Sunday, March 11, 2007

Uma Universidade Relevante

O meu amigo, o economista, Gabriel Muthisse interpela-me com o seguinte comentário ao meu posicionamento céptico em relação ao discurso de combate a pobreza Absoluta do novo Reito da UEM. Resolvi postar o seu comentário em destaque.


Uma Universidade Relevante
O que se espera de uma universidade é, talvez, que ela produza conhecimento susceptível de informar a investigação e o desenvolvimento tecnológico. Julgo que é, em parte, o conhecimento gerado pelas universidades que permite que as nações ocidentais se mantenham na vanguarda do desenvolvimento e do progresso. Haveria obviamente que adicionar, entre outras condições do desenvolvimento, a relativa abundância do capital e um ambiente institucional adequado. O que é que se espera de um centro de conhecimento num país como Moçambique? Pois que seja relevante, tendo em conta o contexto circundante. Que produza conhecimento susceptível de transformar a realidade circundante para um maior progresso. Qual é a realidade que, no nosso país, deve ser transformada? Parece-me que a pobreza é a realidade que mais determina o nosso país. O progresso só é possível se se abordarem os principais determinantes da pobreza. Nós podemos enunciar com muito entusiasmo as teorias económicas mais avançadas (no meu caso) ou as teorias sociológicas que fizeram escola nas mais prestigiadas universidades do mundo (no teu caso) no entanto elas serão irrelevantes se não abordarem os problemas prementes que nos rodeiam. As teorias económicas ou sociológicas e todas as outras devem reflectir a vida real. Elas devem estar baseadas na análise do quotidiano que, no nosso caso, é o de um país mergulhado na fome, na miséria. É o quotidiano de um país enredado em teias seculares consubstanciadas nos costumes que atolam os nossos pés e as nossas mentes, impedindo a nossa descolagem para o progresso.Está a ficar provado que as teorias que aprendemos nas universidades, tanto de dentro como de fora do país, não dão as respostas mais adequadas a todos os problemas universais. A persistência da miséria, o facto de as próprias universidades dos nossos países estarem rodeadas das manifestações mais abjectas da pobreza testemunha esta minha asserção. E uma universidade que se encerra em torres de marfim, e não procura encontrar respostas para estes problemas de pobreza absoluta, é uma universidade irrelevante. Se nos países ocidentais as universidades fornecem as ferramentas essenciais para a investigação científica, para o progresso tecnológico e para o desenvolvimento, isso corresponde ao contexto específico desses países. Aqui, no nosso contexto, as universidades deveriam dar resposta a questões mais primárias. Como garantir que cada moçambicano coma? Parece um problema simples de cada um de nós acordar e, no seu quintal, produzir a mandioca e o milho para o nosso pão de cada dia. Produzir comida para quase 20 milhões de pessoas é uma equação assaz complexa para a qual os economistas, sociólogos, agrónomos, antropólogos e outros cientistas não encontraram ainda a fórmula certa. Se calhar nem começaram a procurar. Porque, segundo pensam, não se podem envolver na luta contra a pobreza.Como não se envolver se esse é, talvez, o problema maior do nosso tempo. Ao referir-se à necessidade de fazer com que a UEM participe mais no combate à pobreza absoluta o Padre Couta não está, em minha opinião, a papaguear um simples slogan político. Quem conhece minimamente o Padre Couto sabe que ele é um dos intelectuais mais finos deste país. Julgo que o que ele pretendeu dizer é que a Universidade deve ter relevância. Não deve limitar-se, como agora parece ser o caso, a ensinar teorias que, presumivelmente, forneceriam respostas a todo o género de problemas. Aliás, lutar contra a pobreza absoluta é, em minha opinião, mais do que um mero slogan. É contribuir para as soluções mais adequadas para os problemas da produção, da distribuição, do relacionamento com produtores de outros países, do processamento e conservação da produção agrícola, do processamento da nossa matéria prima, da convivência pacífica, do aprimoramento dos mecanismos de participação democrática. Enfim, é tactear os melhores caminhos para que sejamos, cada vez mais, um melhor Moçambique. Haverá alguém que pense que uma universidade moçambicana não se mete neste tipo de empreendimentos?

Um abraço. Gabriel Muthisse

3 comments:

ESM said...

caro gabriel, como sempre, é um imenso prazer ler as tuas intervenções bem fundadas e engajadas. acho que prestas um grande contributo para o fomento do nosso país pela via do debate crítico e isento. espero que mais pessoas, sobretudo aquelas que estão ainda mais perto do poder, percebam que debater não é perder tempo, faz parte do que é necessário para que o nosso país ande. por vezes tenho a sensação de que algumas pessoas ficam incomodadas quando se interpela criticamente. esses são os verdadeiros inimigos do povo.
acho que a discussão que estás a travar com o patrício e com todos quantos criticam as decisões presidenciais sobre as universidades públicas (e aí também me incluo) precisa de melhor estrutura para estar mais clara e produzir resultados. penso que devemos separar três assuntos distintos, ainda que ligados:
1. prerrogativa presidencial de nomeação de reitores: este é um assunto controverso e espero que quem queira participar neste debate o faça reconhecendo que qualquer posicionamento é substancial. isto é, os que estão a favor não o estão porque são adeptos do poder e os que estão contra não o estão por serem contra o poder. a minha própria posição é de que esta prerrogativa é extremamente problemática e que as decisões tomadas pelo presidente estão a revelar isso. o presidente tomou decisões políticas que, ao que tudo indica, têm muito pouco a ver com a qualidade do ensino superior. quando leio uma entrevista do padre couto em que ele diz que soube da sua nomeação no mesmo dia em que foi anunciada e, ao que tudo indica na entrevista, não teve antes da decisão uma conversa a dois com o presidente para juntos discutirem o problema da universidade, fico, sinceramente, desapontado com o nosso presidente e com a postura intelectual do novo reitor.
2. qualidade do ensino superior: qual é o problema do ensino superior em moçambique? ainda não ouvi ou li uma exposição clara dos problemas do nosso ensino superior. o único que tenho ouvido são lamentações sobre "professores turbo" (termo que agora se usa na saúde também); as nomeações feitas pelo presidente bem como o tipo de pronunciamentos públicos que estamos a ouvir agora dão a entender que o problema do ensino superior em moçambique é de não estar a contribuir devidamente para o combate à pobreza. eu pelo menos não estou convencido de que sabemos que problema é que estamos a tentar resolver aqui; mais importante do que demitir ou nomear é ganhar clareza sobre o problema. a insistência na questão da pobreza revela claramente que estamos a tactear na escuridão. que meios é que são dados à universidade? que capacidades humanas é que ela tem? qual é o desempenho da nossa economia? como é que a universidade pública encaixa com as privadas? etc., etc., etc. perguntas para as quais, que eu saiba, ainda não há resposta. e sem essas respostas as nomeações e demissões só servem para dar a impressão de que pessoas são culpadas, não o contexto político em que elas devem agir.
3. relevância da universidade: esta questão é mais bicuda. o primeiro desafio aqui é de definir quem deve definir a relevância da universidade. em minha opinião, não pode ser a política, pois ela não é competente para isso. caso contrário podíamos fechar a universidade e abrir escolas de partido. a política pode dizer à universidade que tipo de problemas gostaria que fossem resolvidos, mas não pode reduzir a relevância da universidade à solução desses problemas. pessoalmente, e a partir da reflexão científica que faço sobre o país, não sou de opinião que a pobreza absoluta seja o principal ou mais importante problema do país. pode ser o principal problema do governo ou de um partido, mas não é o principal problema do país. se há algum lado onde devemos despender a nossa energia neste momento é no reforço do vínculo entre o estado e a sociedade. o nosso principal problema é de ordem política, isto é o problema da representatividade do nosso sistema político e eu, pelo menos, cheguei a essa conclusão a partir da reflexão científica. se o presidente ou o reitor da uem acham que o principal problema é a pobreza, então devo concluir que eles estão enganados e que estão em vias de estragar não só a universidade com falsas prioridades como também o país com problemas irrelevantes. mas repare uma coisa, gabriel: posso estar enganado. a universidade é o único espaço que nos pode permitir reflectir sobre isso; se tu queres uma universidade para te dar soluções, então não precisas de universidade; precisas de escolas técnicas. não concordo contigo quando dizes que é o conhecimento gerado pelas universidades que permite que as nações ocidentais se mantenham na vanguarda do desenvolvimento e do progresso. não. é o espaço crítico de reflexão que, no nosso país, devido a esta preocupação mal concebida e dirigida com a luta contra a pobreza absoluta está a ficar cada vez mais definhado.
como vês, o assunto é muito complexo, mas o importante é discutirmos e ficarmos a saber o que cada um pensa. eu gostaria de saber que critérios estiveram por detrás das decisões do presidente. isso não é apenas curiosidade, é para o bem da qualidade das decisões que ele próprio toma. aqui no mundo desenvolvido essas coisas são debatidas em público e isso, mais do que a universidade em si, é que é responsável pelo avanço destas nações. o que lamento nestas discussões todas é que percamos tempo com os méritos individuais das pessoas. já li críticas à decisão do presidente baseadas na ideia de que o novo reitor é padre, por exemplo. acho que a pessoa em si aqui não conta, isto é se é padre, inteligente ou membro da frelimo. o que ele diz é importante e deve ser interpelado. interpelei o facto de ele aparentemente não ter ideia do que vai fazer agora que é reitor; interpelo, agora, uma afirmação que ele faz na entrevista ao notícias para ilustrar o que quero dizer. o jornalista pergunta-lhe o que tenciona fazer para resolver o problema do professor-turbo e ele diz que a solução é criar formas de o docente não dar aulas em mais do que uma instituição (suponho através da melhoria salarial). em minha opinião, contudo, o problema não é dar aulas em muitas instituições, mas sim garantir a qualidade das aulas dadas. portanto, o desafio não pode ser de impedir que não dêem aulas em várias, mas sim de reflectir sobre como garantir a qualidade. mas estás a ver quão nocivo o discurso sobre a pobreza é? pensou como político, não como académico.
patrício, desculpa-me o tamanho do comentário.

GM said...

Caros amigos (Elísio e Patrício)

Deixem-me primeiro referir que eu não acredito que a nomeação de reitores pelo Presidente seja, de per si, um dogma. Eu acredito que as universidades públicas irão ganhando cada vez maior autonomia, o que inclui a prerrogativa de, através de processos internos nos campus, elegerem os seus reitores. Se os amigos se lembram, nem sempre os directores de faculdades, por exemplo, foram eleitos. Eles eram indicados através de processos semelhantes aos usados na função pública. Creio até que o primeiro director de faculdade que seguiu processo diferente (concurso público) foi o Dr. Joaquim de Carvalho, da Faculdade de Economia. Portanto, concordo com o Elísio quando, como princípio ou como ideal, advoga processos de indicação de reitores diferentes dos que são usados hoje.

Num dia em que eu discutia estas matérias presencialmente com alguns docentes da UEM, eu dizia que a autonomia era um processo. Ela não resultaria de uma dádiva dos políticos. A grande maioria dos docentes universitários que eu conheço só está na universidade no momento de dar as aulas. Quando o sino toca já estão fora, ligados a outros empreendimentos. Não estou a criticar, estou a levantar um facto. Esses docentes das minhas relações, que não são poucos assim, não os conheço engajados num projecto de melhorar as próprias “fichas” que distribuem aos alunos na forma de apontamentos. Essas fichas são as mesmas que eles distribuíam há 10 anos atrás. O que estou a tentar dizer é que a autonomia universitária será conquistada por docentes realmente comprometidos com a academia. Que já começam a aparecer. Como resultado do crescimento das próprias universidades. Hoje eu noto nos debates sobre esta matéria que se coloca como critério básico para se ser reitor a posse de um grau de doutor. Parece-me bem. Mas quando é que nós começamos a ter uma massa crítica de doutores nas nossas universidades? O envio de moçambicanos para fora, para se graduarem nestes níveis cimeiros, só recentemente começou a ser feito com alguma consistência. Durante muitos anos nos demos por satisfeitos com licenciados e bacharéis como docentes, como directores do CEA, como directores de faculdades, como reitores. Mais uma vez não estou a emitir critérios de valores. Estou apenas a referir factos.

Como facto, julgo poder dizer que as universidades surgiram em Moçambique como emanações da vontade do poder. Se calhar, quando a UEM, a UP e o ISRI surgiram, não tínhamos condições objectivas para ter universidades. O poder pressionou. O poder quis que elas existissem e aí as temos. Se o poder político fundou as universidades, parece-me lógico que também as tutelasse (tutele) até demonstrarem, de per si, que estão maduras e adultas. E o que é, em minha opinião, uma universidade adulta e madura? Como elemento externo da academia, diria simplesmente que será quando os docentes forem académicos, pelo menos na sua grande maioria. O trabalho académico é o que me indica, a mim, um leigo, que os docentes estão comprometidos com a universidade, com a sua vida (da universidade), seus problemas, suas prioridades. Nessa altura eles conquistarão maior autonomia.

Sobre a relevância das universidades. Primeiro dizer que eu não subordinei a relevância destes centros de conhecimento a solução de problemas políticos. Isto é assim porque eu não considero a pobreza um problema dos políticos. O que eu chamo pobreza é a miséria que todos nós conhecemos, na forma de fome, doenças, etc. Continuo a pensar que esse é o problema maior do nosso país. Problema em relação ao qual uma universidade relevante não se pode alhear. O Elísio diz, a partir da reflexão científica que faz sobre o país, que a pobreza absoluta não é o principal ou mais importante problema do país. Diz ele que pode ser o principal problema do governo ou de um partido, mas não é o principal problema do país. Para Elísio, o nosso principal problema é de ordem política, isto é o problema da representatividade do nosso sistema político. Na verdade eu não fiz uma reflexão científica para ter uma opinião diferente. Penso no entanto que o Elísio não se recusaria se eu lhe pedisse para elaborar um pouco mais sobre esta questão que levanta. Nem que seja para eu discordar com base na minha intuição.

Um abraço. Gabriel Muthisse

freefun0616 said...

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