Monday, March 26, 2007

Sociólogo Elton Beirão reflecte sobre as explosões do paiol de Malhazine

Elton Beirão é sociólogo e traz-nos uma reflexão sobre a explosão do Paiol. Espero que este seja o despertar da nossa geração de sociólogos, a primeira formada dentro do país. É altura de tomarem vosso espaço. Retirem das gavetas ou computadores essas análises que guardais e ofereçais a este público sedento de uma visão crítica da realidade. Parabéns Elton por dares o ponta pé de saída!
As explosões do paiol de Malhazine vs. Thomas Hobbes e "as razões para existência do Estado"

A cada dia que entro em contacto com os órgãos de comunicação, vou tendo conhecimento que o número de vitimas esta aumentando. E a cada aumento do número de vitimas nasce em mim a esperança que os responsáveis por tanta negligência dêem as caras. E a minha frustração por não ver isto acontecer faz me pensar mais e mais em Thomas Hobbes. E porquê? T. Hobbes defende que a origem do Estado está num contrato/pacto firmado entre homens (que viviam sem poder nem organização), se estabelecendo a partir dai as regras de convívio social e subordinação política.

O Homem firma o pacto para sair da condição de guerra generalizada de todos contra todos, onde cada indivíduo governa-se por sua própria razão e pelo direito de preservação da sua vida podendo mesmo apossar-se do corpo dos outros. Isto é, enquanto cada homem detiver seu direito de tudo fazer (incluindo matar), todos homens se encontram na condição de guerra. A saída passa por cada homem ceder o seu direito de proteger a sua vida e de se governar como bem entender à um poder soberano ―ESTADO (“Cedo e transfiro meu direito de governar-me a mim mesmo a este homem, ou a esta assembleia de homens com a condição de transferires a ele teu direito, autorizando de maneira semelhante todas as suas acções”–Leviatã, cap. XVII).

Assim, os homens estão dando ao Estado (que tem de ser soberano) o poder de instaurar a paz entre os homens garantindo sobretudo a vida destes mesmos homens. E todos concordam em obedecer a este Estado. Mas se o soberano (Estado) não consegue garantir a vida e segurança dos homens, desaparece a razão para que qualquer homem lhe deva obediência.
Para o nosso caso concreto, temos em Moçambique um poder que é soberano e que resulta de eleições. Isto é, temos um poder soberano instaurado por um pacto/contrato ― que são as eleições realizadas em 2004. Este poder soberano, dentre várias obrigações, tem a responsabilidade de garantir a segurança e vida dos cidadãos.
Na perspectiva Hobbesiana, se o mesmo (poder soberano Moçambicano) não consegue cumprir a principal razão da sua existência (garantir a paz e vida) qual seriam as razões para sua continuidade?
Com isto, pretendo chegar ao ponto que é inconcebível que num país com um governo eleito, morram mais de 80 pessoas e ninguém se responsabiliza por isso. CULPA NÃO PODE MORRER
SOLTEIRA