que precisamos Elton. Essa da Calistoização do Chiveve é mesmo boa!

GM said...

Vou tentar fugir das generalizações que o Elton tão bem caustica. Mas gostaria de tentar perceber a atitude que se chama apática dos moçambicanos perante a morte. Julgo que esta atitude se baseia em dois factores: (i) Uma perfeita simbiose entre o cristianismo e a tradição, que faz com que o moçambicano tenha uma atitude serena perante a morte (não apática), (ii) a recente guerra da Renamo que vulgarizou a mortandade e (iii) a grande mortandade provocada pela sida que contribui também para retirar todo o mistério à morte.

Com efeito, pelo menos a avaliar pelos funerais em que tenho participado, vai longe o tempo em que, perante a morte, se ouviam choros desgarrados, lancinantes e histéricos, com exigência de que o causador da morte (o feiticeiro) fosse desmascarado e castigado. Creio que o meu pai, por ter nascido já numa família profundamente critã, não assistiu a este tipo de rituais finerários. Muito menos as pessoas da minha geração. Talvez o meu avô, que se converteu quando tinha mais de 20 anos. Nos nossos dias, a morte é contemplada com muita serenidade. Os anciãos mandam isolar todo aquele que se manifeste mais histericamente, para não contaminar o ambiente calmo e sereno dos que velam a morte. Creio que isto não é apatia. É, em minha opinião, uma aceitação de que a morte é a consequência natural da vida. E que o morto continuará a velar por nós para além da morte.

As pessoas enterraram seus mortos e, quando muito, esperam que o governo as ajude a reconstruir suas casas destruídas pela metralha do paiol. Não acreditam, todavia, que a colaboração do governo se mobilize com ruído, com confrontação. Nem vêem em que é que a demissão do MDN ajudaria nessa empresa. A atitude dessas pessoas não é tão irracional como se pensa. Estão convencidas de que conseguirão atingir grande parte dos seus objectivos pela via do diálogo e não da confrontação. É evidente que esta postura parece incomodar todos aqueles que quereriam tirar devidendos políticos da tragédia.

Em relação aos outros dois factores nem me parece necessário me alongar neles. Todos se lembram, pelo menos os que eram adultos em 1992/4 dos camiões militares e civis que iam, literalmente, despejar mortos e estropiados no hospital central. Com grande regularidade. Mortes ocasionadas por ataques a viajantes em machimbombos e em comboios. Mortes ocasionadas por ataques a aldeias indefesas. Mortes verdadeiramente gratuítas. Perante este passado recente, haverá alguém que espere que a morte seja encarada com o mistério de antigamente? Adicione-se a isto os índices crescentes de mortalidade derivadas da sida.

O que estou a tentar dizer é que os moçambicanos não são tão mentecaptos como muitas vezes os descrevemos. Sua vida é guiada por uma racionalidade que muitas vezes nós os chamados intelectuais não conseguimos apreender.

Um abraço. Gabriel Muthisse

Patricio Langa said...

Caro G.M
Bom tê-lo, por aqui, comentando.
Sabe que o admiro pelas suas opiniões, sempre, bem formadas e fundamentadas.
Esperemos que o Elton reaja a sua intervenção. Afinal eu não subscrevo tudo que os contribuintes deste neste espaço escrevem. Na minha modesta opinião falta-nos uma sociologia que se interesse pelos fenómenos que o Elton e o G.M aqui levantam a maneira como reagimos perante catástrofes.

freefun0616 said...

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