Wednesday, March 14, 2007

Polícia ou Ladrão?

Todos nós estudantes do social procuramos na medida das nossas possibilidades metodológicas, de competência e de imaginação fazer descrições que se pretendem aproximações fieis da realidade. Essa mesma realidade que é apreendida por nós de diferentes maneiras. Tudo isto surge a propósito de um texto de opinião, que li na edição de hoje do Jornal Notícias, da autoria de ALBINO MOISÉS. Moisés faz uma descrição, interessante, de uma situação em que as suas primeiras impressões foram enganadas:- policia ou ladrão? Quantos de nós não experimentamos situação similar? Lembrei-me logo dos textos lidos de Erving Goffman sobre a representação do sujeito na vida quotidiana. Algumas informações que carregávamos no nosso acervo para identificar certas categorias sociais estão a ficar ultrapassadas e as percepções estruturadas se desestruturando. Esse me parece ser o caso da nossa policia! Os sinais que nos permitiam reconhecer um polícia hoje se confundem com os daqueles que pensávamos serem gatunos. “U vhona ma poliça ma ivela makamba”, a grafia não deve estar correcta, nesta tentativa de traduzir para o Changane uma passagem da música de Chitsondzo sobre esta temática.



SÓ O QUE ACONTECEU - Alto aí! Mãos ao ar! (1)

Hey, alto aí ! Alto! Mãos ao ar! Gritou o homem armado empunhando uma AKM em riste apontando a minha testa, a uma distância de três metros. Antes de obedecer aquela voz virei e olhei para trás. Não vinha ninguém! Afinal aquela ordem era mesmo para mim! Fiquei “gelado”. A zona era pouco iluminada ali na Avenida de Moçambique, no bairro da Liberdade, em Maputo. Eram cerca das 23.30 horas de um domingo.
Maputo, Quarta-Feira, 14 de Março de 2007:: Notícias
Obedeci a voz ameaçadora: parei e ergui bem alto os braços. Pensei: “isto é um assalto, se brinco este tipo limpa-me. O homem carrancudo trajava verde-escuro. Com as pernas firmes, ligeiramente afastadas em posição de atirar. Tinha a minha testa na sua mira. O cano daquela arma podia vomitar a sua carga letal à qualquer instante...
Naquele instante, eu inaugurava uma nova condição de que não havia registos em toda a minha vida. Em pouco tempo “abri” todos os meus “files” do passado, entrei no meu “disco-duro” e pus-me a “processar” e não detectou qualquer “maka” ou “ximoko” que eu tivesse “aprontado”. O cadastro está(va) limpo! Fiquei tranquilo, afinal, quem não deve não teme! E aquele tratamento vinha a que propósito?
Enquanto isso, o homem possante continuava empunhando a sua AKM à minha frente, silencioso. Como quem esperasse que eu lhe desobedecesse com um “pé falso”, pretexto para me estoirar os miolos e despachar-me para o inferno! De repente, dois colegas de testas franzidas vieram e pegaram-me brutalmente, encostando-me a uma acácia. E eu a cumprir sempre com a ordem de “mãos ao ar”! Nalgum momento, quis insurgir-me, mas recordei-me de uma dica que li ou ouvi sei lá quando e aonde, que aconselha no caso de um assalto à vítima colaborar com os assaltantes, evitando irritá-los. Não iria armar-me em valentão! Sabe leitor(a) há casos de gente que morre porque não aceitou “entregar” o seu “Nokia 5110”, um colar banhado em ouro, um relógio...que seguramente, tarde ou cedo voltariam a adquiri-los! É que a vida é só uma, e até hoje a única preciosidade que ninguém se deu ao capricho e ao luxo de guarda-lo no cofre de um banco. Se morreu, morreu! (“nem mesmo as extravagantes estrelas de Hollywood”!)
Ora bem, dizia eu que os homens encostaram-me à uma árvore, um deles bateu nos meus calcanhares, enfiou uma bota pesada entre os meus sapatos, abrindo, assim o ângulo das minhas pernas. Nesse instante, iniciava a revista minuciosa, palmo-a-palmo ao longo do meu corpo. Ou seja, da ponta dos pés até aos cabelos. Na vasculha acharam apenas a minha carteira de documentos pessoais que prontamente ma devolveram. Ficou evidente que afinal não era nada daquilo que eles procuravam! Fiquei “burro”, não percebi nada!
Ficaram visivelmente frustrados com a operação. Eu acabava de engrossar a lista de “cidadãos inocentes” vítima do uso excessivo da força. Eu não era a pessoa ou topo de gente que caçavam. E mesmo depois de tudo, não escapei a uma pergunta algo patética, “você não traz aí uma faca, catana ou machado?” Respondi pelo silêncio. Era desnecessário fazê-lo verbalmente. E como ele não percebeu o “tom alto da minha resposta” (pelo silêncio), voltou à carga, “você não faz parte do “G-8”, aqueles que andam aí com catanas"?
Só depois desta pergunta é que me apercebi que afinal não se tratava de um “assalto” (pelo menos não era o assalto clássico em que as vítimas são despojadas dos seus bens). Paulatinamente, me fui apercebendo que se tratava de uma força heterogénea que combinava agentes da PRM, FDM e PIR.