Tuesday, March 13, 2007

Ciência & Política: debate interessante.


Depois de postar o texto, comentário crítico, do Gabriel Muthisse sobre o meu posicionamento no que respeita as implicações para a universidades da nomeação de reitores pelo presidente da república, publico agora o comentário de Elísio Macamo em resposta ao G.M!

caro gabriel, como sempre, é um imenso prazer ler as tuas intervenções bem fundadas e engajadas. acho que prestas um grande contributo para o fomento do nosso país pela via do debate crítico e isento. espero que mais pessoas, sobretudo aquelas que estão ainda mais perto do poder, percebam que debater não é perder tempo, faz parte do que é necessário para que o nosso país ande. por vezes tenho a sensação de que algumas pessoas ficam incomodadas quando se interpela criticamente. esses são os verdadeiros inimigos do povo.acho que a discussão que estás a travar com o patrício e com todos quantos criticam as decisões presidenciais sobre as universidades públicas (e aí também me incluo) precisa de melhor estrutura para estar mais clara e produzir resultados. penso que devemos separar três assuntos distintos, ainda que ligados:1. prerrogativa presidencial de nomeação de reitores: este é um assunto controverso e espero que quem queira participar neste debate o faça reconhecendo que qualquer posicionamento é substancial. isto é, os que estão a favor não o estão porque são adeptos do poder e os que estão contra não o estão por serem contra o poder. a minha própria posição é de que esta prerrogativa é extremamente problemática e que as decisões tomadas pelo presidente estão a revelar isso. o presidente tomou decisões políticas que, ao que tudo indica, têm muito pouco a ver com a qualidade do ensino superior. quando leio uma entrevista do padre couto em que ele diz que soube da sua nomeação no mesmo dia em que foi anunciada e, ao que tudo indica na entrevista, não teve antes da decisão uma conversa a dois com o presidente para juntos discutirem o problema da universidade, fico, sinceramente, desapontado com o nosso presidente e com a postura intelectual do novo reitor. 2. qualidade do ensino superior: qual é o problema do ensino superior em moçambique? ainda não ouvi ou li uma exposição clara dos problemas do nosso ensino superior. o único que tenho ouvido são lamentações sobre "professores turbo" (termo que agora se usa na saúde também); as nomeações feitas pelo presidente bem como o tipo de pronunciamentos públicos que estamos a ouvir agora dão a entender que o problema do ensino superior em moçambique é de não estar a contribuir devidamente para o combate à pobreza. eu pelo menos não estou convencido de que sabemos que problema é que estamos a tentar resolver aqui; mais importante do que demitir ou nomear é ganhar clareza sobre o problema. a insistência na questão da pobreza revela claramente que estamos a tactear na escuridão. que meios é que são dados à universidade? que capacidades humanas é que ela tem? qual é o desempenho da nossa economia? como é que a universidade pública encaixa com as privadas? etc., etc., etc. perguntas para as quais, que eu saiba, ainda não há resposta. e sem essas respostas as nomeações e demissões só servem para dar a impressão de que pessoas são culpadas, não o contexto político em que elas devem agir.3. relevância da universidade: esta questão é mais bicuda. o primeiro desafio aqui é de definir quem deve definir a relevância da universidade. em minha opinião, não pode ser a política, pois ela não é competente para isso. caso contrário podíamos fechar a universidade e abrir escolas de partido. a política pode dizer à universidade que tipo de problemas gostaria que fossem resolvidos, mas não pode reduzir a relevância da universidade à solução desses problemas. pessoalmente, e a partir da reflexão científica que faço sobre o país, não sou de opinião que a pobreza absoluta seja o principal ou mais importante problema do país. pode ser o principal problema do governo ou de um partido, mas não é o principal problema do país. se há algum lado onde devemos despender a nossa energia neste momento é no reforço do vínculo entre o estado e a sociedade. o nosso principal problema é de ordem política, isto é o problema da representatividade do nosso sistema político e eu, pelo menos, cheguei a essa conclusão a partir da reflexão científica. se o presidente ou o reitor da uem acham que o principal problema é a pobreza, então devo concluir que eles estão enganados e que estão em vias de estragar não só a universidade com falsas prioridades como também o país com problemas irrelevantes. mas repare uma coisa, gabriel: posso estar enganado. a universidade é o único espaço que nos pode permitir reflectir sobre isso; se tu queres uma universidade para te dar soluções, então não precisas de universidade; precisas de escolas técnicas. não concordo contigo quando dizes que é o conhecimento gerado pelas universidades que permite que as nações ocidentais se mantenham na vanguarda do desenvolvimento e do progresso. não. é o espaço crítico de reflexão que, no nosso país, devido a esta preocupação mal concebida e dirigida com a luta contra a pobreza absoluta está a ficar cada vez mais definhado. como vês, o assunto é muito complexo, mas o importante é discutirmos e ficarmos a saber o que cada um pensa. eu gostaria de saber que critérios estiveram por detrás das decisões do presidente. isso não é apenas curiosidade, é para o bem da qualidade das decisões que ele próprio toma. aqui no mundo desenvolvido essas coisas são debatidas em público e isso, mais do que a universidade em si, é que é responsável pelo avanço destas nações. o que lamento nestas discussões todas é que percamos tempo com os méritos individuais das pessoas. já li críticas à decisão do presidente baseadas na ideia de que o novo reitor é padre, por exemplo. acho que a pessoa em si aqui não conta, isto é se é padre, inteligente ou membro da frelimo. o que ele diz é importante e deve ser interpelado. interpelei o facto de ele aparentemente não ter ideia do que vai fazer agora que é reitor; interpelo, agora, uma afirmação que ele faz na entrevista ao notícias para ilustrar o que quero dizer. o jornalista pergunta-lhe o que tenciona fazer para resolver o problema do professor-turbo e ele diz que a solução é criar formas de o docente não dar aulas em mais do que uma instituição (suponho através da melhoria salarial). em minha opinião, contudo, o problema não é dar aulas em muitas instituições, mas sim garantir a qualidade das aulas dadas. portanto, o desafio não pode ser de impedir que não dêem aulas em várias, mas sim de reflectir sobre como garantir a qualidade. mas estás a ver quão nocivo o discurso sobre a pobreza é? pensou como político, não como académico.