Thursday, April 19, 2007

DOUTOR É DOUTOR!

Não passam muitos dias que fiz um comentário aqui sobre a tendência para a preocupação com a ostentação de títulos académicos no nosso país. Bourdieu chama a essas credencias de capital cultural institucionalizado. É também de Bourdeiu a ideia de que a desvalorização das credenciais varia numa proporcionalidade directa com a sua proliferação.

Neste contexto o nosso ensino superior, particularmente, o caso da Universidade Eduardo Mondlane, com o aumento considerável de licenciados, entre os quais trabalhadores do chamado corpo técnico administrativo (CTA), a ostentação do título académico de licenciado, ai de quem não me chamar dr. X, não parece ser já um elemento de distinção social e status naquele meio académico. Se a secretaria é chamada dra, o antigo servente também virou dr, o ex-estudante que de monitor(a), um ano depois, passou num galope para regente é dr, vive-se no mundo da doutorice, urge a demarcação de fronteiras de prestígio. É preciso então re-inventar sistemas classificatórios. Já que somos todos doutores então vêm a ênfase: “ eu sou PhD, Eu sou Mestre”, numa busca desesperada pela distinção. Temos assim, Phdados, Mestrados e licenciados!

É o que está a acontecer. Para além dos cartões de visita grafados com letras que até um cego vé, a moda pegou mesmo. Nas paredes principais dos departamentos, particularmente, da faculdade de letras e ciências sociais (logo, aí) verdadeiros monumentos placares estão a ser erguidos nas paredes exibindo os títulos dos membros do departamento, aposição e a qualificação académica. Um quadro do e de estilo: quem é quem! Ou melhor para entrar no balanço MCRogerizado, ao invés de Patrão é Patrão fica: PhD é PhD, Zakazá, Mestre é Mestre,Zakazá, Licenciado é Licenciado, Zakazá, Doutor é Doutor, Zakazá. Para cima PhD, para o meio Mestre, para baixo Licenciado, Zá! O resto é cantiga. Afinal os cientistas sociais são, acima de tudo, tão sociais quanto seus objectos de estudo. E aí, as mesmas leis que procuram estabelecer sobre o comportamento dos outros aplicam-se a si próprios. São tão animais sociais quanto, “os grupos alvos” das suas classificações com pretensões de cientificidade.

O problema é que esse capital cultural (credenciais) que numa academia se devia traduzir por conversão em capital científico de duas espécies fundamentais ocorre fundamentalmente numa. O que acontece é que os campos académicos são lugares onde coexistem duas formas de poder que correspondem a duas formas de capital científico: de um lado um poder que se pode chamar de temporal (politico) e outro poder específico (reconhecimento cientifico). Se o primeiro é um poder institucional e institucionalizado que está ligado à ocupação de posições de direcção(chefe disto e daquilo, director disto e daquilo nas instituições académicas, pertencer a comissão x e z, etc) o segundo repousa exclusivamente no reconhecimento pouco ou mal objectivado e institucionalizado (do trabalho cientifico, essencialmente, medido por publicações científicas) por parte do conjunto dos pares ou da parte mais consagrada dentre eles.
Por razões que não caberiam exploradas aqui, a nossa academia é feita e dirigida pelo poder dos detentores do capital que deriva do poder temporal(politico) e menos do reconhecimento cientifico. Ou não é assim?
ps: Clique na imagem para ampliar.