Saturday, April 28, 2007

o campo científico em Moçambique

Este é daqueles textos que escrevi e decidi não publicar. Mudei e ai vai!Desactualizado!
Este texto foi escrito no dia 23 de Janeiro de 2006, em homenagem a Pierre Bourdieu (01/08/1930- 23/01/2002), pela passagem de mais um ano após sua morte. Procuro ser Bourdieusiano nas análises que do social engendro. Deve-se isso a minha admiração por Pierre Bourdieu. Bourdieu foi sociólogo Francês de gabarito que viveu entre 1930 e 2002. Reduzir a duas datas e uma nacionalidade a caracterização de um “monstro sagrado” da produção intelectual e científica que marcou uma época é até injusto. Duas datas uma de nascença e outra de morte e uma nacionalidade são elementos insignificantes para quem produziu uma obra que transcende o seu tempo de vida e seu país de origem. Não é nenhum exagero considerar Bourdieu, pela sua obra, património intelectual e científico da humanidade. É impossível negar que Bourdieu influenciou consideravelmente o modo como actualmente se faz ciência, em particular, sociológica. Ao prestar esta singela homenagem alimento a expectativa de colocar diante do leitor alguns, ínfimos, aspectos das propostas teóricas deste sociólogo cujas ideias se impuseram muito para além do círculo restrito dos seus admiradores – como eu – discípulos e até críticos ferrenhos. Ao invés de perfilar aqui toda obra do autor — até por que seria impossível dada a dimensão resumida que pretendo dar a este texto para tão vasta obra — optei por apresentar e usar um conceito central – de campo — na produção teórica do autor e ensaiar uma leitura sociologia do campo científico Moçambicano. O ideal, talvez, seria efectuar análise da génese, estrutura e funcionamento do campo científico em Moçambique, mais esse seria um empreendimento ambicioso, mais uma vez para além do alcance que pretendo com este texto.

A noção de campo científico

O campo científico é, de acordo com Bourdieu, um mundo social, e como tal, faz imposições, solicitações, que são, no entanto, relativamente autónomos das pressões do mundo social global que o envolve. Complicado não é? Pessoalmente considero as sugestões teóricas e conceptuais do autor um tanto quanto difícil de apreender num ápice, por isso vou me deter um pouco mais na tentativa de clarificar melhor o conceito de campo e seu lugar no quadro explicativo do autor. Antes de acrescentar o adjectivo científico detenho-me somente na a noção de campo. Para Bourdieu o conceito de campo representa uma solução para um problema que dominou os debates franceses – com pretensão científica — sobre produções culturais. A filosofia, a história, a literactura, a arte e por ai fora exemplificam essas produções culturais. As interpretações sobre a cientificidade dessas produções culturais suscitaram duas posições contrárias ou antagónicas: uma internalista e outra externalista. Com exemplos isto fica mais acessível. Pensemos no debate dos sobre a morte ou não - ou até sobre a existência ou não - da literatura em Moçambique. Os internalistas sustentariam que para estudar e compreender cientificamente esse debate ou essa literatura seria suficiente a leitura dos textos. Os textos falariam por si, isto é, ganhariam uma autonomia em relação ao contexto de sua produção. Bastaria identificar a presença de elementos que se considerassem constitutivos duma literatura nos textos, e prontos. Por seu turno os externalistas não se contentariam em ler os textos literários produzidos e ignorar o contexto de sua produção. Para os externalistas um texto deve ser relacionado ao contexto na sua interpretação. Contexto aqui significa as condições sociais, económicas e políticas em que o texto fora produzido. Estas constituiriam duas posições irredutíveis e antagónicas na interpretação científica das produções culturais para as quais o conceito de campo pretende ser a superação. A ciência, enquanto produção cultural, também enfermava desta oposição. Por um lado, existia um posicionamento “tradicional” da ciência segundo o qual aquela se produz a si própria sem a intervenção do mundo social. Desde que o cientista obedecesse aos procedimentos de sua disciplina científica estariam criadas as condições para produção científica. Nada ligado a sua pertença e identidade social ou qualquer outro aspecto social era suposto influenciar a produção científica. Como se pode ver esta posição é de um cientismo exacerbado. Por outro lado, um posicionamento menos cienticifista é aquele que considera o conteúdo textual da produção referindo-se também ao contexto social de sua produção. Assim, a noção de campo forjada por Bourdieu não tem o intuito de tomar partido por nenhum dos posicionamentos antagónicos mais procura superá-los na sua (ir) redutibilidade uma a outra. Bourdieu considera o campo literário, jurídico, artístico, científico entre outros como sendo o universo no qual estão inseridos agentes e instituições que produzem, reproduzem ou difundem as produções culturais desses respectivos campos. Cada um desses campos é em outras palavras um mundo social com características particulares, obedecendo a leis sociais mais ou menos específicas. Portanto, cada campo é nesse sentido relativamente autónomo.
A noção de campo acrescido do adjectivo “científico” daria a especificidade campo cientifico. Ao invés de definir o “campo cientifico” — por uma questão de ordem prática desta reflexão — limitar-me-ei a descrever grosso modo algumas de suas propriedades. Neste exercício tenho sempre em mente a experiência moçambicana. Interessa-me pensar na especificidade do nosso campo cientifico. De lá tentarei buscar e esboçar os exemplos que poderão ou não justificar a sua designação como um campo efectivamente. Para o nosso sociólogo homenageado os campos científicos – note que o plural é intencional — são o espaço de confronto necessário entre duas formas de poder que correspondem a duas espécies de “capital cientifico”: um capital que se pode qualificar de social, ligado a ocupação de posições importantes nas instituições científicas, e um capital específico, que repousa sobre o reconhecimento pelos pares. O capital específico é fundamental para a inovação científica. Aquela normalmente ocorre através das rupturas que se estabelecem com pressupostos em vigor por via da contestação.
Devem ter se apercebido que introduzi um novo conceito ao longo da exposição. Capital. É outro conceito que ocupa um lugar de destaque no esquema teórico de Bourdieu. Uma maneira breve de explicitar o seu significado seria explicar como este se constitui. Pois bem, cada campo é um lugar onde se constituem formas especificas de capital. Os que participam no campo político, económico, académico etc teriam capitais específicos correspondentes às posições que cada um ocupa na estrutura desses campos. Isto quer dizer que só podemos compreender, verdadeiramente, o que diz ou faz um agente engajado num campo se estamos em condições de nos referirmos à posição que ele ocupa nesse campo.
O capital cientifico é uma espécie particular de capital simbólico que consiste no conhecimento e reconhecimento atribuído pelo conjunto de pares-concorrentes no interior do campo cientifico. O numero de citações que se fazem de um cientista pelos seus pares é um indicador do crédito ou em outras palavras do capital que detêm naquele campo.

O campo académico Moçambicano

Em Moçambique temos campus universitário, mas persistem do meu lado sérias dúvidas em relação a existência dum campo científico propriamente dito. O primeiro termo refere-se somente ao lugar físico onde decorrem actividades académicas, enquanto que o segundo refere-se a um espaço social, muito além do físico. E se do segundo existe algum sinal de emergência este surge assombrado pelo perigo eminente se ser dominado por um capital “cientifico” social. Em outras palavras o capital científico – se pensarmos nas duas espécies de capital acima sugeridas pelo autor – que predomina no nosso espaço académico é aquele ligado ocupação de posições importantes nas instituições de ensino superior. É mais fácil um cidadão moçambicano responder a pergunta sobre quem é o reitor, vice-reitor, director de faculdade ou de departamento de uma universidade qualquer do nosso país do que citar o pensamento, a teoria ou último livro de um académico Moçambicano. Esta constatação tem algumas implicações para aquilo que seria o “normal” de um campo cientifico. É que a ascendência do capital temporal ou político (administrativo) – isso é, do poder institucional ou institucionalizado que está ligado à ocupação de posições importantes nas instituições cientificas – sobre o capital social (prestigio) pessoal e dum poder especifico mais ou menos independente do precedente e que repousa exclusivamente sobre o reconhecimento pouco ou mal objectivado e institucionalizado, do conjunto de pares representa uma perversão do próprio campo cientifico.

Em consequência disso assiste-se, a título de exemplo, a subversão daquilo que são as regras de jogo e os princípios fundamentais que ditam a concorrência para aquisição de credenciais académicas. O que faz a especificidade do campo cientifico, de acordo com Bourdieu, é aquilo que sobre o que os concorrentes estão de acordo acerca dos princípios de verificação da conformidade ao “real”, acerca dos métodos comuns de validação de teses e hipóteses, logo sobre o contracto tácito, inseparavelmente político e cognitivo, que funda e rege o trabalho de objectivação.

Estudo numa universidade onde semanalmente juntam-se em diferentes salas e anfiteatros académicos de diferentes correntes de pensamento para debater procedimentos, resultados entre outras coisas ligadas as suas investigações. Nesses encontros nunca há consensos absolutos. Na mesma prateleira de uma biblioteca encontram-se livros de autores defendendo uma teoria e na outra a mesma quantidade de livros criticando, questionando os princípios epistemológicos e metodológicos adoptados por uns e outros. A publicação em jornais científicos especializados é uma condição sine qua non para a participação no campo cientifico através do debate. Esses são alguns aspectos característicos dum campo académico saudável. Em Moçambique, porém, único momento que reveste as nossas faculdades de alguma coisa relacionada com a ciência é a presença de docentes e estudantes e claro a defesa da tese. Em algumas universidades estrangeiras a defesa da tese é ritual pré-histórico e já não é praticado, pois existe espaço para debate das teses no decurso da sua elaboração em seminários, palestras para apresentação de resultados parciais ou preliminares. A Defesa de tese - um ritual habitual para a concessão de credências académicas – para nós transformou-se num momento solene, não raras vezes, de expressão da mediocridade com a exibição teatral destinada a fazer ver e a fazer uma maneira de ver que nada tem de cientifico-senão o próprio nome do ritual. Assiste-se a defesas de teses que não tiveram acompanhamento algum de supervisores ao longo de sua elaboração ou se o tiveram pela qualidade não parecem ter tido. Assiste-se a defesas onde o oponente teve contacto – nas raríssimas vezes que isso ocorre – com a tese cinco minutos antes da defesa. Assiste-se a defesas de teses que chumbariam mesmo como primeira versão de um trabalho de ensaio de um novo ingresso da faculdade. Mesmo com todas essas anomalias, um olhar sobre as notas atribuídas nas referidas defesas da impressão de que nas nossas faculdades produzem–se génios pelas notas altas que são atribuídas. Tenho estado a fazer o trabalho de ler teses de licenciatura e de mestrado em algumas das faculdades das nossas universidades. O resultado é desastroso. O campo académico está tão pervertido e subvertido na sua função que o supérfluo virou essencial. Os meios se tornaram fim. Seria, portanto, interessante pensarmos sobre o valor social que se atribui as cerimónias de graduação que se tornaram uma moda nosso meio. O que é que estamos realmente a coroar, nas cerimónias de graduação?

A inovação científica é uma miragem. A produção científica engendrada pelos investigadores/ académicos é a ilusão de que se produz ciência. Vimos acima que um aspecto essencial para a génese de um campo é a existência de uma relação de forças que implicam tendências imanentes e probabilidades objectivas sobre algo em disputa. O que é que esta em disputa no nosso “campo científico?” A luta pela imposição de di-visões é constitutiva dos campos, em particular do cientifico. Não pode haver campo cientifico se não há visões de ciência. Quais são as nossas visões de ciência? Não pode existir campo cientifico se o ambiente académico é dominado pelo silêncio de “gabinetismo”. Não pode haver campo académico se não há produção, reprodução e difusão de trabalhos científicos ou com tal pretensão. É característico de um campo cientifico o confronto de argumentos concorrentes, representações que se pretendem fundadas na realidade dotadas de meios de impor seu veredicto mediante o arsenal de métodos instrumentos e técnicas de experimentação acumulada e colectivamente empregados sob a imposição das disciplinas e das censuras dos campos. Para tal não pode haver um consenso absoluto sobre essas construções e representações. Esse consenso, inquietante, é característico
da nossa academia. Com consenso não há campo cientifico! E prontos. Se todos pensamos da mesma maneira então, ninguém esta pensar efectivamente. Devem alguns achar que há um certo exagero de minha parte quando me refiro à ausência de produção cientifica. Talvez uns até me recomendariam uma visita à imprensa universitária para apreciar as prateleiras que expõe quão, cientificamente, laboriosos somos. Aceito que haja algum exagero sim, mais necessário, pelo marasmo sonolento a que esta acometida a nossa academia. P.L

5 comments:

Egidio Vaz said...

Vou ser sincero:
Li apenas a segunda parte do texto:"O campo académico Moçambicano". Mas parece-me que foi severo e bastante pessimista ao pintar de feio o nosso campo academico sem também compreender as circunstancias em que tudo isto acontece bem como ao não ter trazido alguns exemplos encorajadores. Pelas suas palavras, facilmente pode se chegar a uma conclusão de que estudar em Moçambique eh uma perca de tempo. Agora vou ler todo o texto. Ate já.

ESM said...

concordo com o egídio que o verdicto é demasiado severo, sobretudo porque sugeres apenas exemplos de má qualidade sem referências directas. estás, contudo, de parabéns por levantares estas questões importantes para a actividade científica no país e logo num momento em que há uma intervenção política que me parece mal concebida. suponho que o vício na tua análise esteja no quadro de referência. acho que a noção de "campo" é útil como forma de abordar a diferenciação social e estrutural das sociedades modernas. ela oferece-nos um instrumento razoável para descrevermos a sociedade. é essa propriedade descritiva da noção de campo que te permite identificares o que poderia ser um campo científico moçambicano. contudo, introduzes um elemento novo, nomeadamente uma dimensão normativa na definição de "campo" que te leva a descreveres o campo científico moçambicano por aquilo que não é, mas segundo critérios fixados por bourdieu. assim parece-me inevitável o pessimismo uma vez que limitas a observação ao anedótico. há um peso muito forte do simbólico na apreciação da actividade académica por parte daqueles que dela fazem parte, mas isso não me parece significar que tudo se reduza ao simbólico. a pergunta que acho que devias também levantar é de saber onde a actividade científica propriamente dita está a ter lugar em moçambique e como ela está a lidar com o facto de o campo científico ter sido tomado de assalto por lógicas alheias.

Patricio Langa said...

Agradeço ao E.V e ao E.M pelos vossos comentários.
Concordo em género e grau com as vossas observações.
Eu próprio ao reler o texto senti que pus muita pimenta.
Mas útil, porém, parece-me ser o comentário do E.M.
Distingue-se por identificar o que designa de provável vício na minha análise.
Na verdade não se descreve uma constituição de um campo, seja ele qual for, apenas com referências a um quadro preestabelecido de indicadores ou propriedades. Disso estava consciente. O desejo de alertar para algo que considero ir mal conduziu-me ao exagero. Reconheço isso, algures, no texto. Em escritos mais académicos procurei ser mais cauteloso. Já agora, deixo clara a minha posição. Acho que existem sim “locais do crime”, mas esses parece terem emigrado das universidades, na sua grande maioria. É preciso identificar para onde. As consultorias com todos problemas que se podem levantar (metodológicos e de agenda) parecem-me ser um lugar onde se produz conhecimento sobre pais. Na universidade permanecem ainda algumas individualidades que conseguem, com seu próprio capital social, cultural e cientifico, produzir algo e congregar “jovens” investigadores em seu redor.
Ao Egídio, não se julga um livro pela capa! Desta vez o teu diagnóstico está correcto, mas é sempre aconselhável ir até ao fim para que não nos surpreendamos. Não o estou a criticar por não ter ido até ao fim.
Enfim, mais uma vez o meu obrigado pelos comentários

chapa100 said...

eu acho que existe uma intelectualidade periferica em mocambique. a periferia vive de simbolos que fogem ao campo social instituido pela instituicoes de ensino em mocambique. classificar as universidades pela capacidade de reproduzirem o campo cientifico tem mais haver com o produto da objectividade e nao do social. a intelectualidade periferica pode ser aquela que se manifesta e solidariza-se com o social, porque so assim pode fugir dos espacos de control.
mas o desafio das ciencias socias nao e buscar o simbolico da ciencia mas desafiar o social que legitima a ciencia. e nao e um caso so de mocambique, na europa em paises pos comunistas existe um debate interessante sobre isso.

recordo de alguns debates interessantes na AEMO, sobre a legitimidade do escritor e o espaco social que legitima a producao literaria. para alguns ainda nao estavam criadas as condicoes sociais para uma producao literaria do escritor: como o escritor podia produzir livro se nao tem o que comer, a maquina de escrever,cultura de leitura, etc. e o outro campo que defendia que o escritor devia fazer o capital economico primeiro antes de dedicar-se a literatura. o terceiro ponto era uma resignacao total as duas teses e a escrita.

aqui podiamos falar do escritor turbo e o professor turbo, sao produto do campo academico e lierario mocambicano ou manifesto do social?

freefun0616 said...

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